Resenha: Curso de Estética- O Sistema das Artes, de G.W.F.Hegel

curso-de-estetica-o-sistema-das-artes-hegel-georg-wilhelm

O curso de Estética oferecido por Hegel na Universidade de Berlim no fim de sua vida transformou-se em referência para quem quer estudar esse tema. Aqui nessa edição da Martins Fontes, o curso está dividido em duas partes: a primeira é o Belo na Arte; a segunda, para a qual estou fazendo essa resenha, tem o título de O Sistema das Artes. Esses dois livros não foram escritos pessoalmente por Hegel, mas foram seus alunos que tomaram nota de suas aulas e depois transformaram em livro. Isso explica o porquê da linguagem ser bem mais acessível do que a dos outros livros desse filósofo.

Hegel possuía um imenso conhecimento de todas as áreas da Filosofia, e seu curso de Estética demonstra o quanto ele estava preparado ao escrever sobre esse tema. Ele faz um estudo sobre a arquitetura, escultura, música, poesia e tragédia nesse segundo volume. Diferentes épocas e culturas são comparadas em algumas dessas artes, mas é inegável que Hegel valoriza os Gregos acima de qualquer outra civilização. Para ele, mesmo os romanos não conseguiram repetir o gênio da Grécia, mesmo após séculos de tentativas de imitá-los.

Na arquitetura, Hegel, da mesma forma que Schopenhauer, acreditava que o modelo da Antiguidade era superior ao Gótico da Idade Média, porém ele achava que a arte medieval era de enorme valor, e certamente era bela e adequada para expressar os ideais da época. Apesar dele achar que a arquitetura ajuda a definir uma Civilização, ela no entanto, não define necessariamente o Homem. Para isso existe a escultura, essa que foi a grande arte da Antiguidade Clássica. Na escultura, o homem grego individualiza o ser humano na arte. A escultura grega possui algo que a arte egípcia nunca permitiu aos seus escultores: a graça do movimento. Esse movimento já representa um espírito mais livre e consciente de si. Hegel percebeu que os gregos fizeram as esculturas representando a figura masculina geralmente nua, enquanto que a figura feminina é mais comum estar vestida. Ele afirma que os gregos queriam assim exibir o espírito penetrando no corpo, e que isso poderia ser adequado para a mentalidade deles, mas que na nossa arte atual essa forma de expressão pode não ser a mais adequada. A nudez, ele ensina, não faz a arte ficar mais espiritualizada. A escultura grega representa o ápice dessa arte, e mesmo a escultura romana não atingiu esse nível. Hegel, assim como outros alemães, considera a pintura como sendo a arte do Cristianismo. Ao contrário de Schopenhauer, ele não crê que temas mitológicos fossem adequados de serem reproduzidos na pintura, pois não atingem a psique do homem moderno. Os grandes temas bíblicos eram melhores, e ele enfatiza a importância e a felicidade especialmente do tema da Virgem com o menino Jesus. Hegel rejeita e refuta qualquer comparação que já era feita em seu tempo entre a simbologia da Virgem Maria com Ísis. A descrição que ele faz da imagem da Virgem e seu Filho é belíssima. A pintura comunica mais a verdade do que a escultura em sua opinião.

Na arte Oriental, Hegel afirma que entre os muçulmanos a escultura e a pintura não existiram, mas que o gênio desse povo foi transportado para a poesia, que ele e Goethe valorizavam muito, apesar de que Hegel ensina que no Islã o homem não alcançou o grau de liberdade e individualização igual ao nosso, nem mesmo quando comparado à poesia da Índia ou China. Isso acontece, ele diz, pois no Islã Allah é tão poderoso e tão livre para agir que o ser humano fica totalmente diminuído e com pouco espaço para ações diante de tamanha Onipotência. O mesmo acontece com o Judaísmo, no qual o espírito torna-se tão lógico e frio que passa a ver a Criação como apenas uma coisa que existe para servir a Deus, e que por isso não merece muito da nossa atenção.

O filósofo alemão estuda também a arte da música, mas não a considera como a arte suprema. Ele tende a reconhecer em Handel o grande compositor alemão, mas também valoriza Bach, que em sua época estava praticamente esquecido. Essa parte, no entanto, não é tão satisfatória assim porque Hegel, com grande sinceridade, afirma que não entende tão bem assim do assunto.

A arte suprema para Hegel é a poesia. Duas figuras são as principais em seu curso: Homero e Dante. Como disse no início do texto, o modelo dos gregos prevalece no curso de Estética. Homero certamente é a figura central, pois criou personagens que falam aos homens de todas as épocas. Mesmo Goethe não pode entrar nessa comparação, e Hegel vê apenas em Dante e sua Divina Comédia como uma obra que defina um tempo e a Ideia do homem que permanecem atemporais. Um dos principais argumentos de o porquê Homero ser o grande poeta da História é que a Ilíada e a Odisseia podem ser cantadas. Essa articulação entre a poesia e a fala é destacada porque na Antiguidade essa união foi importantíssima, pois facilitava a memorização. É bom lembrar que o próprio Corão foi produzido a partir da memorização por causa do seu caráter poético. O grande filósofo Giambattista Vico já havia demonstrado como as Civilizações surgem através dos Poetas-Teólogos, e o grande exemplo são Homero e Hesíodo na Grécia. Para os Antigos, a poesia deveria também ser cantada e o ritmo era mais valorizado.

O livro termina com a análise sobre a Tragédia. Hegel considera Shakespeare o grande exemplo de dramaturgo do Romantismo e nem mesmo os alemães conseguiram fazer algo parecido. Mais uma vez Hegel prega a superioridade grega nessa arte. Sófocles surge com toda sua força e a peça Antígona é considerada por ele como a mais perfeita de todas.

Se, para Plotino, a beleza era o transluzir da Ideia na Matéria, para Hegel a arte representa o Espírito e sua liberdade agindo nesse mundo.

Comments

  1. Republicou isso em Fernando Gaeblere comentado:
    Viva Hegel! Precisamos realizar um revivalismo do Belo, nas Artes, assim que podemos avançar na filosofia estética.

  2. Henrique Trindade says:

    Olá Felipe Pimenta, agradeço a oportunidade de postar em um ambiente que se discute filosofia, são tão poucos!

    E, sobre a estética, como estou aprendendo filosofia aos poucos recomenda que comece por este livro de Hegel ou outro?

    • Oi Henrique! Esses dois livros do Hegel que menciono são obrigatórios. Leia também a Metafísica do Belo, de Schopenhauer. Do Umberto Eco, leia Arte e Beleza na Estética Medieval e também seus dois livros sobre a História da Beleza e da Feiúra.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: