Resenha: Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, de Carl Gustav Jung

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Os arquétipos de Jung são formas que existem a priori e não derivam da experiência sensível. O psiquiatra suíço rejeitava a tábula rasa de Aristóteles e Locke, que acreditavam que todo o conhecimento era proveniente da experiência. Toda a forma de conhecimento que deriva do inconsciente coletivo é chamada por Jung de arquétipo. Essa ideia tem origem na filosofia platônica que Jung fundiu com as formas a priori kantianas. No livro, esses arquétipos podem ser a figura do pai, da mãe, do velho sábio, do trickster, do mago e do herói. Dois arquétipos do inconsciente  a que Jung também dá muita ênfase é a anima e o animus, que são o interior da personalidade do homem e da mulher respectivamente. Durante todo o livro, o conhecimento que Jung possui da filosofia ocidental e oriental, da alquimia, do gnosticismo e da literatura adulta e infantil é assombroso. Diversos exemplos de um inconsciente coletivo são oferecidos ao leitor. Formas de conhecimento a priori por adultos e crianças demonstram o que a filosofia platônica já conhecia há séculos. Como explicar que diversos tipos de pessoa tenham conhecimento de determinadas formas de imagens, lendas e mitologia sem que tenham lido ou estudado nada a respeito? Os temas se repetem em todos os lugares sem que essas pessoas tenham tido comunicação entre si. Desde a arte das cavernas, passando pelas esculturas da Antiguidade e a arte Renascentista, o que fica demonstrado é que as figuras e imagens arquetípicas são recorrentes em todos os povos. É claro que uma ciência materialista e que despreze o estudo da mitologia e religião sempre irá atacar as ideias junguianas.  O fato de que Jung tenha recuperado a noção grega da análise e cura da alma é um mérito dele indiscutível. Como o positivismo e o materialismo veem isso? Certamente não com bons olhos.  Durante muito tempo o aristotelismo e o materialismo trinfaram na psicologia; porém, como diz Jung, toda a vitória contém a semente da futura derrota. A mente na psicologia analítica não é uma tábula rasa. O processo de anamnese platônico é valorizado para a recuperação e valorização de aspectos inconscientes que estavam escondidos na mente.  A criança é vista por Jung como um ser que vem ao mundo com a mente cheia de formas apriorísticas que determinam as formas de seus sonhos e que produzem não ideias herdadas, mas sim possibilidades. A presença desses arquétipos sob a forma de mitos produz a fantasia (que ele valorizava muito) nas crianças e no adulto de consciência mais fraca. A primeira forma de fantasia na criança é a mitologização dos pais, segundo Jung.  Todo o elemento de fantasia infantil não pode ser explicado por experiências diárias. As imagens que a criança vê são, para Jung, a presença da Mitologia e do inconsciente coletivo. Nas lendas recolhidas nesse livro, vemos sempre a s figuras do menino-Deus ou dacriança-Herói serem repetidas em diversas crenças e religiões. Nos contos de fada europeus, é muito frequente que a criança que foi rejeitada pelos pais seja o motivo da estória. Para os homens, o conceito da anima é muito importante, pois a idealização da mãe vai até a vida adulta e projeta-se na primeira figura feminina que o impressionar, segundo Jung.  Arquétipos que todos os povos possuem são, por exemplo, o da Grande-Mãe e o do renascimento futuro, de maneira que esses dois são analisados extensivamente no livro.  O espírito também é importante com arquétipo. No estudo sobre os contos de fada, Jung percebe que o espírito se manifesta frequentemente nas estórias e nos sonhos como a figura do velho sábio. Esse por sua vez atua como aquele que preenche lacunas na consciência, como a sabedoria e o bom conselho. No caso específico dos contos da fada, o espírito atua como, com diz o Fausto de Goethe, “na formação, transformação e  eterna recriação do sentido eterno.” Jung demonstra que nossa personalidade não implica a necessidade de consciência, pois esta pode dormir ou sonhar. Nossa mente com bastante frequência nos traz a recordação de nossos antepassados que desconhecemos, diz Jung, ao mesmo tempo em que a raiz da crença em reencarnação pode estar nesse  sentir da presença de seres mitológicos. Dezenas de páginas são dedicadas à análise de Mandalas, a maioria delas feitas por pacientes de Jung. Para decifrar o significado delas, o psiquiatra suíço recorre à ajuda da filosofia oriental, assim como da alquimia e também do místico alemão Jacob Boheme, esse aliás, muito citado no livro. Com a leitura dessa excelente obra, podemos conhecer o método de Jung de avaliação das doenças mentais. Como ele mesmo diz, mais do que fruto de uma monstruosa insanidade, a doença mental é um florescer de imagens arquetípicas totalmente apriorísticas e completamente normais, uma vez que existem em qualquer época e em todos os povos. Jung afirma que o fato dessas imagens aparecerem não é o sinal da doença, mas o processo de dissociação em que o inconsciente domina o consciente é que determina um sintoma patológico. A psicologia analítica junguiana é o integrar o inconsciente na consciência produzindo, assim, o chamado processo de individuação, nas palavras de Jung.

Comments

  1. Ótimo texto, me ajudou a entender melhor o livro.

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