Resenha: História das ideias políticas- Volume I, de Eric Voegelin

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Desde a Queda do homem toda filosofia ou teoria política pode visar apenas atenuar os efeitos da maldade e do egoísmo intrínseco à Humanidade. Essa foi a sábia conclusão a que chegou o pensamento cristão desde a Era Patrística. Toda solução política não é definitiva e está sujeita ao desastre pela própria imperfeição dos homens e mulheres. Mesmo Platão já havia fracassado em sua atividade política, e em seu diálogo A República fica claro que todo o filósofo deve exercer a política e a atividade educativa para ensinar ao povo o Bem contemplado após sua libertação da caverna. Isso implica que ele deverá enfrentar a incompreensão da sociedade e manterá sua alma tranquila para um possível sacrifício da sua própria vida por parte de quem tem o poder. Foi o que aconteceu com Sócrates.

Esse primeiro volume da grandiosa série História das Ideias Políticas escrita por Eric Voegelin faz um estudo sobre o pensamento político da Grécia Helenística, de Roma e do Cristianismo Primitivo.

O começo da obra fala sobre um problema que começou a atingir o mundo grego já no tempo de Platão que foi a dissolução da Hélade. Voegelin nos ensina que Platão havia tentado criar uma sociedade baseada apenas na força da alma. Negando completamente o relativismo dos Sofistas para quem “o homem é a medida de todas as coisas”, Platão oferece a sua visão de que “Deus é a medida de todas as coisas”. O livro não tem um capítulo reservado a Platão e nem a Aristóteles porque Voegelin já havia dedicado a eles um estudo completo em Ordem e História III. Na verdade temos logo no início a opinião dos filósofos Cínicos como Diógenes para quem o problema da Pólis não era relevante porque a “pátria do sábio era o mundo inteiro”. Com isso, diz Voegelin, Diógenes cria sua versão de uma Cosmópolis. Como símbolo do final da Hélade, Voegelin escolhe a filosofia de Epicuro. Esse filósofo não refletiu sobre os grandes problemas da política ou mesmo espirituais. O pensamento de Epicuro foi bastante tranquilizador para uma época de decadência e é até mesmo sedutor para o homem moderno. Os deuses não estão preocupados com o homem e esse último não precisa se preocupar com a morte. Basta buscar prazeres moderados (e não hedonistas) e evitar qualquer pensamento supersticioso. Epicuro visava a salvação do Homem por uma filosofia de conduta baseada em um círculo de amizade, o que era o contrário do que pregava Platão, ensina Voegelin. Platão queria que sua ideia de um cosmion político funcionasse como um meio de diminuir a ansiedade e a tensão da existência; sua comunidade era destinada a elevar a alma do homem a um nível bem-ordenado.

Com o surgimento da Macedônia e o seu personagem principal Alexandre- visto por seu povo como um Salvador e deus-homem à semelhança de Jesus, como percebe Voegelin-, começa uma era de uma civilização interracial. As ideias provincianas do mundo grego a respeito dos bárbaros foram rejeitadas pelo grande líder macedônio. Conforme relatado no livro, atribui-se a ele a frase “deus é o pai comum de todos os homens”. O conceito grego de homonoia (união entre as mentes), que durante muito tempo ficou restrito à comunidade da Pólis, é agora estendido por Alexandre a toda humanidade. Quando ele se apresenta ao sacerdote de Amon no Egito, ele faz uma oração pela homonoia entre gregos e bárbaros. Essa atitude foi completamente desprezada pelo filósofo romano Cícero, para quem a homonoia só seria alcançada pela ação das Legiões de Roma. Com os sucessores de Alexandre, os Ptolomeus, realiza-se uma ideia do mundo helenístico que havia sido defendida por Platão, que é enxergar no Rei ou governante como um nomos empsychos (a lei animada). Todas as dinastias dos soter (salvador) refletem o conceito platônico.

Os estoicos tinham uma noção de que cada homem possuía uma centelha divina, mas Voegelin demonstra que eles preservaram a separação dos Cínicos entre o homem sábio e o povo. Por causa disso, o ideal político dos estoicos foi sempre mal resolvido. Para eles, a homonoia é algo natural entre os homens sábios-e somente entre eles. A homonoia entre os povos não é necessária no pensamento estoico.

Existe um breve capítulo sobre as ideias políticas de Israel.Podemos resumir o pensamento do judaísmo antigo da seguinte maneira: Israel sempre teve uma ideia messiânica. Quando o povo Hebreu sentiu a necessidade da criação de uma monarquia, isso foi feito muito contra a vontade de Deus. Ou era o Senhor que governava ou era o Rei, e a tensão entre esses dois poderes permaneceu constante. Com a expectativa do Messias, visto como um salvador ou vingador terreno do povo judeu, houve uma contradição entre se era Deus quem iria salvar e julgar o mundo ou seria um Rei encarnado na figura de um homem. Como Jesus Cristo recusou-se a fazer o papel de um Messias político  preocupado com uma vitória militar neste mundo, o judaísmo ortodoxo o rejeitou. O caráter imanente da religião judaica foi rejeitado por Jesus Cristo, que estava preocupado com o outro mundo e não com o nosso. É estranho que Eric Voegelin não parece apreciar ou gostar muito da figura de Jesus Cristo. Estudiosos (alguns) da obra dele parecem ter percebido isso.

Para terminar, Voegelin dedica a Santo Agostinho um lugar de destaque no livro. Agostinho foi o grande responsável pela ideia que prevaleceu no mundo medieval de que estávamos caminhando para uma decadência. Voegelin diz que Hegel também tinha essa opinião. Depois de séculos de teses e antíteses para chegar-se à síntese prussiana, o que poderia vir depois só poderia ser o precipício. Na concepção de Agostinho, a Igreja era um corpo misto que envolvia santos e pecadores. A luta era entre a Cidade de Deus (formada por quem tinha a Deus como fim e desprezava esse mundo) e a Cidade dos Homens (formada por quem despreza a Deus e se contenta com esse mundo). Voegelin deixa claro que essas duas cidades jamais foram identificadas com nenhuma instituição humana. Para Agostinho, o povo só pode existir se houver uma concordância sobre o que amar. Agostinho ensina que é Deus quem escolhe os habitantes da Cidade Celeste, de maneira que essa não é uma escolha feita democraticamente pelo povo.

Comments

  1. Olá Felipe! Seu blog é excelente. Parabéns por suas resenhas! Deus abençoe.

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