Resenha: Ordem e História- Em busca da Ordem, de Eric Voegelin

em busca da ordem

 

Último volume da grandiosa série Ordem e História, Em Busca da Ordem é um livro incompleto, pois Eric Voegelin morreu antes de terminá-lo. Ele pretendia terminar seu estudo da consciência e do simbolismo de algumas civilizações neste livro; junto a essa tarefa também está sua apreciação final da filosofia platônica e um estudo sobre Hegel. A História, para ele, é um movimento e um contramovimento entre o divino e o humano. A constante busca pela verdade pelas diversas civilizações e religiões sempre foi seu objeto de estudo. Voegelin reconhece que nossa experiência atual sobre os antigos símbolos da ordem está em declínio, e ele acredita que a busca pela verdade só terá valor se estiver harmonizada a partir de uma evocação pneumática da ordem a partir da desordem. Voegelin crê que aquele que busca a verdade deve buscar a ordem no tempo externo para que ele seja impelido a essa mesma ordem pela realidade divina fora do tempo.

Platão ofereceu ao homem um exemplo que como agir nessa busca pela verdade pelo ensinamento de que todas as coisas participam do Nous formativo do Além Divino. No ato da busca, o filósofo inquiridor participa da presença divina na dimensão do tempo externo. A partir disso, o filósofo chegará à conclusão de que a “ordem da história emerge da história da ordem”, nas palavras de Voegelin. Ora, essa busca da formação da consciência pode resultar em acontecimentos trágicos quando o ser humano tenta deformar o Além, e Voegelin estudou profundamente esses casos. Um dos exemplos mais famosos foi quando o profeta Isaías recomendou ao rei que não mobilizasse seu exército contra a Assíria porque Deus lutaria pelos israelitas. Para Voegelin, isso é um exemplo clássico de fé metastática, que é aquela que surge quando a desordem impera e o ser humano passa a acreditar que o único meio de salvação é uma miraculosa intervenção divina.

Estes fatos aconteceram em muitos casos ao longo da história, de maneira que Voegelin sempre nos alerta para que fenômenos semelhantes possam ser evitados. Outro acontecimento é quando a intervenção divina esperada não ocorre, daí surge o tipo gnóstico que sugere que a compreensão pessoal sua é o começo da salvação. Como diz Voegelin, o gnóstico é aquele que acredita que o erro está sempre no Princípio, e que ele (o gnóstico) conduzirá seu povo e a humanidade ao seu Fim.

Desde que Hesíodo enumerou os inúmeros males que afligem a humanidade que muitos seres humanos se revoltam contra a ordem divinamente estabelecida. Dessa revolta nasce a fé metastática e diversas formas de vícios da alma como a hybris, a libido dominandi e a vontade de poder. Platão, segundo Voegelin, queria que o filósofo que busca a verdade evitasse de todas as formas o esquecimento (anoia) da sua participação no Nous divino e, com isso, transformasse sua busca em uma autoafirmação.

Voegelin acusa a Igreja de ter deformado o Nous platônico em uma simples razão natural que seria serva da Revelação; desta forma, a Igreja católica teria adquirido para si o monopólio da Revelação; entretanto, a história teve sua vingança, segundo Voegelin, quando a verdade da Revelação passou para diversas outras instituições que passaram a agir com a mesma violência da Igreja em nome de uma suposta verdade revelada.

Contra a doença do esquecimento e da deformação da alma pela doença da injustiça, Voegelin afirma que Platão formulou sua filosofia como um esforço de salvação da psique humana. No capítulo 2 do livro, o autor acusa a filosofia de Hegel e o pensamento alemão em geral de deformar a simbologia do Além platônico. Na filosofia hegeliana, a verdade histórica passa a depender do Sistema do especulador e a realidade passa a depender da Segunda Realidade da especulação, segundo Voegelin. Heinrich Heine afirmava que a história universal haveria de conhecer um grande acontecimento: a chegada do trovão alemão. Voegelin afirma que esse acontecimento se deu com o surgimento dos grandes criadores de sistemas, em especial Karl Marx. Hegel, por exemplo, é descrito no livro como alguém que quis alterar o significado da filosofia como “amor ao conhecimento” para “conhecimento real”.

De acordo com Voegelin, a filosofia é um amor e uma busca que nunca tem fim, mas Hegel pretendia conduzir o homem ao Fim através do conhecimento absoluto. Hegel, Marx e Feuerbach foram criadores do movimento Deus está morto, sendo que Voegelin afirma que Hegel sabia que os deuses antigos haviam morrido e que Deus poderia estar morto para a História, mas que ainda assim Ele estava vivo para a Parusia no seu Sistema da Ciência. Eric Voegelin foi um dos grandes filósofos do século XX, e sua obra Ordem e História é monumental e de leitura obrigatória para quem estuda filosofia e quer ter uma vida intelectual rica.

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