Resenha: A Galáxia de Gutenberg, de Marshall McLuhan

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Quando li há muitos anos o livro de Neil Postman “O Desaparecimento da Infância” fiquei sabendo que a grande influência que ele teve para escrever sua tese foi a obra do filósofo canadense Marshall McLuhan” A Galáxia deGutenberg”. Desde então tive muita curiosidade em ler esse livro. Agora que o li posso dizer que a tese de McLuhan é muito mais ampla e complexa do que a de Neil Postman.

A obra de McLuhan fala sobre o impacto que a invenção da prensa móvel de Gutenberg teve na civilização Ocidental. O autor descreve como o homem do Ocidente possui um tipo de formação intelectual que era completamente diferente de qualquer outra parte do mundo àquela época (1960). Toda a humanidade ainda vivia em um mundo de uma educação puramente oral (incluindo países como a Rússia, a China e até mesmo o Brasil- que ele não cita). Somente países de língua inglesa haviam chegado a um nível de civilização e de educação em que o ensino e a comunicação a partir da palavra impressa eram a regra e não a exceção.

McLuhan faz um estudo (sempre com muitas citações de outros autores que auxiliam em sua tese) sobre outras épocas da humanidade, em especial a Idade Média.Ele também estuda a Antiguidade Clássica. Os gregos sofreram com a introdução do alfabeto e poucos perceberam naquela época as implicações daquela invenção. McLuhan diz que a característica da Grécia era o mito, que tende a ter mais força e a se propagar em uma civilização oral. Os gregos, ao contrário dos romanos, tinham grandes dificuldades de colocar em prática as suas teses. Se a escrita fonética favoreceu a civilização grega no domínio das artes, entre os romanos essa invenção criou a noção de espaço fechado e o pensamento do tipo linear, com a fabricação em massa de livros. O próprio comércio de livros foi muito limitado na Grécia Antiga, o que dificultou a propagação das ideias, o que no império romano acabou por ser diferente, já que havia uma livre circulação de livros e material impresso, o que garantiu a homogeneização do pensamento do Império, que nesse caso favoreceu muito a área do Direito e das leis. Os gregos, diz o autor, se sentiriam à vontade em países como a Irlanda (que era um país de cultura oral), enquanto os romanos adorariam viver nos Estados Unidos.

A Idade Média é exaustivamente analisada no livro. O que caracteriza esse período é a ausência da cultura do livro na chamada “Idade das Trevas” que vai até o ano mil. Para o leitor medieval, ler não era um ato interno, mas sim um ato exterior, já que ler voz alta ajudava  para uma melhor memorização. A cultura da Alta Idade Média era oral e baseada na memorização. Pouco havia de preocupação com a origem das ideias. O que importava era memorizar as passagens para uma futura utilização em um debate. A população maciçamente analfabeta acreditava que uma maneira de se tornar mais educada era pela aprendizagem de provérbios. Como demonstrou Huizinga, na era medieval o pobre da cidade ou o camponês decoravam diversos provérbios que exibiam a sabedoria popular como meio de educação. Isso está refletido na obra de Bruegel “Provérbios Holandeses”.

Curiosamente foi a própria civilização medieval que ajudou a criar a valorização do livro. No Cristianismo, o livro (Bíblia) é o centro da fé. Os próprios teólogos medievais como São Tomás de Aquino valorizavam muito a busca pelos vestígios de Deus na natureza, pois, como sabemos, para Aquino e os Escolásticos, todas as provas da existência de Deus só poderiam ser obtidas a posteriori, portanto “lendo” o livro da natureza poderíamos provar a existência de Deus. Foi exatamente a partir desse tipo de mentalidade que Francis Bacon pode criar seu método científico. McLuhan diz que o filósofo inglês tinha os dois pés na Idade Média.  Bacon queria uma ciência prática que aliviasse os efeitos da Queda do homem a partir de Adão, e esse sempre foi o ideal da Idade Média da Escolástica. Por mais que o livro tivesse começado a ter uma grande circulação a partir do século XII, o ensino medieval ainda era profundamente oral, basta ver as famosas disputatio nas universidades.  Com a invenção de Gutenberg, criou-se a noção de indivíduo, que a partir de agora poderia propagar livremente suas próprias ideias mesmo que elas fossem insignificantes. O Renascimento teve pouca preocupação com a filosofia durante muito tempo. O que era mais importante para os renascentistas era o aprimoramento da língua, especialmente do latim. McLuhan demonstra que erros de gramática eram impossíveis para os medievais, e que a excessiva preocupação da Renascença com a linguagem terminou por extinguir o Latim.

Apesar da incrível importância que a prensa móvel teve para a Europa, ela fez surgir um fenômeno moderno bastante perigoso: o surgimento do nacionalismo. Na época medieval todo tipo de nacionalismo era impossível. A partir do livro impresso, a preocupação com a pureza de cada língua nacional tornou-se a regra. Cada europeu passou a se ver como um cidadão diferente por causa da língua e restringiu sua nacionalidade a uma comunidade falante de uma língua comum. A Inglaterra aproveitou-se disso e foi o primeiro país a ter uma consciência nacional já no século XVI.

A noção de espaço da geometria de Euclides e o livro impresso não são coisas que sejam assimiláveis facilmente pelo ser humano. Como demonstra McLuhan, ambos tendem a separar a visão de outros sentidos como a audição, o que os torna de difícil compreensão para uma cultura não-alfabetizada. O filósofo canadense prova que a cultura do livro só foi adotada integralmente no mundo anglo-saxão. Povos europeus como os espanhóis, russos e os irlandeses mantinham uma cultura oral mesmo no século XX. A cultura dos países católicos permaneceu oral, enquanto a civilização protestante é a da palavra impressa. A civilização católica é emocional como toda cultura oral; as nações protestantes tendem a ser sóbrias e mais precisas.

A conclusão de McLuhan é de que o livro criara o indivíduo e a noção de espaço fechado. Se com o livro o nacionalismo foi possível, com a tecnologia da televisão surgiu o fenômeno do tribalismo. A alfabetização e a cultura do livro são um antídoto contra todo tribalismo ou ideias comunistas. Uma sociedade baseada no livro tende a ser uniforme, enquanto a sociedade da “eletricidade” tende a se dividir em grupos menores, o que faz a civilização do livro ter cada vez mais uma consciência de países tribais com uma cultura puramente oral por causa da crescente influência da mídia eletrônica.

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