Resenha: Ulisses, de James Joyce

James_Joyce_by_Alex_Ehrenzweig,_1915_restored

Ulisses é um romance extremamente complexo escrito por James Joyce e publicado em 1922. O livro supostamente é uma recriação moderna da Odisseia de Homero. Leopold Bloom é o Odisseu do século XX em busca de sua Penélope. Ele é o heroi judeu em uma Irlanda católica. Em um dia de 1904, ele sai de casa junto com seu amigo Stephen Dedalus. O objetivo de Bloom é retornar ao fim do dia para a sua casa e sua esposa. O enredo parece simples, mas a linguagem que Joyce emprega torna a leitura uma árdua tarefa que requer uma certa experiência e um amplo vocabulário. Durante o desenvolvimento do romance, Joyce faz inúmeras criações de novas palavras e utiliza um vocabulário enorme, que ultrapassa mais de 265.000 palavras. A cada página o romance tem uma reviravolta, pois o autor inventa diversas situações que não estão ligadas necessariamente às anteriores. Ulisses é uma experiência fantástica de linguagem e imaginação. A todo o momento Joyce surpreende o leitor com o uso revolucionário das situações e com a criação de um mito moderno.

Quando lemos o Ulisses fazemos uma viagem pela Irlanda e pela Europa. Diversas línguas são utilizadas. O recurso que Joyce usa com frequência é o da livre imaginação. Os personagens de Bloom e Dedalus vão se encontrando com outros irlandeses em situações que quase sempre se revelam improváveis. Joyce faz alusões ao judaísmo de Bloom através de outros personagens e também ao catolicismo de maneira fragmentada. Pessoas obscuras e o mito povoam o romance e contracenam com Bloom. Provavelmente o autor quis criar diálogos entre Bloom e os outros para fazer uma apresentação da situação da Europa naquele início de século. Bloom e Dedalus conversam entre si de maneira alucinada que parece um verdadeiro monólogo. Pelo uso estranho que Joyce faz da linguagem, o limite que separa-o da genialidade à esquizofrenia é mínimo. O texto do livro é fragmentado da mesma forma que o pensamento de um esquizofrênico e muito por causa disso o livro torna-se complicado de se ler. Joyce usa comparações explícitas com funções corporais, o que devia ser chocante para a conservadora sociedade de seu tempo. Explicar a quem for ler o Ulisses as milhares de outras citações que o autor faz é tarefa impossível. Muito do significado da obra foi perdido durante a tradução. Aqui no Brasil quem fez uma experiência com o texto da mesma forma que Joyce foi Guimarães Rosa com o Grande Sertão:Veredas. Outra comparação que pode ser feita é com o Fausto II de Goethe. Tal como naquele livro, o Ulisses é recheado de alusões a figuras mitológicas ou imaginárias em situações fantásticas. Em determinado momento, o Ulisses fica parecendo uma peça de teatro que lembra muito a clássica noite de Valpúrgis do Fausto II. A última parte do livro mostra Bloom reencontrando-se com sua mulher Molly. É preciso ter fôlego para ler essa parte uma vez que Joyce ignora o uso da pontuação. O objetivo de Bloom foi alcançado; sua mulher, então, passa a recordar muito de sua própria vida. Ela termina com as famosas palavras de recordação de seu marido pedindo-a em casamento. As palavras são: “ e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu si dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim e disse sim eu quero Sims.” James Joyce criou um texto propositadamente obscuro para garantir a imortalidade, conforme ele mesmo disse. Acredito que qualquer tentativa de revelar e explicar essa obra nunca será definitiva. Joyce realmente criou um enigma para ser decifrado pelos séculos vindouros. Li a tradução de Antônio Houaiss que achei excelente. Algumas edições parecem vir com as divisões de capítulos que nos remetem à Odisseia de Homero. Essa que eu li não tem, o que dificulta o entendimento da obra. O que o Ulisses tem de mais interessante é a riqueza da linguagem e o experimentalismo de Joyce. Isso foi o que mais me prendeu a atenção, já que valorizo muito o uso que o autor de um livro faz do vocabulário de sua língua. São milhares de verbos, adjetivos e nomes próprios que abundam no livro. Durante o folhear das páginas é como se um dicionário fosse aberto. As possibilidades do texto são inúmeras e quem for ler essa obra não deve pensar que vai se deparar com um romance comum. Joyce não era um conservador como Thomas Mann, mas um modernista que desejava inovar. Nunca havia lido um livro tão desafiador como Ulisses. Parece que o texto é a reprodução do inconsciente de James Joyce. De fato é um livro muito estranho que parece escrito por um homem que está à beira da loucura. Se acima eu havia dito que Ulisses lembra em algumas partes o Fausto II, seria também importante compará-lo com o livro vermelho de Jung. Jung leu o livro de Joyce e tratou a filha do autor irlandês de esquizofrenia. Jung sentiu-se desafiado pela leitura do Ulisses. Lia as páginas e achou que era feito de bobo. Os dois livros são o encontro de seus autores com seus respectivos inconscientes. Joyce e Jung se consagraram, mas Jung quase enlouqueceu com sua experiência. Joyce dá a impressão de estar fazendo psicoterapia durante o desenvolvimento do livro. Tal como no tratamento com o psicólogo, Joyce vai fazendo uma livre-associação de palavras e ideias para o leitor que parece fazer o papel de terapeuta. Ulisses é fascinante e deve ser lido por todos aqueles que desejam se aventurar em um dos grandes romances do mundo moderno.

Comments

  1. Excelente resenha, Felipe. Congrats!

  2. eu pedi um resumo!

  3. Jean Grinfeld says:

    Qual é a edição em português que intercala o texto com a Odisséia de Homero

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