Resenha: História das Ideias Políticas- Volumes II e III- Idade Média, de Eric Voegelin

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Sempre gostei muito da história medieval e procurava ler e estudar sobre esse período a partir de alguns autores como Huizinga, Le Goff e Régine Pérnoud. O problema sempre foi que alguns dos aspectos mais importantes sobre a Idade Média, que são a Teologia e a Filosofia, não eram tão enfatizados assim por aqueles autores. Lendo a História das Ideias Políticas Volume II e III de Eric Voegelin, que abordam a Alta Idade Média e a Idade Média Tardia respectivamente, esse período de fundamental importância para a Europa fica muito mais compreensível.

Com a queda do império romano, o Ocidente caiu em um período de “trevas” que só não foi pior porque havia a igreja católica para iluminar o que restava de civilização. O livro de Voegelin pretende explicar a gênese de algumas das ideias políticas que prevaleceriam na Cristandade e até mesmo na política do século XX. Muito do poder que a Igreja viria a possuir pode ser explicado pelo fato de que ela representava o que havia de mais alta cultura e civilização no Ocidente, enquanto que em Bizâncio essa tarefa foi incorporada no império, e não na Igreja do Oriente.

Havia um enorme desejo de se voltar ao passado que era alimentado pela mentalidade da época. Ao invés de olhar para o futuro, desejava-se retornar ao Império Romano. Houve a coroação de Carlos Magno e tentou-se criar esse Império que, no entanto, foi efêmero. A própria Igreja não podia admitir um tipo de Império que fosse superior a ela. Nesse momento surgiu a famosa “doação de Constantino”, que no período medieval garantiu uma enorme autoridade e poder para a igreja romana. Sabe-se já há alguns séculos que esse documento não passa de uma falsificação.

Conforme eu escrevi  acima, muitos dos problemas da sociedade medieval ficam ausentes dos livros mais tradicionais de história porque as importantíssimas reflexões filosófica e teológica são negligenciadas. Vejamos como uma teoria política surgida desde o começo da Alta Idade Média quase nunca é abordado. Os primeiros pensadores “políticos” desse período comparam a organização da sociedade ao “corpo místico de Cristo”, e isso era uma das grandes referências para qualquer governante ou membro da Igreja. O problema a ser enfrentado pela Igreja era a prática disseminada da simonia nos séculos X e XI. Como no corpo místico poderia haver semelhante prática? Conforme relatado por Voegelin, Pedro Damião de alguma maneira ainda acreditava que um ministro corrupto invalidaria a admissão do Sacramento. Por outro lado, o Cardeal Humberto de Silva Candida preservou o Sacramento e a dignidade do Rei. Esse mesmo Rei havia sido incorporado ao Corpo Místico e o reino cristão não pôde transformar-se em um reino do Mal. A simonia representa o reino do diabo, mas a sua superação não foi adiada para um futuro escatológico, mas o combate e a reforma desse reino do mal podem ser feitas aqui e agora. Voegelin diz que com isso está aberta a reforma da Igreja por Gregório VII.

Voegelin nos apresenta um documento da época chamado de Tratados de York. Poucos conhecem esse texto, mas ele é importante porque é como se fosse um documento a favor de uma sociedade laica e protestante já no século XI. Ele enfatiza o reino e o mundo e põe de lado a teologia e o sacerdote. Começa então um pensamento proto-protestante que identifica o Rei com a Igreja. Voegelin afirma que os Tratados de York antecipam o Leviatã de Hobbes por sugerir que a Igreja Romana seria um corpus diaboli que impede o progresso do Estado. Tem início nesses tratados a noção de igrejas-Estado.

Com Joaquim de Fiore tem início o pensamento progressista. Abandonando o pessimismo moderado de Agostinho, Joaquim faz uma divisão da História em três reinos. O Terceiro Reich de Joaquim começaria no ano de 1200 e seria comandado pelo Dux de Babilonia. Segundo Voegelin, o pensamento de Joaquim assemelha-se mais a Hegel, enquanto Spengler é parecido com Agostinho. Voegelin dá a sentença de que as ideias de Joaquim de Fiore foram feitas para destruir a sociedade feudal e a organização da Igreja. Na prática, o terceiro reino é protestante em que cada homem é autônomo e independe dos sacramentos da Igreja. O corpo místico foi destruído.

Com São Francisco surge  pela primeira vez o exemplo de alguém que vive a vida do homem Jesus. Conforme diz o livro, São Francisco ama a Criação divina onde as pessoas tendem menos a enxergá-la, como nos pobres, nos doentes e nos animais. De certa maneira, diz Voegelin, São Francisco, ao dar valor ao Cristo Sofredor e não ao Cristo Sacerdotal, destruiu também o corpo místico que tinha Cristo como cabeça.

No momento em que as obras de Aristóteles passam a se tornar disponíveis ao mundo cristão no século XIII, um grande desafio intelectual está colocado aos intelectuais da época. Eu fiquei muito feliz ao ler a explicação de Voegelin sobre a filosofia islâmica e a origem do pensamento averroísta. Alguns dos grandes problemas da filosofia islâmica foram que o próprio Alcorão não favorecia o livre pensamento metafísico e filosófico. Muitos dos grandes filósofos do mundo islâmico eram ortodoxos só na teoria. No fundo eles trocaram a religião muçulmana por Aristóteles. As obras filosóficas gregas sobre política nunca foram traduzidas para o árabe, como a República de Platão e a Política de Aristóteles. Os filósofos islâmicos fizeram quase todas as suas reflexões a partir da Metafísica e do De anima, ambos de Aristóteles, e também através do pensamento platônico do Liber de Causis de Proclo, que entre os árabes era conhecido como Teologia de Aristóteles. A filosofia no islã foi transformada em uma “seita” que era guiada por um “livro”, geralmente os comentários a Aristóteles. Voegelin afirma que a deificação de Aristóteles feita pelos filósofos islâmicos foi o que assustou o mundo cristão, e não necessariamente suas ideias. Com Averróis, cria-se uma separação total entre o filósofo e o povo; esse último tem que se contentar com a religião.

Siger de Brabante assume as ideias de Averróis e vai defender a existência de uma dupla verdade, que são a do filósofo e a do teólogo. Crenças como a vida após a morte e a existência da alma são matérias da religião, e não do filósofo. Esse vai se tornar um ser à parte, diferenciado do restante do povo.

São Tomás de Aquino vai harmonizar a razão e a fé, e tornar-se-á no grande propagandista intelectual do mundo Cristão. São Tomás, mais do que qualquer outro, assumiu para si o pensamento do Pseudo-Dionísio de que o Bem se propaga e é comunicativo. Fez toda uma obra de propaganda destinada a converter o mundo islâmico, que foi a Suma Contra os Gentios. Pretendia criar o homem espiritualmente maduro. Ele tenta combinar a figura do filósofo com a de Cristo. O primeiro representando o mundo natural; o segundo a ordem sobrenatural. No fundo, São Tomás representa o intelectual militante de uma civilização que quer se expandir. Era a Civilização Gótica da qual fala Spengler. A filosofia de São Tomás é o ápice de uma Civilização que  pretendia abraçar toda a humanidade, porque sua teoria do Corpo Místico não está adaptada para uma sociedade feudal restrita, mas é destinada a nos ensinar que toda a humanidade está inserida nesse Corpo Místico, por isso todos os seres humanos são importantes.

No Volume III que aborda a Idade Média tardia, vemos uma destruição cada vez maior da sociedade medieval. Tem início um gradual confronto entre Igreja e as nações. Cada lado pretendendo ter cada vez mais poder. O caso de Egídio Romano é emblemático. Ele talvez tenha sido o primeiro intelectual da época a colocar-se a serviço de um projeto de poder, no caso da Igreja Romana. Egídio foi a grande inspiração para o papa Bonifácio VIII escrever sua autoritária encíclica Una Sanctam. Voegelin afirma que nesse documento estão lançadas as bases do absolutismo papal. Bonifácio passa a confundir a Igreja com o papa e todo esse movimento vai culminar no dogma do século XIX da infalibilidade papal. É como se os papas gritassem a partir de então: “a Igreja sou eu!” Egídio Romano era um militante do poder temporal da Igreja e com ele começa a tradição do “sacrifício do intelecto” como diz Voegelin. A razão passa a ser serva de um projeto de poder. Os intelectuais de Esquerda e da Direita dos dias de hoje apenas repetem essa tradição.

Dante foi um grande enigma tanto em sua obra poética quanto em suas opiniões políticas. Temos a certeza de que ele era adepto das ideias de Joaquim de Fiore e tinha esperança na aparição do Dux. Sua concepção de igreja também era espiritual. Voegelin classifica Dante como um averroísta político por seu projeto de uma monarquia mundial baseada em um intelecto universal, que é a antítese de governos locais. Quase podemos afirmar que Dante era um proto-fascista. Ele era pessimista e colocava suas esperanças de redenção nesse Dux que surgirá como um deus ex machina para salvar a Humanidade. Dante não foi levado a sério porque a Cristandade sempre desconfiou da figura de um poeta que queria dar opiniões políticas. Segundo Voegelin, somente a Alemanha do Romantismo elevou a figura do poeta a um nível político.

O estudo feito pelo autor sobre Guilherme de Ockham é excelente. Ockham foi Kant de seu tempo e podemos dizer que Kant, que pensava ser muito original, repetiu em grande parte ideias do nominalista inglês. Como afirma Voegelin, Ockham dizia que a essência da natureza é inacessível e que a ciência deveria estar restrita ao seu campo de possibilidades. A ciência não pode alcançar a coisa-em-si. A fé humana é ofertada por Deus, e a partir da fé o homem tem que se submeter ao sacrifício do intelecto. Voegelin parece concordar com isso porque afirma que dogmas como a infalibilidade papal não pode ser aceito pelo homem sem o comprometimento da integridade da mente. O filósofo inglês vai acentuar cada vez mais o poder absoluto de Deus e a tirania da fé. Como o conteúdo da fé e do dogma é inacessível à razão, o poder espiritual deve se separar do poder temporal. Esse último é acessível à razão e deve ser valorizado. O cristianismo vai cada vez mais perdendo seu caráter universal para se tornar um movimento nacional. É a chamada paroquialização do Cristianismo, que tem em Wycliff como seu idealizador na Inglaterra.

Chegamos ao final das duas obras com a conclusão de Voegelin sobre a filosofia de um dos grandes pensadores da História: Nicolau de Cusa. Esse filósofo platônico não era apenas um filósofo que pregou conceitos muito bonitos que nunca foram colocados em prática. Pelo contrário, suas ideias foram responsáveis pela a união (infelizmente) temporária das Igrejas do Ocidente e do Oriente. Para o cardeal alemão, a realidade não é uma afinidade de interesses nem uma grande anarquia, mas sim uma harmonia aproximada em que nenhuma vontade prevalece. Como sintetiza Voegelin, Cusa crê que o Espírito eleva todas as forças opostas ao Pai, porque “o Pai é a fonte da vida, que reconhece no Filho o vaso sanguíneo, por onde o fluxo do Espírito penetra todos os homens”.

Livro obrigatório para todos que querem estudar filosofia política.

Comments

  1. Boa resenha, Felipe. Achei legal ele abordar o Ochkam, acho o medieval mais interessante no cristianismo, pena que ele seja tão pouco estudado aqui no Brasil.

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