Resenha: A Ditadura Escancarada, de Elio Gaspari

Gaspari volume 2

Considero essa série sobre a ditadura brasileira escrita por Elio Gaspari excelente e uma referência para quem quer estudar esse período fundamental de nossa história. Isso não quer dizer, no entanto, que Gaspari não cometa erros ou que a série não tenha falhas óbvias. O primeiro volume explicava o processo do golpe (e não revolução) de 1964. Esse segundo volume concentra-se nos governos de Costa e Silva e de Médici.

É preciso avisar a quem lê essa resenha que Gapari não se propõe a explicar vários dos aspectos do governo militar como, por exemplo, a condução da economia ou alguma medida mais ou menos importante. A Ditadura Escancarada é um livro que contém uma narrativa interminável sobre guerrilhas, mortes e, principalmente, relatos de torturas. Creio que isso é muito importante para um estudo do período ainda que superficial no todo.

Qualquer tentativa de compreender melhor a luta que era travada entre a Ditadura e os movimentos de Esquerda não é possível a partir do livro de Gaspari. É verdade que o autor reconhece (e os guerrilheiros também) que o movimento terrorista de esquerda que lutava contra o regime não queria de forma alguma substituir a Ditadura por uma democracia. Tratava-se de implantar uma ditadura de esquerda nos moldes de Cuba ou da China. A questão é que o livro não permite saber maiores detalhes de que maneira isso aconteceria. Para defendermos Gaspari, pode-se dizer que nem mesmo os líderes da guerrilha sabiam o que fazer.

Por parte do Governo, toda discussão é travada sobre o limite que a repressão deve atingir. Sabe-se como começar todo um sistema de terror e tortura, mas nunca se sabe quando terminar tudo isso. No princípio a repressão e a tortura eram feitas de forma mais ou menos explícitas de maneira a isentar o Governo de qualquer culpa. Pelo menos era assim até o final do Governo Costa e Silva. A partir de 1970 a tortura torna-se mais generalizada até o momento em que começam a surgir denúncias a partir do exterior do Terror em nível Estatal praticado no Brasil. Para que essa onda de protestos tivesse tido efeito foi necessária a atuação da Igreja, especialmente de Dom Hélder Câmara. Boa parte do livro explica a atuação da Igreja brasileira durante a Ditadura. Se no início do Golpe a Igreja era conservadora e apoiava os militares, a partir de 1968 o clero vai aos poucos se livrando dos mais reacionários entre seus membros. Parte dos padres apoia de maneira clara o movimento de esquerda (Dominicanos), enquanto o escalão mais alto tenta de alguma forma não magoar o ditador. Gaspari cita toda uma série de declarações com linguagem dupla por parte dessa Instituição, que é uma das características mais repulsivas da atuação da Igreja que se repete em todos os tempos e em todas as épocas.

Para quem gosta das histórias sobre os guerrilheiros o livro é muito bom. Fica-se sabendo sobre as atuações dos diversos personagens terroristas e torturadores. A maioria é de pessoas medíocres, mas isso preenche bastante espaço na narrativa. Tanto a esquerda quanto a direita aprenderam seus métodos de Terror a partir do estrangeiro. A esquerda em Cuba e na China; o governo mandava oficiais para os EUA e para a famosa Escola das Américas. Gaspari afirma que o governo dos EUA jamais enviou qualquer agente para ensinar ou comandar pessoalmente as forças de repressão brasileiras. O apoio do governo Nixon era muito mais moral do que prático.

O clímax da narrativa desenvolve-se na chamada guerrilha do Araguaia. Muito bem detalhada pelo autor, ali foram cometidos alguns dos grandes crimes da Ditadura. O livro é ótimo para quem gosta desse clima de ação. Entretanto, acho que Gaspari não quis fazer um livro que explicasse mais profundamente as alterações para o bem e para o mal que o Governo Militar fez no Brasil. Sim, os militares combatiam os chamados terroristas, mas eles chegaram a combater em um nível ideológico mais aprofundado a esquerda em geral? Nada pode nos fazer comparar o regime militar do Brasil com alguns sistemas totalitários como o nazismo e o comunismo, nem mesmo com ditaduras sangrentas como as do Chile e da Argentina. No próprio Chile a ditadura tinha um plano ideológico de “direita”, que Pinochet implementou na economia. No Brasil foi feito o contrário do Chile. A economia tornou-se altamente estatizada a partir de um plano nacional-desenvolvimentista. A economia seguia os moldes da esquerda. Isso é tão verdadeiro que o próprio governo do PT de Lula e Dilma declara ter inspiração no modelo econômico da Ditadura. A repressão foi feita por personagens quase caricaturais. Tínhamos um governo autoritário, mas que passava longe de qualquer definição de totalitário. A ditadura derrotou apenas grupos radicais que hoje mesmo reconhecem que tinham objetivos bem pouco democráticos. Em longo prazo a esquerda venceu porque na cultura e na universidade a ditadura pouco fez para incomodá-los. Os presidentes militares não fizeram qualquer tentativa de impor uma agenda conservadora, até porque não podemos defini-los dessa forma. Fizeram até a lei do divórcio, para desespero da Igreja. Seu nacionalismo econômico é admirado até hoje pela esquerda. Que fique claro que tudo isso é uma reflexão pessoal que está ausente no livro. De qualquer maneira, o livro de Gaspari é fundamental.

 

 

Comments

  1. Roberto says:

    A conclusão da resenha é perfeita. Os militares foram apenas soldados sem estratégia. Os valores foram desconstruídos pelos dois lados, não houve chances para a conservação das tradições. Enfim.

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