Schopenhauer e o Espírito do Cristianismo

Arthur_Schopenhauer_1 artigo

Texto extraído do livro O Mundo como Vontade e Representação- Volume 2 ( Editora Dover Publications). Fiz a tradução pois esta obra não foi traduzida ainda para o português. ( págs 620 à 622 )

“O que é oposto ao espírito do Cristianismo é sempre e em todo o lugar o Antigo testamento com sua ideia de que tudo o que Deus fez é bom. Isto aparece particularmente naquele importante terceiro capítulo do Stromata de Clemente de Alexandria. Argumentando contra os heréticos Encratitas, ele sempre os confronta com o judaísmo e sua história otimista a respeito da criação, cuja tendência de negação do mundo do Novo testamento está certamente em contradição. Mas a conexão do Novo testamento com o Antigo é, no fundo, apenas um fato forçado, externo e acidental, e, como eu disse, isto ofereceu um único ponto de contato com o Cristianismo, que é a história da Queda, a qual, no entanto, no Antigo Testamento está completamente isolada e não é mais utilizada. Ainda assim, de acordo com a narrativa do evangelho, são apenas os seguidores ortodoxos do Antigo Testamento que causam a crucificação do Fundador, porque eles consideram que ensinamentos do salvador estão em contradição com os seus próprios.

No caso mencionado acima do terceiro livro do Stromata de Clemente, o antagonismo entre o otimismo aliado ao teísmo de um lado, e o pessimismo aliado ao ascetismo de outro, fica claro com uma surpreendente clareza. Este livro de Clemente é direcionado contra os gnósticos, que pregavam precisamente o pessimismo e o ascetismo (particularmente a abstinência, especialmente da prática sexual); por esta razão, Clemente vigorosamente censura-os; mas ao mesmo tempo fica aparente que o espírito do Antigo Testamento permanece em seu antagonismo com o do Novo. Com a exceção da Queda, que aparece no Antigo Testamento como um hors d’oeuvre, o espírito do Antigo Testamento é diametralmente oposto ao do Novo Testamento: o primeiro é otimista; o segundo é pessimista. Esta contradição é trazida por Clemente no final do capítulo 11, apesar de que ele não vai admitir, mas declara que é apenas aparente, como um bom judeu que ele é. De maneira geral, é interessante de ver como em Clemente o Antigo e o Novo Testamento estão sempre misturados, e como ele luta para reconciliá-los, ainda que ele sempre conduza o Novo Testamento a partir do Antigo.

Logo no começo do terceiro capítulo do Stromata ele faz objeção aos Marcionitas por eles terem achado uma falta na Criação, da mesma forma que Platão e Pitágoras, pois Marcião ensina que a natureza é má e feita de um material ruim; dessa forma esse mundo não deveria ser povoado, mas o ser humano deveria evitar o casamento. A partir de agora, Clemente- para quem o Antigo Testamento geralmente é muito mais simpático e convincente que o Novo- leva isso adiante de maneira muito inapropriada. Ele vê na atitude dos Marcionitas uma ingratidão, inimizade e um ressentimento Àquele que fez o mundo, ao Demiurgo, cuja obra eles fazem parte. Em sua rebelião ateia, “abandonando sua disposição natural”, eles desprezam fazer o uso das outras criaturas. Aqui em seu ardor santo ele não permite aos Marcionitas nem a honra de terem sido originais, mas, armado com sua bem conhecida erudição, ele os repreende e busca apoio em sua tese com as mais sofisticadas citações dos antigos filósofos, ou seja, de Heráclito e de Empédocles, de Pitágoras e Platão, Orfeu e Píndaro, Heródoto e Eurípedes, e ainda as Sibilas, sendo que todos esses filósofos deploravam profundamente a natureza miserável de nosso mundo e, assim, ensinaram o pessimismo.

Clemente não consegue perceber que em seu entusiasmo acadêmico ele está precisamente fornecendo grãos para o moinho dos Marcionitas, porque ele mostra que “todos os sábios de todas as eras” ensinaram e cantaram a mesma coisa que o grupo de heréticos que ele está combatendo. Pelo contrário, ele de maneira confiante e ousada cita as mais decididas e enfáticas expressões dos antigos naquele sentido. É claro, ele não se sente desencorajado por eles; os sábios podem lamentar a natureza melancólica da existência; poetas podem derramar as mais comoventes lamentações sobre isso; a natureza e a nossa experiência podem gritar para sempre contra o otimismo; tudo isso não perturba o nosso Padre da Igreja. Ele ainda mantém a sua revelação judaica na mão e permanece confiante. O Demiurgo fez o mundo, e isto é uma certeza excelente e a priori, não importa o que pareça. É que acontece com os Marcionitas, que, de acordo com Clemente, revelam sua ingratidão e geniosidade com o Demiurgo com a rejeição de sua obra. Os poetas trágicos já haviam pavimentado caminho para os Encratitas (em detrimento de sua originalidade), dizendo as mesmas coisas. Assim, eles lamentam a infinita miséria da existência e adicionam a isso que é melhor não trazermos nenhum filho a tal mundo. Novamente, ele mantém sua opinião com as mais belas passagens, e ao mesmo tempo acusa os Pitágoricos de terem renunciado ao prazer sexual por esta razão. Tudo isso, entretanto, não o preocupa de forma alguma. Ele adere ao seu princípio de que através da abstinência de alimentos ou de sexo, todos esses grupos pecam contra o Demiurgo, pois eles pregam que não devemos nos casar, ter filhos, nem trazer novos seres miseráveis ao mundo, dessa forma não produziríamos forragem fresca para a morte. Quando o douto Padre da Igreja denuncia tudo isso, ele não aparenta ter uma premonição que, pouco tempo depois dele, o celibato do clero cristão seria introduzido cada vez mais até que, finalmente no século XI seria transformado em lei, pois isto seria feito dentro do espírito do Novo Testamento. É precisamente esse espírito que os gnósticos captaram mais profundamente e o entenderam melhor que o nosso Padre da Igreja, que era muito mais um judeu do que um cristão.”

Para compreender melhor essa passagem, acrescento o que Schopenhauer escreve algumas páginas antes ( pág 617) sobre o casamento.

“No Cristianismo, o casamento é tido como uma simples concessão, ou seja, um compromisso com a natureza pecaminosa do homem, dessa forma, o casamento é permitido àqueles que não possuem a força necessária para buscarem o que é mais elevado ( a castidade ), e também é utilizado como expediente para prevenir uma perdição maior. Neste sentido, recebe sanção da Igreja para que o laço entre o casal seja indissolúvel. Entretanto, a virgindade e o celibato são colocados como muito mais importantes e em um nível muito mais alto de inspiração para o Cristianismo, pelo qual aquele que faz seus votos entra na fileira dos eleitos. Através disso somente a pessoa consegue a coroa da vitória, que é indicado ainda nesse tempo por uma grinalda no caixão daquelas que não se casaram, da mesma forma que a grinalda é  colocada de lado pela noiva no dia do seu casamento.”

 

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