Resenha: A History of Philosophy- Volume II, de Frederick Copleston

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Frederick Copleston escreveu uma série de livros sobre a história da filosofia que são referências para o público de língua inglesa. Infelizmente, seus livros não estão disponíveis em português. Existe a tradução da filosofia na Idade Média de Étienne Gilson, que é uma grande obra, porém eu achei o segundo volume de Copleston que trata da filosofia medieval superior à de Gilson. Como toda a história da filosofia medieval, Copleston também inicia sua história da filosofia no período da patrística. Este foi um período de pouca filosofia e muita teologia, como demonstram todos os livros de filosofia medieval. O período que vai da patrística até o século XIII é todo dominado pelo pensamento neoplatônico. Os medievais não tiveram acesso à nenhuma obra de Platão, com a exceção do Timeu, e de Aristóteles até o século XII. Isso deixou o Ocidente latino em desvantagem em relação ao Islã. Toda a  ciência grega havia sido transportada para o mundo islâmico pelos monges sírios, enquanto o Ocidente tinha que se contentar com o que havia sobrado das invasões bárbaras. Com o aparecimento no século XII das obras de Aristóteles, a Igreja passou a ser confrontada por um sistema filosófico até então desconhecido. No século XIII, vários teólogos tentaram harmonizar a doutrina aristotélica com os ensinamentos do catolicismo. Lendo como foi esse desenvolvimento na obra de Copleston, vemos que isso se deu com grandes dificuldades. Aristóteles foi adotado com muita relutância por quase todos os teólogos da época, sendo que alguns como São Boaventura o criticaram duramente. Foi só com São Tomás de Aquino que Aristóteles foi aceito por completo. Guilherme de Auvergne, São Boaventura e Duns Scotus permitiram que influências platônicas entrassem em seus sistemas. São Tomás foi aquele que mais rejeitou o platonismo, de maneira que ele adotou Aristóteles mesmo quando o ensinamento do filósofo grego provocava óbvias dificuldades, como no caso da eternidade do mundo. É preciso salientar que a filosofia medieval é muitas vezes expressa de maneira confusa pelos teólogos da época. No entanto, quase todos eles tinham uma visão otimista do mundo, reconheciam a criação ex nihilo e afirmavam a liberdade da vontade.

Os capítulos mais importantes do livro são sobre Santo Agostinho, Escoto Erígena, São Tomás de Aquino e Duns Scotus. Santo Agostinho foi profundamente influenciado por Plotino e sua filosofia foi a dominante na igreja católica até o século XIII. A filosofia política de Agostinho e suas reflexões filosóficas sobre o tempo são muito superiores a qualquer coisa que São Tomás já tenha escrito. Escoto Erígena teve a influência neoplatônica do Pseudo-Dionísio e desenvolveu uma filosofia muito diferente da dos outros medievais. Ele enfrentou o problema do mal no mundo e negava a eternidade das penas do inferno. Sua filosofia lembra a de Orígenes. Quanto a São Tomás e Duns Scotus, a interpretação de Copleston sobre a filosofia dos dois teólogos é bem melhor e mais crítica que a de Étienne Gilson. Isso porque toda a tensão da fusão entre teologia cristã e o sistema aristotélico na filosofia tomista recebe um tratamento especial. É possível fazer uma comparação entre o tomismo e São Boaventura e o primeiro e Duns Scotus de forma mais fácil do que no livro de Gilson. Na parte de Duns Scotus, achei que a explicação de Copleston para a complicada questão da individuação foi insuficiente. O conceito da hacceitas de Duns Scotus merecia uma explicação melhor. O melhor do livro foi ver a tensão entre o sistema agostiniano-platônico de São Boaventura e o sistema aristotélico de São Tomás. São Boaventura parte do exemplarismo e sua antítese é  Aristóteles, que  nega a criação e a providência divina. São Boaventura rejeitava com todas as forças a ideia da eternidade do mundo, e afirmava que era filosoficamente possível demonstrar que o mundo não era eterno, o que era o contrário que São Tomás pregava. Copleston também mostra a reação de Duns Scotus ao aristoteleismo extremo de São Tomás na questão da união da alma com o corpo.  Para São Tomás, a alma está tão ligada ao corpo que, quando separada deste, é incapaz de adquirir novos conhecimentos. Duns Scotus afirma que essa doutrina tomista é degradante para a alma e que essa pode continuar aprendendo mesmo após essa separação, já que a alma retém a capacidade de abstração.

Resenha: Conferências sobre a história da filosofia política, de John Rawls

Rawls

 

John Rawls realizou durante décadas entre 1970 e 1990 séries de conferências sobre filosofia política que agora foram reunidas nesse livro. Desde Hobbes até Joseph Butler, as aulas de Rawls na universidade de Harvard são reproduzidas para que o leitor tenha ideia de como o filósofo americano via alguns de seus antecessores nessa área da filosofia política que era relativamente desprezada no mundo anglo-saxão no século XX. É um fato muito conhecido que Rawls resgatou na sua obra Uma Teoria da Justiça a tradição do contrato social. Por isso é muito interessante perceber qual é a visão que ele tinha de alguns dos filósofos contratualistas do passado. Começando com Hobbes e sua visão pessimista da natureza humana, e também por Locke, Rousseau, Hume e Mill, até chegar em um crítico do pensamento liberal como Marx,  Rawls vai identificando em cada um deles seus pontos fortes e suas fraquezas. Sua conferência sobre Hobbes é definitivamente a mais completa e profunda do livro, apesar de que esse filósofo não foi uma grande influência sobre Rawls. Quando ele fala sobre John Locke, percebe-se que a tolerância que o sistema desse filósofo para as desigualdades políticas e de representação por causa da sua afirmação de que só proprietários poderiam votar e se eleger é intolerável para Rawls.

É uma pena que a filosofia moral de Kant não esteja nesse livro, uma vez que foi esse filósofo quem mais influenciou Rawls. A filosofia de John Rawls é profundamente democrática e visa criar uma sociedade bem ordenada com oportunidades iguais para todos. Esse é o ponto central do liberalismo norte-americano que é diferente do liberalismo brasileiro. Esse último durante as últimas décadas virou o porta-voz da defesa de uma série de desigualdades por causa da questão do “mérito”. Rawls foi um crítico dessa noção de meritocracia e um defensor da expansão de direitos fundamentais aos excluídos da sociedade.  Para ele, ninguém merece a priori seus talentos naturais, e imaginar que o crescimento financeiro de uma pessoa é devido aos seus supostos méritos morais é simplesmente insensato, porque como demonstra Rawls, quando as habilidades de uma pessoa não são mais desejadas pelo conjunto da sociedade, a qualidade moral de uma pessoa não se deteriora. Se na sociedade atual alguns artistas ganham salários nababescos, isso não quer dizer que eles tenham mais mérito ou sejam moralmente superiores a professores que ganham salários baixos. É muito interessante notar que o liberalismo brasileiro passou a adotar um princípio de mérito parecido com o judaico-protestante, que associa a riqueza a um favorecimento divino, e a pobreza a algum tipo de preguiça ou falha no caráter. Ser pobre é ser culpado de não compreender o princípio do mérito. Notemos que o partido Democrata nos Estados Unidos baseia muitos de seus princípios nas ideias de Rawls. É sempre bom lembrarmos que o ideal norte-americano  sempre foi o da igualdade, e é essa a tradição que Rawls busca resgatar.

Resenha: A Evolução Criadora, de Henri Bergson

Evolução Criadora

Henri Bergson foi uma grata surpresa quando o li pela primeira vez falando sobre  como a ciência só percebe a imobilidade da matéria. Para Bergson, a vida é móvel e a evolução é um processo criador que exclui a ideia de um finalismo radical. A evolução dos organismos sobre a Terra é algo que a ciência dificilmente poderá provar, pois “ há coisas que apenas a inteligência é capaz de procurar, mas que, por si mesma, não encontrará nunca. Essas coisas, apenas o instinto as encontraria; mas não as procurará nunca.” A inteligência é despertada no ser humano pelo ato de organizar o sólido inorganizado, pois o que existe de fluido na natureza e de vital no ser vivo lhe escaparão inteiramente, segundo Bergson. “ Nossa inteligência só se representa claramente a imobilidade”, diz ele. Como o ser humano se sente mais à vontade com os sólidos e a imobilidade, Bergson demonstra como nós ficamos espantados e maravilhados com a mobilidade do ser vivo e do mecanismo da evolução. A vida cria, e a inteligência humana não admite esse tipo de novidade, de maneira que a “inteligência é caracterizada por uma incompreensão natural da vida.” Neste livro, Bergson faz uma famosa  analogia do conhecimento humano com o método do cinema. Da mesma forma como esta última invenção da inteligência humana à época do nosso filósofo, o conhecimento que nós temos da matéria viva é feito de diversas “fotografias” da imobilidade postas em sequência, para com isso dar uma aparência de movimento tal como é feito no cinema. A ciência não é capaz de observar o devir constante da matéria. O erro está em pensarmos que o nosso conhecimento é feito de uma coleção de imobilidades. Se acreditarmos nisso, diz Bergson, cairemos no antigo sofisma de Zenão de Eléia. Esse filósofo nos deu o seguinte paradoxo: Se atiro uma flecha do ponto A para o ponto B, na verdade posso afirmar que a flecha nunca atingirá seu alvo, pois na verdade a flecha estará sempre imóvel. Mas isso é um absurdo, segundo Bergson. Ele explica que, “no fundo a ilusão provém do fato que, uma vez efetuado, o movimento depositou ao longo do trajeto uma trajetória imóvel na qual podemos contar tantas imobilidades quanto quisermos. De onde se conclui que o movimento, efetuando-se, em cada instante depositou embaixo de si uma posição com a qual coincidia. […] supor que o móvel está em um ponto de trajeto é, por um golpe de tesoura dado nesse ponto, cortar o trajeto em dois e substituir por duas trajetórias a trajetória única que era dada de início. É distinguir dois atos sucessivos ali onde, por hipótese, há um só. Enfim, é transportar para o próprio curso da flecha tudo o que se pode dizer do intervalo percorrido, isto é, admitir a priori esse absurdo  de que o movimento coincide com o imóvel.” A ciência moderna ainda está impregnada pela metafísica dos antigos, para quem a realidade está dada desde a eternidade, diz Bergson. Ele conclui afirmando que nosso pretenso empirismo cai por terra quando vemos que nossa ciência como a física, a química e a biologia, só estudam a matéria inerte. Todas essas ciências têm dificuldade em admitir uma realidade que cria, segundo Bergson. Com um estilo que lembra o de Schopenhauer, quando lemos Bergson entendemos o porquê dele ter sido agraciado com um prêmio Nobel em 1927. O livro é espetacular!