Resenha: Fragmentos sobre a história da filosofia, de Arthur Schopenhauer

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Fragmentos sobre a história da filosofia é um dos capítulos da obra de Schopenhauer ( Parerga e Paralipomena ). Esta última garantiu ao filósofo a fama que ele tanto desejava. Escrito com o estilo agradável que é o hábito de Schopenhauer, neste volume da edição da Martins Fontes encontram-se dois ensaios: esboço de uma história da doutrina do Ideal e do Real e os Fragmentos sobre a história da filosofia. No segundo ensaio, Schopenhauer deixa claro que estudar a história da filosofia não é fazer filosofia. Para ele, se quisermos entender filosofia devemos ler as obras originais dos filósofos, e nunca o resumo de terceiros. Schopenhauer busca nos filósofos que o precederam uma antecipação da sua distinção entre o intuído e o pensado. O filósofo com o qual ele mais se identifica entre os pré-socráticos é Empédocles, pois este colocava a primazia não no intelecto, mas sim na vontade. Este filósofo grego possuía uma opinião pessimista a respeito da existência, que ele via como uma espécie de exílio, da mesma forma que Schopenhauer.Pitágoras e sua escola são elogiados pela importância que deram à música e pelo fato de muito da sua cosmologia ter sido confirmada pela ciência. Pitágoras também é louvado pela sua filosofia de origem indiana e por sua vida ascética. Sócrates é criticado pelo filósofo alemão por não ter colocado sua doutrina de maneira escrita, pois segundo ele um homem que quer ver seus ensinamentos chegarem aos poucos melhores em qualquer época não pode confiar suas palavras à tradição, que é sempre enganosa, mas deve colocar suas ideias no papel. Platão é o grande filósofo da história para Schopenhauer, o que não o impede de criticá-lo, pois segundo ele, Platão foi um filósofo com tendência a teologizar sobre tudo. Platão errou por ter desconfiado excessivamente dos sentidos, mas os empiristas também erraram, segundo Schopenhauer. Para ele, a filosofia kantiana demonstrou que existem conhecimentos racionais puros, ou seja, a priori. Schopenhauer afirma que apesar de existirem conhecimentos que independem da experiência, o conhecimento a priori só tem valor com a finalidade da experiência, dessa forma toda a atividade pura da alma que Platão acreditava cai por terra. Aristóteles é duramente criticado no livro por sua arrogância e por escrever muito sem chegar a nenhuma conclusão. Schopenhauer é especialmente crítico em relação ao método a priori da ciência aristotélica, e também pelo fato de que esse método o levou a ter opiniões absurdas sobre a cosmologia. Fica bem claro que os filósofos pré-socráticos tiveram uma compreensão muito mais clara a respeito do universo e da Terra do que Aristóteles, mas que esse último ridicularizava Pitágoras e outros filósofos por sua própria arrogância (a de Aristóteles) e por sua ciência a priori. Muito esclarecedor é o capítulo que trata de um filósofo pouco conhecido que é Escoto Erígena que, no entanto, foi um verdadeiro filósofo por ter desafiado, dentro de suas limitações, a pesada teologia de sua época medieval. Erígena não acreditava nas penas eternas do inferno, mas sim na redenção universal da mesma forma que Orígenes. Schopenhauer percebe que Erígena acreditava que Deus era o único responsável pela existência do mal no mundo, mas ele o critica por ter tentado isentar a Deus através de sofismas lamentáveis. Na parte da filosofia moderna, Schopenhauer concentra-se em Kant, que foi o seu grande mestre. Kant é elogiado por ter demolido as provas sobre a existência de Deus e por ter definido a dialética transcendental. Schopenhauer aproveita a filosofia de Kant para esboçar sua própria teoria sobre o tempo, que está no final do livro. Para ele, o tempo não pode ter início e depende inteiramente de nós. Se não existimos, não há objetos nem tempo algum. Com isso, Schopenhauer pode afirmar que a única realidade é o presente; que o real independe do tempo e que esse mesmo tempo é estranho à coisa-em-si. Por fim, o filósofo alemão descarta toda a prova ou necessidade da existência de Deus. Ele afirma que não fomos criados a partir de um nada por Deus, mas que todas as coisas existem por nossa causa. O ser humano, para Schopenhauer, é incriado e indestrutível.

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