Resenha: Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant

Umas das obras mais importantes da filosofia em todos os tempos, A Crítica da Razão Pura, do filósofo alemão Immanuel Kant, busca, antes de tudo, responder à pergunta sobre o que o ser humano pode conhecer ou, até onde a nossa mente pode chegar nos questionamentos sobre os porquês do mundo.

Kant definitivamente não era um bom escritor e a leitura de todas as suas obras é bastante penosa, mas o leitor não precisa abandonar o pensador por causa disso. Por que o pensamento kantiano se tornou tão importante a partir deste livro? Todos ouvem falar ou leem sobra a “Revolução Copernicana” que Kant teria feito a partir de sua Crítica, mas poucos entendem o real significado de tudo isso.

Desde o século XVI, duas correntes filosóficas se enfrentavam na Europa: de um lado o Empirismo Britânico; de outro, o Racionalismo da filosofia continental. A tradição do Empirismo Britânico negava a importância da metafísica e também a existência de ideias inatas no ser humano. Todo o conhecimento, para eles, tinha origem nos sentidos e na experiência, o que nada mais é do que o antigo ensinamento de Aristóteles.

Já o Racionalismo Continental dava importância à metafísica e afirmava a existência das ideias inatas no homem. As duas correntes não poderiam chegar a um comum acordo. O que fez Kant? Ele simplesmente ultrapassou este antigo debate e afirmou que ambos estavam certos e errados ao mesmo tempo. As ideias inatas existem sim, só que Kant prefere o termo a priori, mas esse a priori necessita da experiência para confirmar-se. A matemática, por exemplo, é totalmente a priori, não teve origem na experiência. Nem mesmo nossas ideias morais.

A Revolução Copernicana levada adiante por Kant é uma forma radical de antropocentrismo, como disse Étienne Gilson. Faz parte do Idealismo kantiano, assim chamado de Idealismo Transcendental. Qualquer um que leia os textos escritos por filósofos realistas como Tomás de Aquino percebe que o realismo é uma filosofia voltada para os objetos sensíveis do mundo real. O ser humano está em um mundo de objetos localizados dentro de um espaço e tempo. No idealismo de Kant, a existência dos objetos dependem do sujeito que os percebe. Sem sujeito não há objeto. Da mesma forma, o espaço e o tempo não existem fora do sujeito, pois não existe a possibilidade de saltarmos para fora do tempo, digamos assim. A partir desses fatos, a mente humana passa a ter uma importância muito ampliada, pois não somos jogados em um mundo de objetos sensíveis, mas são as coisas que passam a girar ao redor de nós, pois sem uma mente para reconhecê-los, os mesmos não existiriam.

Kant pretende substituir as antigas categorias aristotélicas nesta obra, mas não parece ter sido muito feliz, pois seu discípulo Schopenhauer o criticou duramente por isso, julgando que as categorias propostas por Kant são inúteis. Mais importante foi a tarefa que Kant adotou foi a de criticar as antigas provas da existência de Deus que vinham desde a Idade Média, especialmente a prova Ontológica. Será que ele conseguiu?

Segundo Bertrand Russell, Kant pode até ter tentado, mas não conseguiu por abaixo a argumento Ontológico de Santo Anselmo, que foi adotado por Descartes no período moderno. Eu particularmente acredito que Russell tenha razão. Kant foi mais preciso em relação ao argumento Cosmológico, que parte do princípio de que a beleza e a organização do cosmos pressupõe um Deus Criador, pois os seres e coisas do mundo não possuem dentro de si a causa de si mesmos. Kant, no entanto, ensina que o argumento Cosmológico no máximo demonstra a existência de um Demiurgo organizador das coisas existentes, mas não de um Jeová que cria tudo a partir do nada.

Toda a preocupação que Kant demonstra quanto às provas da existência de Deus têm relação com sua teoria do conhecimento e sua divisão entre o mundo noumênico e fenomênico. A razão não deve tentar ultrapassar o mundo da experiência, que é o mundo do fenômeno. A assim chamada coisa-em-si nos é inacessível. A razão não pode ter acesso ao noumenon. Toda a Teologia é inútil nesse caso. Tentativas de provas da existência de Deus fazem parte apenas da história. Schopenhauer irá criticá-lo por ter dito que a coisa -em -si é inacessível. A coisa-em-si é a Vontade, segundo ele. O mesmo Schopenahuer atacará duramente Hegel por ter traído Kant e sua advertência de não ultrapassar os limites de nosso conhecimento. O Espírito Absoluto hegeliano é, para Schopenhauer, um gigantesco argumento Ontológico sob novas roupagens. É uma nova teologia encoberta sob uma multidão de palavras grandiosas e, ao mesmo tempo, desconexas.

A única prova válida da existência de Deus, segundo Kant, é a Moral, que nada mais é que a existência das verdades eternas. Esse argumento foi primeiramente elaborado por Santo Agostinho, mas tinha uma força mais teológica e metafísica que o de Kant. Em sua Moral, Kant vai estabelecer um dualismo que considero importante por causa da contradição que enfrentamos entre uma moral elevada no campo noumênico e seu comprometimento no mundo fenomênico. Hegel afirmará que todo Racional é Real, Marx irá inverter esse argumento dizendo que todo Real é Racional. Ambos são otimistas, mas a visão kantiana para mim é superior, pois encara esta contradição.

Kant vai criar uma grandiosa ética do dever. “Tu deves”, diz Kant. Schopenhauer o ironiza pelo fato de que uma ética baseada em mandamentos e comandos solenes só é possível com a existência de um Deus bíblico comandando por detrás. De qualquer maneira, Kant é uma referência no campo moral, político e também no da Bioética por suas observações bastante pertinentes. O livro é leitura obrigatória para quem quer compreender a filosofia em todo seu significado.

Comments

  1. Roberto Arouck says:

    Mais é um livro fundamental para a ciência ocidental um passa a frente da Filosofia

  2. estou tentando ler esse livro que pareceu me mais compreensível em comparação ao Metafisica de Aristóteles e o livro dos Pre-socráticos.
    Por que Kant e os filósofos em geral, tendem a fala tanta coisa que mais confunde do que explica?, desenvolvem demasiados textos pra falar sobre coisas Obvias que poderiam muito bem ter sido compactadas. Eles pregam que “devemos levar a verdade ao povo” mas isso chega a ser uma Medíocre contradição pois se uma pessoa, como eles dizem, comum for ler algo assim, ela vai queimar o livro, isso se não bater na pessoa com ele.

    • Kant escreve pessimamente. Já Aristóteles, pelo que conhecemos, não escreveu diretamente seus livros. A Metafísica é um conjunto de aulas que ele dava aos seus alunos, por isso ficamos com a sensação de que ele quer sempre dizer alguma coisa mas não consegue.

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