Resenha: Sociologia, de Gilberto Freyre

LivroSociologia

Sociologia é um livro escrito por Gilberto Freyre que funciona como uma introdução a essa ciência e também ao pensamento do próprio autor. Freyre descreve todo o alcance e as limitações da Sociologia em uma linguagem muito clara e com diversas citações de outros sociólogos brasileiros e estrangeiros que ajudaram a compor o mosaico de seu próprio pensamento. Pelo que lemos no livro, a Sociologia como compreendida pelo autor pernambucano envolve um grande número de outras ciências que ajudam a formá-la, como a Antropologia, a Economia, a Biologia, a História e a própria Filosofia. Grandes temas que já haviam aparecido na obra mais famosa de Freyre Casa Grande e Senzala podem ser vistos em Sociologia, como a grande ênfase na defesa do valor da mistura racial brasileira, da cultura do negro e do indígena. Freyre tenta de todas as formas evitar que a Sociologia que ele propõe fique restrita como uma forma de amparo a doutrinas mais amplas e limitadoras do pensamento como o Marxismo e o Evolucionismo Darwinista. Não que ele desconheça a importância de Marx e Darwin para a Sociologia, que recebeu uma nova dimensão especialmente a partir de Karl Marx; apenas acha que muitos sociólogos estudados e mencionados por ele nesse livro deixaram-se levar a um perigoso determinismo.

Recusando-se a atribuir qualquer sentido de superioridade a uma ou outra raça, Freyre acredita que a eventual fraqueza de um povo é determinada por questões sociais, políticas ou culturais. Ele mesmo afirma que o atual estado da civilização europeia e norte-americana pode ser apenas temporário. A civilização Ocidental conseguiu a superioridade técnica e científica sobre todos os outros povos; no entanto, isso não quer dizer que o Ocidente tenha a melhor solução para a Humanidade em relação a questões sociais e de convivência humana.

O sociólogo pernambucano acredita que no caso do Brasil, limitar o estudo sociológico a um pensamento marxista seria um reducionismo. Muitos dos fatos da história brasileira são mais bem explicados por fatores físicos culturais e pessoais, antes do que pela economia como crê o marxismo. Freyre sugere que um meio mais lógico de explicar as instituições criadas pelo homem no Ocidente foi feito por Max Weber e o seu conceito de tipos ideais, que são partículas de realidade que Weber colheu e que serviram de hipótese para seu trabalho. Dessa maneira ele criou a explicação para o surgimento do capitalismo através de uma mistura de conservadorismo religioso e político do camponês protestante.

Para Freyre, a Sociologia deve demonstrar a influência do sexo, da maneira de vestir e da religião dentro de cada cultura, isso sem cair na sexologia de Freud e nem no economês socialista. O livro nos ensina que cada povo tem costumes que podem ser ou não compreendido pela nação vizinha. O que um valoriza o outro desdenha. Se para um norte-americano o número de automóveis e a valorização que eles promovem da mulher são valores mais altos, isso não parece ser o que é melhor para outros povos, para quem os valores patriarcais ou de coisas simples como a caridade que praticam ou o número de adversários mortos em um duelo são o que há de mais importante. O professor, o filósofo e a mulher são valorizados em países mais avançados, enquanto são desprezados no Brasil, diz Freyre. Existe uma questão que Freyre põe em discussão para os futuros estudantes de Sociologia que é a diferenciação entre estar em uma situação e ser alguma coisa. É importante que ensinemos que o homem e a mulher podem estar em diversas situações, mas isso não significa que possamos defini-los como sendo somente um tipo que defina uma raça. A Sociologia, segundo Freyre, tem um papel fundamental no estudo e na pesquisa de alguns fenômenos de revolta de vários indivíduos que se rebelaram justamente contra o determinismo do conceito de raça e hereditariedade. A nova ciência sociológica pode oferecer explicações junto com a psicologia sobre o surgimento de casos patológicos de grandes líderes, santos, revolucionários entre outros, que surgem exatamente por causa da repulsa que sentem pelo meio à sua volta. A cultura pode ajudar a deformar psicologicamente indivíduos sadios e com isso gerar o ovo de uma Revolução.

Recomendo o livro Sociologia para uma ótima introdução a essa ciência feita pelo nosso maior sociólogo. Acho que é importante que se leia esse livro antes de outras obras de Freyre. Como eu disse, aqui estão refletidas opiniões que ele já havia colocado anteriormente em outros livros, mas em Sociologia ele fornece explicações do seu método de praticar a nova ciência que ele ajudou a consagrar no Brasil.

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