A Guerra Civil Espanhola, de Antony Beevor

Antony Beevor

Ninguém deve esperar ter uma boa compreensão das causas que levaram ao conflito sangrento que foi a guerra civil espanhola ao ler este livro. Beevor é excelente ao descrever cenas de batalhas e também faz uma análise isenta das crueldades de ambos os lados do conflito. O que ficamos sabendo no livro é que a Espanha do século XX pouco tinha evoluído desde os tempos dos reis católicos. A expectativa de vida era a mesma ( 35 anos ), o analfabetismo era imenso ( 60% da população ) e a desigualdade era muito grande. Isso é claro levava a uma grande sensação de insatisfação por parte do povo. Ao contrário do que se imagina, a população espanhola raramente frequentava às missas. Os padres geralmente vinham das regiões mais pobres e eram  bem pouco instruídos. Nesse cenário, a Espanha viu a filiação do povo aos sindicatos e ao partido comunista crescer muito durante a década de 1930. Beevor não explica em detalhes o porquê do conflito ter eclodido, porém a grande força do livro são as descrições das batalhas e o detalhamento da ajuda que os dois lados tiveram dos fascistas e dos comunistas. Pelo que o autor  relata,  as áreas dominadas pelo partido comunista até o momento da guerra viu diminuir drasticamente o número de analfabetos. Havia uma grande ênfase por parte dos republicanos ( comunistas ) na difusão da educação. Quanto aos nacionalistas ( fascistas ) havia o projeto de devolver a educação pública ao controle da Igreja. Isso e também a repulsa que o comunismo causava na Igreja católica levou a mesma a mais uma vez aliar-se aos fascistas. No momento em que a guerra começou, a opinião pública internacional estava em sua grande maioria a favor dos Republicanos. Até mesmo os Estados Unidos apoiavam a causa Republicana não tanto pelo amor ao comunismo, mas porque achavam os nacionalistas repulsivos demais. Logo no início, o conflito exacerbou-se, pois ambos os lados promoveram o seu próprio Terror. Beevor fala primeiro sobre o Terror Vermelho e depois sobre o Branco. Os dois lados promoveram matanças horríveis, e ao contrário do que se possa imaginar, foram os Brancos ( fascistas ) que mataram mais. O lado comunista atacou a Igreja católica assassinado religiosos, no entanto Beevor diz que a Igreja católica aumentou enormemente a proporção de religiosos mortos a fim de propaganda. Houve sim o Terror contra a religião, mas o alcance estava longe das proporções apocalípticas que o lado fascista relatava. O Terror Branco promoveu sua própria matança com um agravante muito sério, o que transforma o lado fascista muito mais culpado. Isto de deve ao fato do Terror  fascista ter sido promovido em nome de Deus e da religião católica sob as bençãos da Igreja. Foi uma carnificina maior que a dos Vermelhos e tudo isso era feito em nome do combate aos ateus comunistas. Depois desses fatos, o conflito tomou novas proporções com a entrada em cena das potências estrangeiras. Alemanha e Itália deram grande quantidade de dinheiro e armamento para os Nacionalistas, enquanto a União Soviética enviou ajuda aos Republicanos. Tudo isso parece que deu uma aparência de equilíbrio à guerra, mas Beevor diz que a ajuda dos países fascistas foi muito mais ampla que a da União Soviética. Esta última evitou mandar mais dinheiro e armamento pelo medo que Stálin tinha de provocar Hitler. A ajuda militar alemã foi decisiva para o domínio da guerra passar para o lado Nacionalista, principalmente pela utilização de aviões de caça alemães e de pilotos da Wehrmacht. Os Estados Unidos estavam inclinados a enviar ajuda aos Republicanos, mas Roosevelt recuou por causa do lobby católico americano, que como aconteceria na Segunda Guerra, estava ao lado dos fascistas. Com o passar do tempo, os Republicanos foram ficando cada vez mais acuados e sem recursos, com isso eles fizeram um acordo criminoso com a ditadura de Stálin no qual as imensas reservas de ouro epanholas foram transferidas para Moscou em troca de uma ajuda militar que nem chegou pela metade. Os comunistas espanhóis, desse modo, promoveram um crime contra o seu próprio país. Com toda a ajuda que receberam de Hitler ,e junto ao talento estratégico de Franco, os nacionalistas venceram a guerra. Depois disso Franco promoveu sua própria inquisição para a limpeza da Espanha de elementos “inimigos” da pureza imaginada por ele e pelo clero fascista. Os tradicionais inimigos eram os judeus, os maçons e os comunistas, e contra esses dois últimos foram promovidas leis para vingar os mortos do lado nacionalista. Beevor escreve que se os comunistas tivessem ganhado a guerra o terror quase que certamente viria, entretanto não podemos fazer conjecturas se teria sido mais ou menos grave que o Terror de Franco. O ditador espanhol ainda hoje é admirado por fascistas e alguns religiosos, notavelmente padres conservadores. Na minha opinião, o respeito pela vida humana está acima de supostos benefícios que a vitória de um ditador possa trazer, mesmo que esse esteja agindo em nome de Deus e até com o apoio da Igreja. Não podemos fazer pactos com o Demônio. Beevor deixa bem claro que Franco era um ditador execrável, e o livro é excelente para uma compreensão isenta de um dos conflitos mais complexos do século XX.

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