Resenha: Conferências sobre a história da filosofia política, de John Rawls

Rawls

 

John Rawls realizou durante décadas entre 1970 e 1990 séries de conferências sobre filosofia política que agora foram reunidas nesse livro. Desde Hobbes até Joseph Butler, as aulas de Rawls na universidade de Harvard são reproduzidas para que o leitor tenha ideia de como o filósofo americano via alguns de seus antecessores nessa área da filosofia política que era relativamente desprezada no mundo anglo-saxão no século XX. É um fato muito conhecido que Rawls resgatou na sua obra Uma Teoria da Justiça a tradição do contrato social. Por isso é muito interessante perceber qual é a visão que ele tinha de alguns dos filósofos contratualistas do passado. Começando com Hobbes e sua visão pessimista da natureza humana, e também por Locke, Rousseau, Hume e Mill, até chegar em um crítico do pensamento liberal como Marx,  Rawls vai identificando em cada um deles seus pontos fortes e suas fraquezas. Sua conferência sobre Hobbes é definitivamente a mais completa e profunda do livro, apesar de que esse filósofo não foi uma grande influência sobre Rawls. Quando ele fala sobre John Locke, percebe-se que a tolerância que o sistema desse filósofo para as desigualdades políticas e de representação por causa da sua afirmação de que só proprietários poderiam votar e se eleger é intolerável para Rawls.

É uma pena que a filosofia moral de Kant não esteja nesse livro, uma vez que foi esse filósofo quem mais influenciou Rawls. A filosofia de John Rawls é profundamente democrática e visa criar uma sociedade bem ordenada com oportunidades iguais para todos. Esse é o ponto central do liberalismo norte-americano que é diferente do liberalismo brasileiro. Esse último durante as últimas décadas virou o porta-voz da defesa de uma série de desigualdades por causa da questão do “mérito”. Rawls foi um crítico dessa noção de meritocracia e um defensor da expansão de direitos fundamentais aos excluídos da sociedade.  Para ele, ninguém merece a priori seus talentos naturais, e imaginar que o crescimento financeiro de uma pessoa é devido aos seus supostos méritos morais é simplesmente insensato, porque como demonstra Rawls, quando as habilidades de uma pessoa não são mais desejadas pelo conjunto da sociedade, a qualidade moral de uma pessoa não se deteriora. Se na sociedade atual alguns artistas ganham salários nababescos, isso não quer dizer que eles tenham mais mérito ou sejam moralmente superiores a professores que ganham salários baixos. É muito interessante notar que o liberalismo brasileiro passou a adotar um princípio de mérito parecido com o judaico-protestante, que associa a riqueza a um favorecimento divino, e a pobreza a algum tipo de preguiça ou falha no caráter. Ser pobre é ser culpado de não compreender o princípio do mérito. Notemos que o partido Democrata nos Estados Unidos baseia muitos de seus princípios nas ideias de Rawls. É sempre bom lembrarmos que o ideal norte-americano  sempre foi o da igualdade, e é essa a tradição que Rawls busca resgatar.

Comments

  1. Rodigues says:

    O ideal norte-americano sempre foi a liberdade!

  2. Alexandre Souza says:

    A igualdade dos americanos é a de oportunidades. Eles se orgulham de pertencerem à pátria das oportunidades. O lema implícito é o de que haverá (relativo) sucesso para quem trabalhar duro. A moral é a do trabalho. Daí o liberalismo igualitário, que nada tem a ver com o esquerdismo das engenharias sociais.

    • A concepção de igualdade pelo trabalho é neoliberal. Não é,de forma alguma, a concepção de igualdade norte-americana retratada por Tocqueville em sua Democracia na América e, muito menos, a de John Rawls, que foi um filósofo de esquerda.

      • Alexandre Souza says:

        Sim, a concepção da igualdade pelo trabalho é neoliberal, e não se choca com o que escrevi antes. Tocqville à parte, nos EUA a igualdade é a do ideal republicano, onde um homem trabalhador, dispondo dos mesmos direitos e deveres perante à Lei que qualquer outro, pode alcançar o (seu) sucesso. PS: Não usei a expressão ‘liberalismo igualitário’ no mesmo sentido de Rawls.

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