Resenha: Textos Escolhidos, de Karl Popper

Textos escolhidos

Este livro reúne diversos artigos escritos pelo filósofo da ciência austríaco Karl Popper ao longo de várias décadas de sua longa vida. Popper era um defensor do assim chamado racionalismo crítico. Ele acreditava que a ciência e a filosofia deveriam refletir os ideais dos filósofos pré-socráticos de inovação e de pluralidade de opiniões. A tradição do racionalismo foi resgatada pelo Renascimento mas, desde o idealismo alemão, o irracionalismo ganhou terreno, principalmente na filosofia de Bergson. Popper não era um defensor de qualquer tipo de racionalismo, já que ele acreditava que o racionalismo por si só é uma fé irracional na razão. O racionalismo crítico de Popper tem estreitas ligações com o programa liberal de defesa das instituições, da liberdade de pensamento e dos homens. O filósofo austríaco rejeita qualquer programa de engrandecimento do Estado e da sua suposta missão de fazer os homens felizes ou de salvá-los. Isso foi tentado na Idade Média, por exemplo, e o resultado foi trágico. Como diz Popper, “ a tentativa de criar o paraíso na Terra produz invariavelmente o inferno.”

A teoria do conhecimento de Popper questiona sempre as fontes do nosso conhecimento. O conhecimento não parte de uma tabula rasa ( Popper negava a teoria de Aristóteles e de Locke que nossa mente fosse uma folha em branco ao nascermos), nem da observação, diz ele. Popper rejeita a teoria Aristotélica de que a ciência é formada por um conjunto de acumulação de dados sobre a essência das coisas. A ciência moderna, diz Popper, nunca pode dizer que alcançamos a verdade suprema sobre qualquer coisa. A ciência avança não por uma acumulação Enciclopédica, mas por ideias novas que substituem as antigas. Popper nesse livro julga ter solucionada o problema da indução de Hume. O filósofo escocês dizia que o fato de o Sol ter nascido hoje da mesma forma que séculos atrás não era indício de que nasceria amanhã. Popper concorda e diz que nenhum número de casos observados podia ter alguma influência sobre os não observados. Hume, porém, dizia que a indução era uma realidade psicológica dos seres humanos  do qual não poderíamos escapar porque sem ela não sobreviveríamos. Popper encontra sua resposta aceitando o caráter lógico da resposta humiana, mas rejeita o problema psicológico. Popper cita Bertrand Russell, para quem o problema psicológico colocado por Hume foi uma rendição do filósofo escocês ao puro irracionalismo. Popper dá a solução dizendo que o problema lógico de Hume está certo e junto a essa pergunta poderíamos fazer outra que seria: “é justificável raciocinarmos a partir de um contra-exemplo para chegar à falsidade de uma lei universal?” Um só exemplo contrário refuta toda uma lei, diz Popper. O filósofo austríaco foi um inimigo implacável da indução baconiana. Ele sempre acreditou que a validade de uma teoria científica era devido ao fato dela permitir ser falsificada em diversos testes. No caso do marxismo, Popper diz que quando Marx escreveu suas previsões sobre o avanço do socialismo, o marxismo era científico; no entanto, desde que os acontecimentos históricos demonstraram os equívocos de Marx, a doutrina marxista passou a ser não mais uma ciência, mas sim uma tese metafísica. A psicanálise de Freud também é classificada por Popper como não-científica, pois não permite ser testada. Independentemente do resultado exibido pelo paciente, a psicanálise pode dizer que suas teorias estão certas.

Na parte do livro que reúne artigos sobre Metafísica, vemos que Popper não era um positivista e que ela valorizava o pensamento metafísico. Ele acreditava na teoria de Aristóteles de uma “intuição intelectual”, porque isso faz parte da descoberta científica. Popper também crê na tese platônica de que possuímos conhecimentos inatos e de que a Metafísica pode dar origem a grandes ideias da ciência.  Popper julgava-se um realista filosófico, porém dizia que o realismo não era demonstrável, apesar de ser o mais racional para ele. Na questão da teoria de Darwin, Popper é bastante contraditório. No início, ele dizia que a seleção natural era um tautologia que não podia ser testada. Depois ele mudou de opinião porque passou a acreditar que ela podia ser testada, mas não é convincente de modo algum na minha opinião. A Filosofia social de Popper ficou definida em sua obra A Sociedade Aberta e seus Inimigos. Popper era um defensor do individualismo e tinha horror a qualquer tipo de coletivismo, que ele acreditava ter origem em Platão. Apesar de criticar o filósofo grego nesse ponto, Popper o louva por ter descoberto o paradoxo da liberdade. Platão dizia que a democracia em que reinasse a liberdade poderia ser destruída por um povo que clamasse por um tirano. Popper diz que a única solução é criar instituições democráticas fortes que evitem a ascensão do tirano, apesar dele reconhecer que não existem métodos infalíveis de evitar que um tirano suba ao poder e destrua a democracia.

Comments

  1. Boa resenha, Felipe. Popper é mesmo muito interessante.

  2. Stefan says:

    Olá, Felipe. Sou absolutamente novo em seu site e estou ingressando na filosofia aos poucos. Desprezo muito o fato dos meus 1° e 2° anos não terem me proporcionado aulas decentes de filosofia e tento hoje – especialmente graças ao vestibular desse ano – ingressar na faculdade e provavelmente precisarei da disciplina para a prova e o curso. Comecei por ler “O mundo de Sofia”, que mais você poderia me recomendar.
    Ótima resenha, antes que eu me esqueça.

    • Olá Stefan! O ” Mundo de Sofia” é um excelente livro mas é muito básico para um melhor entendimento da filosofia. Recomendo que você leia a “História da Filosofia” de Giovanni Reale e Dario Antiseri ( o livro é dividido em três partes e tem a capa azul ). Leia de Étienne Gilson a “Filosofia na Idade Média” e o “Espírito da filosofia medieval”. Leia os diálogos de Platão e a “ética a Nicômaco” e a “Política” de Aristóteles. Para começar a entender filosofia esse é o roteiro que você deve seguir.

  3. Henriette Fortes says:

    Oi, Felipe! Encontrei por “acaso” este blog e estou adorando mergulhar nos excelentes textos que vc aqui tem colocado à disposição de quem quer que tenha interesse no pensar e/ou na história do pensamento.
    Não sou graduada em filosofia, apesar de ter estudado Filosofia Clínica. Entretanto, suas resenhas estão me auxiliando a sanar certas dúvidas. Obrigada por isso!
    Uma pergunta: entre os pré-Socráticos, quem foi aquele que chegou mais próximo do conceito (ou da ideia) de CONSCIÊNCIA? Ou não houve tal pensador?

    • Obrigado pelo comentário! Sem dúvida o filósofo pré-socrático que chegou mais próximo da ideia de consciência foi Empédocles. Schopenhauer admirava-o muito por sua moral que se aproximava do Cristianismo e por suas ideias pessimistas a respeito da existência humana. Antecipando Platão, Empédocles também acreditava que estávamos encerrados em uma prisão. Ele ensinava a reencarnação e também a crença na imortalidade de todos os seres vivos, pois a aniquilação é impossível, dessa forma a eternidade é certa.

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