Resenha: José e seus irmãos, de Thomas Mann

José e seus irmãos

“Algum dia hei de cair em um buraco do qual subirei novamente às alturas.” Max Weber

Thomas Mann escreveu uma grande história (em todos os sentidos!) sobre a ressurreição. Há evidentes paralelos com outras histórias do Antigo e do Novo Testamento durante o livro. O drama de José nos remete claramente a Cristo, pois ambos ressurgem do meio dos mortos.  Cristo literalmente;  José simbolicamente. Se Cristo encontra a morte sem ter pecado, José encontra a mesma morte pelo pecado da presunção, pois Mann deixa isso claro. José é o filho amado de Jacó e possui um dom especial de interpretação dos sonhos, ainda que no início ele interprete mais os próprios do que os alheios. José é o filho preferido por ter tido como mãe Raquel, a esposa que Jacó mais gostava. José não é o filho mais velho nem mesmo o filho caçula, mas foi o escolhido por Jacó para ser abençoado. Antes de anunciar aos outros filhos que José é o escolhido, Jacó dá a ele uma túnica real de várias cores que pertencia a Raquel e que será o símbolo de sua eleição. Jacó faz esse  ato de maneira inocente, sem ter ideia das consequências para o seu filho preferido. José por sua vez faz questão de exibir a seus irmãos a túnica que eu pai lhe deu, para a fúria  deles. Para piorar, José tem um sonho no qual vê seus irmãos se submetendo a ele, e cometendo um erro de autoconfiança excessiva, conta a seus irmãos o que sonhou. Eles ficam enfurecidos. Um dia, Jacó o envia  para reunir seus irmãos que estão pastoreando longe da tenda da família para junto do patriarca, mesmo que ele faça isso com muito receio do resultado. José aceita a ordem do pai, mas comete um erro que terá consequências trágicas: ele viaja vestindo a túnica de várias cores que simboliza a futura benção paterna. Quando chega ao local onde seus irmãos se encontravam, eles o veem com a túnica e partem furiosamente para cima de José atacando-o com socos e pontapés. Apenas Rubem tenta apartar a briga mas sem sucesso. José fica atirado ao chão todo ensanguentado e com a túnica rasgada. Rubem e os outros irmãos sabem que não podem devolver José dessa maneira a Jacó. Matá-lo, porém, eles não querem porque não desejam derramar sangue; decidem, então, jogá-lo em um poço abandonado para que morra de inanição. José é arremessado para dentro do buraco. Os assassinos conversam entre si para arranjarem uma desculpa para dar a Jacó. José de dentro do buraco clama por misericórdia aos irmãos. Um deles diz: não o ouçamos, pois agora é como um morto para o mundo. José está morto pela primeira vez. Como no salmo De profundis, José, das profundezas, pede ajuda a Deus. Como no mundo o mal é imenso, mas a misericórdia e a Graça prevalecem, Deus ouve a José, e este é resgatado por uma caravana de ismaelitas. José é vendido como escravo no Egito, a terra que Jacó abomina por ser a nação dos mortos, o símbolo do paganismo. O terceiro livro, José no Egito, narra a vida de José como escravo. Desde quando é apresentado ao seu futuro senhor, as qualidades de José ficam evidentes para todos. Ele cresce em conhecimentos e habilidades e vai aos poucos caindo nas graças de seu dono. Mas a tentação e o perigo aparecem na forma da mulher de seu dono, pois ela se apaixona por José e o deseja sexualmente. Ela vai se insinuando para o escravo, mas esse resiste aos avanços de sua dona. Conforme o tempo vai passando, José mais uma vez tem a presunção de que é mais forte e especial do que os outros homens, pois ao invés de se afastar e repelir a tentação de uma vez, ele tenta dissuadir sua dona de sua paixão pecaminosa através de uma prática pedagógica. Dia após dia ele conversa com com sua dona sobre os sentimentos errados que ela possui, mas essa prática não dá resultados positivos, e a ação de José se volta contra ele, porque sem que ele perceba, o desejo que ele sente por sua dona cresce aos poucos. Ela fica louca de paixão e decide arriscar tudo para que José consume a traição através do ato sexual. Um dia ela avança sobre José e percebe que ele está disposto a isso, mas esse no último momento se afasta dela, não antes que ela rasgue sua roupa e grite para toda a casa que José a atacou. A prova era o pedaço da túnica do escravo que estava em suas mãos. José é sentenciado à prisão. Essa é a sua segunda morte. No terceiro livro, José o provedor, Mann narra a ascensão de José a um alto cargo do governo egípcio. A introdução do Faraó Akhenaton na história bíblica é uma invenção de Mann. Um dia o Faraó tem um sonho que o perturba, porém, nenhum astrólogo do Egito consegue interpretá-lo de uma maneira que agrade a Akhenton. Entretanto, uma pessoa próxima ao Faraó tem o conhecimento de José e conta as habilidades do condenado ao Faraó. José então é trazido à corte de Akhenaton e diante dele interpreta o seu sonho: o Egito terá 7 anos de fartas colheitas e 7 anos de seca e penúria. Akhenaton fica satisfeito com a interpretação principalmente porque José descreveu um cenário favorável antes da desgraça. Nessa parte, a narrativa tem um dos seus pontos mais altos, pois Mann descreve um diálogo entre José e Akhenaton sobre Deus. A história real nos conta que Akhenaton foi o primeiro monoteísta do mundo. 1300 anos antes de Cristo, ele cria uma divindade única, Aton, o disco solar que tem em Akhenaton o seu filho único. Mann enfatiza esse aspecto Cristológico do Faraó, o que dá mais força ao livro. José passa a ser o mais alto funcionário do Faraó e se casa. Quando mais adiante a terra de Canaã tem uma forte seca e seus habitantes passam fome, os irmãos de José, com a ordem de Jacó, descem ao Egito para comprar comida para suas imensas famílias. José, que tem conhecimento de tudo que se passa nas fronteiras do Império, fica sabendo e faz com que seus irmãos se encontrem com ele. Inicialmente ele não revela sua identidade, pois quer testar seus irmãos. José retém um deles como prisioneiro com a desculpa de que os irmãos não trouxeram o caçula Benjamin à sua presença. Eles voltam para sua terra e contam o acontecido a Jacó. O patriarca tem muito medo de se afastar de Benjamin justamente para que não aconteça com ele o que aconteceu com José, mas, por fim, ele permite que todos os seus filhos desçam ao Egito. Uma vez lá, José os recebe em sua casa. Durante o jantar, ele tem o interesse maior em Benjamin, o caçula que José só conheceu pequeno. José chora ao ver o irmão, mas disfarça a emoção. Resolve, então, fazer o teste definitivo para ver se seus irmãos se regeneraram. José manda seu serviçal colocar uma taça de prata muito valiosa dentro dos pertences de Benjamin sem que esse veja. Quando os irmãos já estavam em seu caminho de volta a Canaã, um grupo de soldados acusam-os de roubarem um objeto valioso que pertencia a José. Rubem e os demais zombam da acusação, porém com a revista de suas cargas, os soldados encontram a taça de prata junto com Benjamin. Os outros irmãos ao verem isso rasgam suas vestes, pois tinham concordado que se a taça fosse encontrada com algum deles, o ladrão seria escravo para sempre de José. Todos eles são levados diante do irmão poderoso que ainda ignoram. José diz a eles para não se preocuparem, pois todos os inocentes serão soltos, menos Benjamin, que será escravizado. Os irmãos, dando o exemplo de que se arrependeram de seus pecados, dizem a José que dariam suas vidas em troca de Benjamin. A vida dos 10 seria oferecida para que Benjamin fosse solto, pois os irmãos mais velhos se lembraram das palavras bíblicas que ressoam através dos séculos: sou eu o guardião do meu irmão? A resposta de todos eles é que sim, eles são os responsáveis pela vida do irmão menor. José vê o arrependimento de seus irmãos e o exemplo que estão dando e dá-se a conhecer a eles. Como foi dito no início desse texto, a história de José é a da ressurreição. José morre duas vezes por causa da sua presunção, mas ressurge do meio dos mortos. Seus irmãos mais velhos morrem pelo pecado da ira e da inveja, mas ressurgem pelo arrependimento e pelo sacrifício que fazem pelo irmão caçula. Deus há de nos ressuscitar do mundo dos mortos da mesma maneira que fez com José e principalmente com seu Filho Unigênito Jesus Cristo. Cair em um buraco é o primeiro passo para a ressurreição futura.

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