Resenha: Discurso do Método, de René Descartes

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Escrito pelo pai da filosofia moderna, o Discurso do Método é o resultado da decisão de Descartes de colocar em dúvida todo o conhecimento que ele herdou de seus mestres. Educado pelos jesuítas e com um amplo conhecimento da filosofia escolástica, Descartes resolve, como ele mesmo diz, demolir toda essa base herdada para produzir uma nova construção mais sólida feita por ele mesmo. A partir disso, Descartes propõe as seguintes etapas para o seu novo método:

1-Nunca aceitar coisa alguma como verdadeira sem que a conhecesse como tal, e não incluir em meus juízos nada além daquilo que se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida;

2- Dividir cada uma das dificuldades que examinasse em tantas parcelas quantas fosse possível e necessário para poder resolvê-las;

3- Conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer para subir pouco a pouco até o conhecimento dos mais compostos;

4-Fazer tudo em enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse certeza de nada omitir.

Descartes vai seguir o método da dúvida; isso a tal ponto que ele vai dizer que nossos sentidos às vezes nos enganam. No Discurso do Método, ele não chega a mencionar o famoso “ gênio maligno” como ele faz em suas Meditações; no entanto, aqui também ele resolve fingir que todas as coisas que entraram em seu espírito não passam de ilusões. O filósofo, então, colocando tudo em dúvida, ao menos tem a certeza de que ele é alguma coisa. Então a verdade que penso, logo existo, é uma verdade que Descartes diz que nem os mais céticos podem abalar, por isso faz desse princípio o início da sua filosofia. Ele também não duvida que seja composto de uma alma e que ela é totalmente distinta do corpo. Nesse ponto, Descartes se afasta da filosofia escolástica, para a qual a alma está unida ao corpo sem cair nesse tipo de  dualismo cartesiano. Adiante, Descartes diz que também não podemos duvidar da existência de um Ser perfeito, por isso podemos ter certeza da existência de Deus. A demonstração de sua existência é baseada no argumento ontológico de Santo Anselmo. O filósofo francês acredita que a dificuldade que as pessoas têm em reconhecer a existência de Deus é porque elas nunca elevam o espírito além dos sentidos, por isso tudo o que não é imaginável não parece ter sentido, diz ele. A filosofia escolástica possui um adágio famoso que “não há nada no entendimento que não tenha passado antes pelos sentidos”. Descartes rejeita isso porque a certeza da existência de Deus provém da nossa razão, e nunca dos nossos sentidos. A quinta parte do Discurso do Método possui uma curiosa teoria sobre o funcionamento do organismo animal, particularmente do coração, e ali Descartes faz uma diferenciação radical da natureza do homem e do animal. Para ele, os animais são autômatos com uma complicada engenharia mecânica, mas não possuem uma alma como o homem, e isso é demonstrado pelo fato dos animais não possuírem uma linguagem como a humana. Claro que essa conclusão de que os animais não possuem alma é repulsiva, e demonstra resquícios da filosofia de Aristóteles e da Escolástica no espírito de Descartes, pois o platonismo sempre reconheceu que os animais possuem alma. O Discurso do Método foi concebido como uma obra que iria abrir caminho para outras publicações de Descartes que ele tinha em mente. Particularmente, ele queria atacar a filosofia de Aristóteles e criar uma nova ciência que valorizasse a experimentação. Descartes queria acima de tudo que sua filosofia e essa nova ciência não estivessem a serviço de nenhum governante ou Estado, mas sim que servissem ao progresso da humanidade inteira.

 

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