Resenha: Os Intelectuais, de Paul Johnson

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A figura do intelectual tem sido dominante no Ocidente desde o século XVIII, sendo que o século XX foi a época de ouro desse tipo de pensador. O livro de Paul Johnson ajuda o leitor a identificar quem é o intelectual e o perigo que ele representa a logo prazo para a sociedade.

Durante sua vida, o intelectual tende a ser idolatrado pelas massas e por um círculo de intelectuais menores. Poucos identificam em suas ideias elementos destrutivos de médio e longo prazo- e o que é pior, poucos sabem do comportamento destrutivo do intelectual em relação a seus familiares e amigos mais próximos.

Paul Johnson diz que as principais características do intelectual são duas: ter opinião sobre todos os fatos da vida (inclusive sobre ciências que ele desconhece) e um amor pela humanidade (no geral) ao mesmo tempo em que sente um enorme desprezo pelo ser humano real em particular.

Começando seu estudo dos intelectuais por Rousseau, Johnson identifica no filósofo francês o protótipo de todo intelectual que viria a ser dominante na Europa e nos Estados Unidos. Rousseau nos deixou um legado de ideias perigosas e foi uma verdadeira inspiração para todo governante totalitário desde então. Com ele iniciam-se várias das atitudes que irão repetir-se nos outros casos analisados no livro: a separação entre a teoria e o mundo real; uma atitude tirânica em relação aos amigos mais próximos e, por último, um comportamento abominável com as (inúmeras) mulheres com as quais se relacionou. Quase todos os intelectuais dessa obra de Paul Johnson desprezam suas mulheres ou amantes.

Rousseau certamente é o intelectual mais desprezível narrado no livro, principalmente porque em longo prazo suas ideias foram uma das que mais prevaleceram no Ocidente. Claro que a sua vida horrível também conta, mas foram suas opiniões e seus livros (escritos de maneira romântica e agradável) que provaram ser o seu pior legado.

Jean Paul Sartre é o intelectual mais parecido com Rousseau em todo o livro. Pessoalmente foi um tirano com sua mulher (Simone de Beauvoir), e um covarde em termos políticos durante a Segunda Guerra (os alemães o achavam inofensivo). Como filósofo fez aquilo que Johnson acredita ser o destino de todo intelectual francês: o de propagar e exagerar ideias alemãs. Foi idolatrado e considerado a referência para toda uma geração de jovens franceses dos anos 1950 e 1960. O autor do livro lembra que todas as lideranças do futuro Khmer Vermelho estudaram em Paris àquela época e estavam profundamente influenciados pelas ideias francesas quando começaram o genocídio da população do Camboja. Como as outras figuras do livro, Sartre tinha uma enorme capacidade de envolver-se em confusões e brigas contras seus amigos ou rivais na área da filosofia ou literatura. Esse capítulo do livro é importante porque faz um contraste entre Sartre e Albert Camus. O primeiro estava mais preocupado com as ideias e não com o ser humano; o segundo não queria e não permitiria jamais que o ser humano fosse sacrificado em nome de qualquer ideia ou sistema político.

Johnson considera Bertolt Bretch o mais insignificante de todos os intelectuais narrados no livro por sua falta de talento e por sua covardia moral. Na questão da vida e da obra de Karl Marx, Johnson vê o triunfo da poesia sobre a ciência, uma vez que ele crê que Marx era um falsificador anticientífico de dados que ele obteve do museu britânico. Fazendo uma curiosa e importante análise da obra poética de Marx (que existe e pouca gente conhece), o que podemos ver é uma personalidade apocalíptica que julgava que algo em que acreditava necessariamente iria acontecer por algum evento trágico e “milagroso”. É exatamente aquilo que Eric Voegelin denomina de “fé metastática”. Johnson descreve a vida particular de Marx como um burguês (até seu apologista Francis Wheen reconhece isso) que nunca trabalhou e jamais pagou salário à sua empregada (que ele engravidou e não reconheceu seu filho). Como os outros intelectuais, Marx nunca teve vontade de estudar e compreender a vida prática- no caso os trabalhadores das fábricas. Isso tudo é verdade, no entanto, Johnson exagera ao julgar que Marx não falou a verdade em nenhum ponto. Sim, ele era um pessimista apocalíptico em relação à sociedade de sua época ao mesmo tempo em que tinha uma “fé” quase religiosa em um futuro socialista; entretanto, muitas das observações que ele faz em O Capital são válidas, como seu conceito de alienação, o fetichismo da mercadoria e a tendência do capitalismo em baixar salários criando um abismo entre quem tem o capital e quem produz. De todos os intelectuais descritos nessa obra, Marx é o mais poderoso e importante.

Quanto a Bertrand Russell, sua obra filosófica é grandiosa, mas suas ideias políticas extremamente contraditórias. A sentença que podemos aplicar a ele são as de Wittgenstein: “sua obra sobre filosofia da matemática e sobre lógica devem ser ensinadas; quanto às suas opiniões sobre moral e política, elas devem ser jogadas no lixo.”

No final do livro existe um pequeno estudo sobre Noam Chomsky, que hoje em dia é o grande intelectual vivo em nível mundial. Chomsky escreveu um livro que Johnson acredita ser uma das grandes obras da filosofia do século XX, que tem o nome de Syntactic Structures. Nesse livro, diz Johnson, existe a ideia de que a mente humana não é uma tabula rasa como acreditavam todos os filósofos do empirismo britânico. Chomsky acredita na existência das ideias inatas como na tradição continental. Ora, para Chomsky a existência das ideias inatas são uma barreira contra qualquer tipo de propaganda organizada em nível estatal. Isso evita uma programação da mente através de sistemas propostos por intelectuais a serviço do Estado. Se a mente fosse uma tabula rasa, esse tipo de programação se tornaria possível e até desejável. Qual é o erro de Chomsky segundo Paul Johnson? Foi simplesmente o de acreditar que as ações do exército americano no século XX promoviam algum tipo de doutrinação, quando na verdade os Estados Unidos ajudaram a destruir governos e ditaduras que faziam exatamente aquilo que Chomsky mais abominava.

O que fica de ensinamento para o leitor a respeito dos intelectuais é que devemos manter distância de qualquer um que ofereça soluções a respeito de todos os males da sociedade. O intelectual típico julga entender sobre qualquer assunto ou qualquer ciência. Quase sempre tem um círculo de admiradores fanáticos que estão dispostos a sacrificar sua inteligência pelas ideias do “guru”. O intelectual tende a ter uma vida pessoal obscura e a ser extremamente intolerante contra qualquer um que ouse contrariá-lo. O conselho de Paul Johnson é simples: fujam dos intelectuais!

Comments

  1. O livro não é meio caricato, Felipe? Lendo a resenha fiquei com essa impressão. Pelo que você descreveu, ele não aborda nenhum intelectual que seja referência para a esquerda, por exemplo.

    • *direita

      • Nem tanto porque ele faz uma análise de intelectuais da área da cultura que ele não identifica com uma ideologia política como Shelley, Ibsen e Tolstói. O livro é muito bom.

      • Entendo, foi uma falsa impressão então. Eu li faz um tempo aquele do Le Goff, “Os intelectuais da idade média”. Ele domina muito bem a filosofia do período e tem discussões ótimas sobre o estabelecimento da universidade. Eu estou querendo faz algum tempo o “história da inteligência brasileira”, mas ainda não comprei. Parece muito bom também.

      • Ele escreve sobre Ernest Hemingway e o critica não por causa de seu esquerdismo, apesar que ele descreve a vida do escritor e deixa claro que Hemingway era de esquerda. Johnson faz muitos elogios ao escritor da mesma forma que ele faz em relação a todos os outros biografados do livro (com a exceção de Bretch). A crítica principal ao escritor norte-americano é devido ao fato dele ser um teórico amante da humanidade e da liberdade ao mesmo tempo em que era um tirano em sua vida privada. Johnson não associa esse comportamento ao esquerdismo de Hemingway. Bertrand Russell não pode ser qualificado de esquerdista já que atirava para todos os lados. Johnson demonstra o grave erro de Russell da defesa de um ataque atômico preventivo contra a União Soviética. Johnson parece querer evitar qualquer tipo de crime ou opressão em nome das ideias.

      • Foi muito bom que você tenha mencionado o livro do Le Goff. Eu tenho ele aqui em casa e o li faz muitos anos. Tenho a lembrança da conclusão quando o Le Goff faz uma comparação entre o intelectual medieval e o renascentista (que em muitos casos se assemelha ao intelectual moderno). Esse último ficava sempre fechado em sua imensa biblioteca e era obcecado pelo silêncio. O primeiro vivia não em um ambiente fechado, mas sim em meio ao barulho e ao pó levantado pela multidão à sua volta.

      • Sim, é bem legal mesmo. Sempre que alguém da filosofia critica um filósofo por se expor, por integrar a opinião pública, digamos, eu fico pensando no quanto criamos esse ideal de intelectual encastelado.

  2. Antonio Henrique says:

    Resenha excelente. Agora vou persistir até comprar o livro.

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