Resenha: A Evolução Criadora, de Henri Bergson

Evolução Criadora

Henri Bergson foi uma grata surpresa quando o li pela primeira vez falando sobre  como a ciência só percebe a imobilidade da matéria. Para Bergson, a vida é móvel e a evolução é um processo criador que exclui a ideia de um finalismo radical. A evolução dos organismos sobre a Terra é algo que a ciência dificilmente poderá provar, pois “ há coisas que apenas a inteligência é capaz de procurar, mas que, por si mesma, não encontrará nunca. Essas coisas, apenas o instinto as encontraria; mas não as procurará nunca.” A inteligência é despertada no ser humano pelo ato de organizar o sólido inorganizado, pois o que existe de fluido na natureza e de vital no ser vivo lhe escaparão inteiramente, segundo Bergson. “ Nossa inteligência só se representa claramente a imobilidade”, diz ele. Como o ser humano se sente mais à vontade com os sólidos e a imobilidade, Bergson demonstra como nós ficamos espantados e maravilhados com a mobilidade do ser vivo e do mecanismo da evolução. A vida cria, e a inteligência humana não admite esse tipo de novidade, de maneira que a “inteligência é caracterizada por uma incompreensão natural da vida.” Neste livro, Bergson faz uma famosa  analogia do conhecimento humano com o método do cinema. Da mesma forma como esta última invenção da inteligência humana à época do nosso filósofo, o conhecimento que nós temos da matéria viva é feito de diversas “fotografias” da imobilidade postas em sequência, para com isso dar uma aparência de movimento tal como é feito no cinema. A ciência não é capaz de observar o devir constante da matéria. O erro está em pensarmos que o nosso conhecimento é feito de uma coleção de imobilidades. Se acreditarmos nisso, diz Bergson, cairemos no antigo sofisma de Zenão de Eléia. Esse filósofo nos deu o seguinte paradoxo: Se atiro uma flecha do ponto A para o ponto B, na verdade posso afirmar que a flecha nunca atingirá seu alvo, pois na verdade a flecha estará sempre imóvel. Mas isso é um absurdo, segundo Bergson. Ele explica que, “no fundo a ilusão provém do fato que, uma vez efetuado, o movimento depositou ao longo do trajeto uma trajetória imóvel na qual podemos contar tantas imobilidades quanto quisermos. De onde se conclui que o movimento, efetuando-se, em cada instante depositou embaixo de si uma posição com a qual coincidia. […] supor que o móvel está em um ponto de trajeto é, por um golpe de tesoura dado nesse ponto, cortar o trajeto em dois e substituir por duas trajetórias a trajetória única que era dada de início. É distinguir dois atos sucessivos ali onde, por hipótese, há um só. Enfim, é transportar para o próprio curso da flecha tudo o que se pode dizer do intervalo percorrido, isto é, admitir a priori esse absurdo  de que o movimento coincide com o imóvel.” A ciência moderna ainda está impregnada pela metafísica dos antigos, para quem a realidade está dada desde a eternidade, diz Bergson. Ele conclui afirmando que nosso pretenso empirismo cai por terra quando vemos que nossa ciência como a física, a química e a biologia, só estudam a matéria inerte. Todas essas ciências têm dificuldade em admitir uma realidade que cria, segundo Bergson. Com um estilo que lembra o de Schopenhauer, quando lemos Bergson entendemos o porquê dele ter sido agraciado com um prêmio Nobel em 1927. O livro é espetacular!

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  1. Republicou isso em Te pego pela história.

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