O princípio de individuação na tradição platônica e aristotélica

Platão busto

Um dos temas mais fascinantes em filosofia é a questão do princípio de individuação. Nesse artigo, vou abordar como cinco filósofos enfrentaram esse problema e suas respectivas soluções. São eles: Platão, Aristóteles, Proclo, Tomás de Aquino e Duns Scotus.

Pretendo começar por Aristóteles e São Tomás, porque os dois possuem uma opinião parecida e contrária à de Platão, Proclo e Duns Scotus.

Aristóteles rebelou-se contra o conceito platônico de que as Ideias são formas separadas. Ele acreditava que o princípio de individuação era formado por Forma e Matéria, conforme São Tomás explica em seu Comentário à Metafísica. Ele dá o exemplo de uma estátua de bronze. O bronze representa a matéria, a figura “a forma específica” e a estátua é o composto dos dois. Aristóteles certamente ensinava que a Forma é o mais importante, pois a matéria é apenas um Ser em potencial, e o princípio de especificação é a atualidade, diz São Tomás, que acrescenta que o Estagirita definia que a Forma e a Matéria juntas eram uma substância em um grau maior do que apenas a Matéria. Então, um Ser é um composto de Forma e Matéria. Concluindo, Aristóteles afirma que a Forma sozinha não define um Ser e não pode existir separada de um composto com a Matéria.

São Tomás tem uma opinião um pouco diferente de Aristóteles . Vejamos a divergência: Tomás afirmava que apenas a Matéria produz o princípio de individuação. Reproduzo aqui um texto de São Tomás:

De outra maneira, as dimensões devem ser consideradas sem uma determinação certa, meramente na natureza da dimensão, apesar de que elas não podem existir sem algum tipo de determinação. Assim como a natureza da cor não pode existir sem a determinação ao branco ou ao preto. De acordo com esse aspecto, dimensões são classificadas no gênero da quantidade como imperfeitas. Por essas dimensões indeterminadas, a matéria é feita essa matéria identificada, e assim dá individualidade a uma Forma, e também pela Matéria a diversidade numérica das coisas é causada nas mesmas espécies.” (Comentário ao De Trinitate de Boécio).

Em sua obra da juventude De Ente et Essentia, São Tomás já afirmava que a individuação dá-se pela Matéria somente. No capítulo 2 do livro citado, Tomás define a essência de alguma coisa pela Forma e a Matéria. Tomás defende que a individuação pela Matéria evita que se destruam os Universais. Quando falamos em humanidade em geral, diz São Tomás, não mencionamos a Matéria. Quando designamos o Homem, falamos na Forma, mas quando nos referimos a um homem em particular, essa individuação dá-se pela Matéria.

Os outros dois filósofos que vamos estudar neste artigo fizeram o princípio de individuação vir da Forma apenas, excluindo a Matéria. Platão foi quem primeiro disse que o indivíduo é um ser dual, composto de uma alma e um corpo. Todos os seres vivos são apenas cópias imperfeitas que saem de dentro do receptáculo mencionado no Timeu. Esse receptáculo não possui uma Forma definida, mas ele é considerado por Platão como uma mãe de todos os seres do devir. Dessa maneira, o receptáculo faz uma ligação entre o arquétipo e o ser em particular. Tudo gerado a partir dele é apenas uma cópia imperfeita do original, e representa apenas o que é temporário. O particular em Platão é a Forma, e nunca a Matéria. Portanto, vimos que esse receptáculo faz uma ligação entre o estável e o mundo do devir. 1 Do mundo material não podemos ter certeza exata sobre todos os fatos, apenas podemos formular um discurso verossímil.2

Duns Scotus propôs uma célebre teoria sobre a individuação que revela a influência platônica ausente em São Tomás de Aquino. Duns Scotus ( Opus Oxoniense 2 d. 3 p.1 qq.5-6 )afirma que o composto aristotélico não pode ser essa coisa (hacceitas), e nem mesmo a matéria sozinha. O composto não pode ser o mesmo em diversas coisas e a matéria é singular em todas as coisas que são geradas e se corrompem. Scotus rejeita a ideia de que a hacceitas seja a essência divina presente nas coisas. A matéria não pode ser a hacceitas por ser uma natureza, portanto, tudo o que seja natureza não pode representar essa coisa. Scotus propõe sua refutação a respeito da individuação pela matéria seguindo os passos de Platão, e não crê na ideia aristotélica de que o que é gerado diferencia-se daquilo que o gerou pela matéria, mas sim através da Forma, que é inferior, e possui uma unidade diferente daquilo que o gerou.  A hacceitas é uma Forma que diferencia um ser humano de outro.

Vou mencionar por último a pouco conhecida posição do filósofo neoplatônico Proclo a respeito da individuação. Em sua obra Teologia de Platão, esse filósofo, que é considerado o último grande pensador da Antiguidade, seguiu seu mestre e afirmou que a individuação é-nos dada pela Forma. Cito suas palavras:

“Porque os inteligíveis são a causa de toda a série, mas os intelectos são divisões  do gênero comum. Formas Supramundanas são as causas das diferenças específicas das coisas mundanas que chamamos de indivíduos. Porque eles são as causas daquilo que é movido, e são os líderes da mutação de sua descendência.”

Proclo procura em Parmênides uma resposta sobre a origem de todas as coisas a partir do Uno. Parmênides, diz ele, fazia uma distinção entre as coisas de acordo com o Ser e as coisas de acordo com o Uno. O Ser Uno é o gênero Divino, e o Ser que é Uno são os animais inteligentes. A união entre os dois produz a Forma do Uno. Esse Uno é a causa de todas as coisas, desde os homens até as mais simples criações da natureza.  Proclo cita as palavras dos Oráculos Caldeus:

“ Então um ardente furacão varre tudo e obscurece a flor de fogo, saltando ao mesmo tempo em todas as cavidades do mundo.”

Dessa maneira, o poder Divino cria a vida e toda a sua variedade de criaturas. Em suas belas palavras, “a Criação Divina produz todas as coisas, e liga-se a todos os Princípios  da divisão dos rios da vivificação e da produção das Formas.”

Depois de ler e estudar todos esses autores, a solução que prefiro é a da tradição platônica.

 

1 Timeu

2 Ibid

Bibliografia:

Platão. Timeu. Ed Universidade de Coimbra. 1 Ed, 2011

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