Resenha: O Homem e seus Símbolos, de Carl Gustav Jung

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O Homem e seus Símbolos é um livro que reúne capítulos escritos por Jung e alguns de seus principais discípulos. Trata-se de uma obra que dedica-se ao estudo dos símbolos dos sonhos, da arte, dos mitos e do conceito junguiano da anima e do animus. O primeiro capítulo do livro foi escrito por Jung e é uma espécie de aula resumida de seu conceito de inconsciente para um público leigo. Quem leu Arquétipos e o Inconsciente coletivo vai ter uma melhor compreensão do que está exposto nessa obra. O papel e a importância do sonho já haviam sido enfatizados por Freud, mas Jung levou o estudo do sonho a um nível mais alto. Para ele, o sonho é sempre um despertar do inconsciente em que formas que não foram conscientes acabam por emergir. Freud dizia que essas imagens eram “resíduos arcaicos”, porém Jung rejeitava essa expressão. Para ele, essas imagens primitivas tinham muita importância uma vez que podiam ser observadas em todas as partes do mundo. Não eram “resíduos”, mas tinham conteúdos valiosos. Jung não se surpreendeu quando via a reação de pacientes europeus e esclarecidos ficarem assustados com o aparecimento dessas formas primitivas enquanto que para um homem “primitivo” (com que ele conviveu na África) esse fenômeno era algo comum. Para Jung, o sonho era “um sopro da natureza” que tinha uma função compensadora. A mente não é no pensamento junguiano uma “folha em branco”, mas sim um reservatório de imagens coletivas que o homem acumulou desde eras primitivas quando a psique do homem e do animal andavam juntas, conforme Jung escreve. De fundamental importância para compreendermos os sonhos é o estudo do conceito de arquétipo de Jung. Esses são modelos que se repetem com diferentes variações através dos tempos. O conceito de arquétipo foi tomado de Platão e das formas a priori de Kant. O psiquiatra suíço rejeita a classificação dos arquétipos como “representações herdadas” pois,para ele, se os arquétipos fossem criados ou adquiridos pela nossa mente, não haveria espanto quando eles se apresentassem. O arquétipo não tem origem conhecida. Através da análise dos sonhos de alguns pacientes angustiados com essas imagens primitivas, Jung os tranquilizava mostrando a eles como seus sonhos nada mais eram que uma ocorrência no mundo atual de imagens arquetípicas de tempos imemoriais. Jung crê que os antigos espíritos que tomavam posse do homem primitivo ainda existem; essas forças do irracional ainda não estão sob o controle da consciência e o homem moderno não consegue controlá-las. Jung considera que o verdadeiro perigo está na presença de muitos elementos do consciente apresentarem-se como inconscientes. Isso se deve, segundo ele, ao fato desses elementos terem sido reprimidos. Cabe ao psicólogo descobrir o que o paciente gosta ou teme, diz Jung. As outras partes do livro foram escritas por alguns de seus discípulos conforme já mencionei. Acredito que de todos eles, a parte escrita por Marie Louise von Franz seja a mais importante, pois explica de maneira acessível o processo de individuação junguiano. Este famoso processo nada mais era do que integrar o inconsciente no consciente.  Para compreendermos esse processo no homem (que é um pouco diferente do da mulher) será preciso lermos sobre o conceito de anima. A anima é a parte feminina na alma do homem. Esta parte é a receptiva ao irracional e a capacidade de amar. A anima é determinada pela mãe e tende a se expressar de acordo com o tratamento que o homem teve de sua genitora, segundo Franz. Dessa forma, uma influência negativa pode deixá-lo  irritado e depressivo ; se foi positiva, pode deixá-lo efeminado e submisso às mulheres. Segundo Franz, se o homem não cultiva sua anima, o resultado pode ser o vício em artigos eróticos e pela pornografia. Ela diz que a função do inconsciente nesse processo é desenvolver e amadurecer a personalidade. A anima não tem somente um papel destrutivo, mas também um positivo. Ela age como a figura de Beatriz para Dante, segundo Franz, levando a mente a uma forma mais elevada e espiritual. O estudo de símbolos duradouros e das religiões era fundamental para Jung. O homem precisa reconhecer a existência de imagens e motivos herdados de seus ancestrais para compreender o funcionamento de sua psique. Nem todas as formas e símbolos nos são dados pela experiência sensível. Jung nos ensina a reconhecer e a lidar com irracional que sobrevive na alma do homem através das eras. O Homem e seus Símbolos não tem a profundidade de outros livros do autor. Recomendo a leitura de Tipos Psicológicos e do já mencionado Arquétipos e o Inconsciente Coletivo para um maior aprofundamento da psicologia de Jung.

Comments

  1. Richard Roseno says:

    Boa resenha ! Grato as dicas de leitura. Parabéns pelo trabalho. Abraço.

  2. Flávio says:

    Obrigado pela ótima resenha e deu para nortear meus próximos passos para compreender melhor os escritos de Jung e da psicologia analitica.

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