Resenha: Fenomenologia do Espírito, de G.W.F. Hegel

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A filosofia nasce do maravilhar-se, do espanto, e foi a partir destas capacidades que nasceram os grandes pensamentos de Tales de Mileto até Platão. Até aquele momento os filósofos buscavam inspirar os homens ao amor pela sabedoria. Eles expressavam seus pensamentos e permitiam que os mesmos percorressem livremente seu próprio caminho. Platão escreveu lindamente seus diálogos e toda sua obra foi preservada. Quando o lemos, nenhum tipo de sistema fechado pode ser detectado. Seus diálogos deixam várias questões em aberto e apresentam aporias ao leitor. Ele é poético, mas também quer ser científico; daí sua dialética que sobe em suas hipóteses até chegar aos Princípios, e dali desce. É um processo constante.

Aristóteles, talvez por não possuir o talento poético, matemático e a profundidade de Platão, exibe toda uma espécie de orgulho ferido em relação ao seu mestre. O ataca inúmeras vezes em sua Metafísica, quase sempre deturpando o que Platão dizia. Aristóteles segue, então, o caminho científico. Percebe-se- a não ser em suas primeiras obras, como o Protréptico-, que em sua ânsia em superar Platão, passa a escrever sobre tudo, e não consegue se aprofundar em nada. Produzindo inúmeras obras (a maior parte perdida), nunca atinge o nível de Platão, em compensação, aos poucos vai gerando um sistema. Um sistema mal articulado, porque sua ética não dialoga com sua ideia de Deus, que, por conseguinte não está na política, e assim segue. O que interessa é que Aristóteles cria um sistema, no qual sua ciência pretende oferecer respostas que Platão não poderia dar, com uma linguagem precisa, seca, no qual temos a impressão que, depois dele, nada mais virá. Este mesmo tipo de “filosofia” é praticado por Tomás de Aquino, na Idade Média.

Hegel segue este mesmo modelo no século XIX. Sem dúvida, trata-se de algo vitorioso. Aristóteles sempre reinou nas universidades, e Tomás de Aquino nas faculdades e seminários católicos. Quando você oferece um sistema, aparentando segurança nas respostas, rejeitando Platão, por exemplo, como místico, excessivamente preocupado com o mundo das Ideias, existe uma grande vantagem de poupar os estudantes futuros de ter que pensar. Quando Schopenhauer percebe que Hegel domina a universidade de seu tempo, apenas constata que o ensino superior tende a favorecer pensadores sistemáticos. Por que isso acontece? Porque Aristóteles, Aquino e Hegel geram empregos facilmente. A partir de suas obras, muitos outros livros podem ser escritos como “introduções”, ou criar compêndios do tipo “Tomás responde”. Todos os 3 filósofos citados escrevem sobre todas as coisas, mas de maneira horrível. Poucos vão conseguir entender inicialmente. Aí aparece o professor de filosofia, que vai ter emprego garantido por muitos anos. O estudante que permanecer na academia vai ter material para escrever centenas de artigos, que enriquecerão seu currículo, mas que não acrescentarão nada à filosofia. Nem Platão, nem Plotino podem oferecer este caminho…

A Fenomenologia do Espírito é um livro espantosamente pretensioso. Só que dentro está contido uma verdadeira mixórdia de expressões. O fluxo das palavras sufoca. Hegel pretende ser dialético. Será que a dialética platônica reviverá? Definitivamente, não. Usarei um exemplo um tanto tosco para definir como Hegel, Aristóteles e Aquino, escrevem.  É como se você, como aluno, estivesse diante de um professor, que te diz assim: “-todos os que vieram antes de mim estavam errados; portanto, senta aí seu filho da p*, porque vou te ensinar como é, e não acredite que depois disso alguma coisa virá!

O leitor com formação filosófica pode chegar, com muitas dificuldades, onde Hegel pretende. O exemplo que forneci acima ajuda a ilustrar o pensamento de Hegel. Ali ele faz uma história da filosofia. Tivemos que esperar a consumação dos séculos, até 1808 (ano da publicação da Fenomenologia), para que Hegel nos explicasse tudo. A coruja de Minerva pôde alçar seu voo. No entanto, será isso filosofia? Onde está o espanto? Infelizmente, não há. Todo aquele jogo de palavras para explicar o reconhecimento do outro, dos contrários, da dialética senhor/escravo, é dispensável. Platão escreveu elegantemente- e em poucas linhas- sobre a dialética no Parmênides e na República; os alquimistas medievais fizeram a mesma coisa de maneira sucinta. Heidegger (herdeiro de Hegel), no entanto, em Ser e Tempo, comete o mesmo pecado de Hegel. O livro tem 500 páginas, mas você percebe que a tese central daria no máximo umas 50…

A ausência deste maravilhar-se diante dos fatos espantosos do mundo converte-se, em todos estes criadores de sistemas, num deleitar-se com as próprias palavras. Elas fluem de maneira caótica, e a profundidade torna-se ausente por causa que este jorrar do pensamento cria um banco de areia dentro do sistema.  A dialética platônica subia até os Princípios e descia à Terra; Hegel a aprisiona em seu sistema no momento em que ela bate no teto de sua ideia de Estado e religião. Ele, assim como Heidegger, é fanaticamente Ocidental. Budismo e Hinduísmo são abertamente desprezados. Não há como fazer filosofia porque antes os séculos de pensamento precisam estar à disposição. E somente ele (Hegel) pode fornecer a chave do entendimento. Aristóteles, na Metafísica, reunia o pensamento de seus antecessores, vários dos quais tiveram intuições muito superiores à sua, e ali incorporava o juiz da filosofia.

Emil Cioran considerava Hegel, Aquino e Aristóteles como sendo 3 opressores do espírito. Jung viu no pensamento de Hegel um fluir de “palavras de poder” semelhantes à dos esquizofrênicos. A filosofia ali, como expressado por Hegel, tornar-se-á ciência. Filosofia é tida por ele como “movimento de cultura”. Vira cátedra universitária, com uma biblioteca cheia de livros, onde Hegel está sentado confortavelmente nos oferecendo os mistérios de toda a humanidade. Schopenhauer, portanto, estava correto em defini-lo como charlatão. A adoção do pensamento hegeliano constrói um muro muito alto para que a filosofia seja avistada.

O julgamento dos construtores de sistemas (Aristóteles, Aquino e Hegel) foi dado por Buda. É o que separa o sábio, que pensa por si próprio, e os que se agarram a sistemas:

Agarrando-se a sistemas,

Aprisionado por dogmas na maior parte do mundo;

Mas aquele que não corre atrás de sistemas,

Nem duvida nem fica perplexo:

Em não dependendo dos outros,

O conhecimento passa a ser dele próprio.

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