Evolucionismo, Criacionismo e a Filosofia

Darwin

Para permanecer humano, o homem deve transformar-se em super-humano!

Seyyed Hossein Nasr, Knowledge and the Sacred

Há muito que existe um debate acirrado entre o evolucionismo, o criacionismo, a Filosofia e o ensino. Evolucionistas e criacionistas debatem incessantemente para que o adversário seja excluído do currículo escolar, assim como o status “científico” do criacionismo. Por conseguinte, há um receio do avanço do obscurantismo, da presença da religião na escola e na universidade, etc.

Em minha opinião, existe, na verdade, uma má compreensão do que seja a situação científica da evolução e da criação. O entusiasmo de cada um dos lados impossibilita uma melhor solução para esta polêmica. Vou primeiro apresentar minha visão do criacionismo e, logo depois, sobre o evolucionismo. Não aceito que nenhum dos dois sejam ciência verdadeira, deixo já claro.

O criacionismo parte da ideia que temos um Criador, um Deus, geralmente da Bíblia, e que os efeitos da sua criação são visíveis para todos nós, especialmente para os cientistas. Sim, o universo é algo maravilhoso, fantástico, podemos livremente debater se Deus o criou ou não, alguns aceitam um Deus do tipo da Bíblia, outros podem ver nesta organização do universo a presença de um Demiurgo que organiza a matéria, ou também alguma energia mais ou menos definida, sem identificação com o Deus da Bíblia, mas que crie e organize o mundo.

Quando afirmamos que pelos efeitos que vemos no mundo e no universo, pressupõe-se uma inteligência ordenadora que tenha feito tudo isso, e que cabe à ciência provar e demonstrar Deus (imaterial) pelo sensível (material), há todo um erro que precisa ser rejeitado. Podemos cair no argumento de Kant de que a ordem do universo pode no máximo demonstrar um Demiurgo, mas nunca um Criador. Como podemos demonstrar Deus pela matéria? Se isto fosse possível, a existência de Deus teria sido aceita por todos os povos em todos os tempos, e não haveria necessidade de ciência alguma; entretanto, se cabe à ciência contemporânea provar que Deus existe pela astronomia, pela biologia e outras ciências, caso isto fosse possível, então nada restaria de filosofia ou de religião; todas as respostas seriam dadas. Igualmente, no evolucionismo tudo é transformado num vir-a-ser infernal e contraditório, que se fosse verdadeiro acabaria também com a filosofia, pois esta lida sempre com o que já aconteceu, e nunca com o que está por vir. Não há como provar que Deus existe por nenhuma ciência do mundo sensível, e quem diz o contrário não entende nada de Deus ou de ciência. Qualquer prova, e não é prova por meio de instrumentos da ciência, mas sim pelo uso da razão e do entendimento, só pode ser oferecida pela filosofia ou pela teologia. Repito, se alguém acha que isso é insuficiente, não compreende além da ciência, a própria filosofia.

O evolucionismo tornou-se algo bem mais complicado em nosso mundo. Virou praticamente uma religião para muitos. Poucos percebem as semelhanças entre o evolucionismo e o criacionismo: são fruto da religião, pois o criacionismo tem origem na defesa da gênesis bíblica, enquanto o evolucionismo é fruto do esquema histórico do Cristianismo, assim como o marxismo; ambos são finalistas, já que o criacionismo coloca o homem como ápice da Criação, assim como o evolucionismo, mas ao menos os criacionistas creditam a Deus este privilégio, enquanto os evolucionistas apelam ao “acaso”. Não permitem perguntas, pois os criacionistas, como são religiosos, tomam o ataque à sua ideia de criação como um ataque à própria fé, enquanto os evolucionistas têm sua teoria como dogma que não pode ser discutido, senão você é alguém que veio da Idade Média, entre outros adjetivos.

A teoria de Darwin, ao contrário de outras teorias científicas, não foi tomada por seus adeptos como algo que possa ser refutado, ou seja, provado falso, ou mesmo superado. Pelo contrário, foi aceita por muitos com um entusiasmo e um ardor que impressiona. Da mesma maneira que coloquei algumas observações filosóficas no caso do criacionismo, faço o mesmo com o evolucionismo. O apelo religioso no caso criacionista é bem evidente, mas a presença da religião e da filosofia no evolucionismo fica mais mascarada pelo encobrimento (falso) da ciência positiva.

A teoria da evolução de Darwin pode ser questionada assim como qualquer outra ciência, apesar de que, no esquema histórico, e não no gnóstico (como dizia Eric Voegelin), isso seja vetado. No Cristianismo, no marxismo e no darwinismo, todos históricos, fazer perguntas é sempre algo muito arriscado. Não existe nada mais dialético do que um comunista antes de tomar o poder, assim como nada mais antidialético depois que chega ao poder. No esquema histórico, a dialética socrático-platônica tal qual demonstrada no diálogo Parmênides é impossível.

Ambos, criacionistas e evolucionistas, não compreendem o verdadeiro significado da ciência. Os evolucionistas em grande parte são materialistas; os criacionistas, religiosos. Ambos querem fazer o material explicar o material. Isso não é ciência. Como disse muito bem Mário Ferreira dos Santos em seu Tratado de Simbólica, a verdadeira ciência surge do choque dialético entre o imaterial com o material. Nossa razão e entendimento se chocando contra o material, para daí nascer uma síntese. É o mesmo pensamento que dizia Avicena em sua Metafísica. Os criacionistas querem que a ciência e seus instrumentos (materiais), analisando a matéria, chegue ao conhecimento de Deus; os evolucionistas abdicam do espírito, e julgam que, com as “evidências” imediatas dos sentidos, toda a origem da vida pode ser explicada. Não é pouca coisa!

O evolucionismo de Darwin parece para mim como uma monstruosa indução aristotélica-empirista britânica. Há uma imediata rejeição por parte de Darwin de que Deus possa ter criado as espécies de maneira fixa. A partir disso, por que certas coisas parecem para ele confirmar sua ideia já pré-concebida, e olhe que o conceito de evolução não é dele (Étienne Gilson, From Aristotle to Darwin and back again), a partir dos dados dos sentidos que nos fornecem algumas semelhanças entre homem e macaco, e que se, existem seres diferentes entre os da mesma espécie, logo há seleção natural, logo Deus não criou as espécies fixas, porque meus sentidos me fornecem estas impressões, e toda extraordinária variedade de vida na Terra precisa ter uma única causa, que eu não sei definir, mas também não quero que os outros me questionem…

Carl Sagan dizia, mirando os religiosos, que “afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias”, mas isso deveria servir para o evolucionismo, porque a base do evolucionismo são as evidências sensíveis, mas a defesa, uma vez que os seres não evoluem diante dos nossos olhos, precisa ser feita toda no sentido filosófico/teórico, até mesmo citando dialética hegeliana, ou apelando para o fato de que a evolução acontece é porque não há fósseis como testemunha.

Apresentar tal teoria nas escolas e universidades como fato consumado e que não pode ser contestado é um erro. Nem o criacionismo prova que Deus criou o mundo nem o evolucionismo prova que Deus não criou o mundo e que evoluímos do macaco (não importa que sejamos primos, ou seja, de um ancestral comum, o tal ancestral obrigatoriamente foi um macaco). Supostas evidências sensíveis não são suficientes e não podem passar por cima de argumentações metafísicas. Se o macaco é assemelhado de alguma maneira com o homem seja em comportamento ou em termos genéticos, isso não prova nada. Aliás, poucos questionam isso, no evolucionismo darwinista, o ser humano “evoluiu” não apenas do macaco, mas temos ancestrais comuns também com baratas, ratos, mosquitos, vermes, etc, pois viemos do mesmo ser primordial não-definido. Não há Humanismo que possa resistir ao darwinismo, e todos os valores da filosofia grega e da religião, seja lá qual for, tendem a ser, se não a princípio destruído, ao menos rebaixado. Eu posso muito bem ver nisso tudo um panteísmo dos mais grosseiros, mas há a liberdade de questionar estas coisas na academia, nas escolas?

No esquema de Darwin, o que vem por último explica o que vem primeiro, e não o contrário. O menos complexo dá origem ao mais complexo, o inferior ao superior, o mais autoconsciente vem do menos consciente. Nele não há uma reflexão moral, pois o reino da natureza e nossos sentidos nos fornecem a informação que neste mundo há uma guerra de todos contra todos; que os mais fortes dominam os mais fracos, e que os últimos tendem a perecer; que certos povos são inferiores e outros Schopenhauer. A opinião de alguém como Tomás de Aquino não difere de um cientista que pretende tirar conclusões através da indução via sentidos. Para ele, a mulher é naturalmente inferior, e aqueles que possuem comportamentos que ele julga inadequados, não podem ser uma Imago Dei. Que diferença de um Fílon de Alexandria! Platônico como era, ele ensinava que o ser humano, homem ou mulher, é uma imagem de Deus independentemente do comportamento ou da forma física, pois esta semelhança era do intelecto, que é invisível.

Tanto o evolucionismo quanto o criacionismo deveriam estar na categoria de filosofia, já que são apenas teorias impossíveis, ao menos na minha opinião, de serem provadas cientificamente. O caso do evolucionismo é ainda pior, porque a quantidade de alegações de supostas evoluções de um ser de outro são incontáveis, e as provas deveriam multiplicar-se diariamente, mas não é o que acontece.

Existe um entendimento errôneo do que seja evolução, que não nego que possa acontecer, uma vez que nenhum ser é um sistema completamente fechado. A filosofia aristotélica influenciou a mim e ainda é importante para muitos sobre questões como potência, princípio de não-contradição e outras áreas. Porém, ela é um sistema, e deixa pouco espaço para mudanças ou para explicar satisfatoriamente o problema como um todo. Evoluir é possível, mas não se transformando em outro ser. Popularmente se diz que ninguém pode dar aquilo que não tem. Como ensinou o filósofo neoplatônico Proclo (Elementos de Teologia), para você gerar algo melhor, você mesmo deve evoluir antes, mas o que for gerado por você será sempre inferior a você. Exemplo: posso gerar o melhor computador do mundo, mas ele vai ser sempre inferior a mim; posso gerar um filho, e ele será igual a mim, nem inferior, nem superior. Não posso, porém, gerar algo superior a mim, como um anjo ou uma divindade. A não ser, e isso parece ser o que alguns evolucionistas entendem, que haja uma divindade aprisionada na matéria e que esta seja solta de vez em quando fazendo com que espécies inteiras “evoluam”.

O filósofo René Guénon, em seu livro O Erro Espírita, ridicularizava a ideia de “evolução” no sentido transformista. Em uma escala de eternidade, escreve ele, tanto faz você estar em um ponto ou outro do nosso tempo. Outros já vieram antes de nós e outros virão depois de nós. A vida e as formas que surgem a cada momento são produzidas desde sempre e assim continuarão a aparecer. Não há um esquema histórico no universo. Há sim, afirma ele, uma possibilidade de evolução, mas essa é dada apenas na simultaneidade, e nunca em uma sucessão histórica! Como viu maravilhosamente Nicolau de Cusa, nós precisamos abandonar o princípio de não-contradição de Aristóteles para que a evolução aconteça. Somos deuses criados, finitos/infinitos, mortais/imortais. Perceber que o centro do universo está dentro de nós onde quer que estejamos, e as possibilidades do discurso (e da ciência) são infinitos!

Proclo dizia algo que os evolucionistas deveriam recordar: toda a ciência é ciência das causas. Sem que eles definam se há uma finalidade no universo e na suposta evolução de Darwin, qual a natureza metafísica do ser primordial que deu origem a toda vida na Terra, tudo é afirmação gratuita. Outras perguntas: se ele (o primeiro ser) era uma divindade (panteísmo) ou se ele liberou uma centelha divina nos seres que vieram após ele (gnosticismo); se o ser primordial é inferior aos seus efeitos, definir em termos metafísicos como isso poderia dar-se, citando antecedentes, fontes, exemplos. Se ele tem uma natureza divina, ele só age na Terra? Ele pensa em termos de História? Ele se dá a conhecer?

Para Platão, o evolucionismo e seu método indutivo pareceria bizarro. No diálogo platônico Parmênides, o método dedutivo-hipotético está delineado. Parte-se de uma hipótese, e depois temos que hipotetizar a mais alta hipótese, num jogo dialético infinito, pois toda a ciência é conjectural, e não feita de “paradigmas”. Se as perguntas feitas acima, que lidam com que há de mais complexo e importante no mundo, que é a vida, especialmente a humana, não podem ser respondidas nem abordadas, então que ciência pode ser feita?

Na célebre definição de Platão “quem vê o todo é filósofo; quem não vê, não é”, está a chave para a compreensão mais profunda de toda essa discussão. Platão ensinava que era tarefa do filósofo reunir a multiplicidade na unidade, e que o Um e o Múltiplo poderiam conviver. Não há uma única ciência, não há uma natureza que destrói os “fracos” para atingir a perfeição, porque novas formas surgem a todo momento, e a multiplicidade da vida, mesmo daquelas que nossos sentidos entendem serem mais “fracas”, fazem parte de algo maior que o nosso entendimento atual; assim sendo, a multiplicidade é explicada em uma unidade em termos metafísicos. A existência de divergências, sejam políticas, científicas ou religiosas faz parte de um todo; não deve haver apenas uma religião e todos não vão aceitar uma única verdade. A ciência permanece junto a nossa busca por uma melhor compreensão do universo em que vivemos, e as perguntas sobem do da Terra ao Céu incessantemente, numa dialética verdadeiramente bela.

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Comments

  1. Caro amigo, obrigado pela mensagem.
    Não quis partir nem de Popper nem de Kuhn. O que eu pretendi colocar no meu artigo foi que a Teoria da Evolução faz vários tipos de afirmações que inundam o noticiário científico, mas que ninguém mais exige que sejam provadas. Você diz que as teorias evoluem, e é esse o ponto que gostaria que você me esclarecesse se puder, já que não sei sua formação. O evolucionismo primeiro dizia que as espécies evoluíam em um intervalo de tempo enorme, dessa forma seria fácil achar os fósseis que comprovariam a evolução. Então a teoria estaria certa. Depois surgiu a teoria do equilíbrio pontuado. As espécies fariam sua evolução de maneira rápida, portanto dificilmente achariam-se fósseis que comprovassem este fato. E o evolucionismo estaria certo da mesma forma. O que queria que alguém pudesse me explicar é como provar que as alegações do evolucionismo são falsas. Eu não consigo ver como. São 150 anos das mais diversas teorias de que animais inferiores geram os superiores sem nenhuma prova, o que torna o evolucionismo mais em uma filosofia do que ciência para mim. Homens e macacos segundo a teoria têm um ancestral em comum, mas qual? Se você for formado em uma área de ciências você poderia me explicar como isso acontece. Eu já li sobre isso e não vejo provas, apenas teorias, o que para uma ciência que já está há tanto tempo buscando ser comprovada com milhares de alegações de supostas evoluções é muito tempo. Mantenho, portanto, a tese de que a evolução é mais uma tese de filosofia de que ciência.

  2. Sim, essa é uma tática “esperta” dos evolucionistas. Darwin afirmou claramente que o homem descendia do macaco, mas como não encontrou os fósseis…depois, seus seguidores afirmaram que o homem e o macaco tinham um ancestral comum, que só pode ser um outro macaco, porque outro animal não pode ser.

  3. Sugiro que você faça perguntas em nível filosófico. Use as perguntas que podem ser feitas a partir do meu artigo “Algumas citações de Proclo de Constantinopla contra o Evolucionismo.”

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