Resenha: O Capital no século XXI, de Thomas Piketty

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O Capital no Século XXI é o mais importante e mais discutido livro sobre economia escrito nas últimas décadas. O economista francês Thomas Piketty fez o possível para demonstrar sua tese sem cair no uso abusivo de termos excessivamente técnicos e utiliza bem pouco a matemática. Tudo isso permite uma leitura muito agradável dessa obra que pretende oferecer algumas soluções para alguns dos problemas mais graves do capitalismo.

Piketty vê um sentido moral na economia, justamente o contrário do que pregam a maioria dos liberais. Se estudarmos com atenção a obra de Max Weber a respeito da ligação entre a mentalidade calvinista e o capitalismo veremos que a economia e o lucro gerados por uma atividade empresarial ou de investimentos produtivos possuíam sempre um sentido moral. O capitalismo imaginado por aqueles protestantes era inimigo implacável da herança da nobreza feudal, de viver de rendas e títulos, e de qualquer atividade improdutiva. O queé importante também lembrar é que o capitalismo, para os calvinistas e outros protestantes, jamais deveria servir para financiar atividades de guerra entre os Estados e nem de instrumento de especulação para a ruína do próximo. O homem tem a obrigação de trabalhar e o lucro e os investimentos devem ter sempre um sentido maior voltado para Deus.

O livro de Piketty não pretende ser uma defesa de um lado keynesiano, marxista ou liberal. O que ele mais defende é a tese de que o capitalismo atual está voltando a uma fase igual a do século XIX, em que havia uma crescente separação entre a renda do trabalho e a do capital. Para ilustrar sua tese, o economista francês cita os romances de Jane Austen e de Honoré de Balzac. Por que ele faz isso várias vezes durante o livro? Ele o faz porque esses dois autores em seus romances falavam sobre as sociedades inglesa e francesa do início do século XIX, na qual fica demonstrado que trabalhar muitas vezes não era a melhor alternativa. Aquelas sociedades burguesas experimentavam o fenômeno da herança, que àquela época atingiu níveis sem precedentes, que nunca seriam mais alcançados no Ocidente, pelo menos até os dias atuais. Por esse motivo, Piketty faz esse paralelo para mostrar que a Europa de hoje voltou a enfrentar esse grave problema em que a herança e a renda do capital superam e muito o valor do trabalho.

Por muito tempo a herança teve pouca importância para a mentalidade do europeu, principalmente até a década de 1970; mas isso não significa que houve alguma mudança significativa no capitalismo daquele tempo. O que aconteceu foi que as guerras destruíram os patrimônios que já existiam tanto fisicamente quanto em termos de valor. Por causa disso, a chamada geração dos baby-boomers dos anos 1950 cresceu com pouca ou nenhuma herança para contar. Já a geração atual, principalmente no caso europeu, nascida nos anos 1970/80, o peso da herança está voltando com uma força jamais vista desde os tempos dos romances de Austen e Balzac. Esse, no entanto, não é o único problema. Piketty também escreve sobre a separação entre a renda do trabalho e a do capital, inclusive fazendo uma proposta aos governos da Europa sobre um futuro imposto sobre esse mesmo capital.

Quais são os exemplos que ele fornece em sua obra? A herdeira de uma famosa fábrica de cosméticos francesa; o de Bill Gates, e o de Steve Jobs. A primeira herdou o comando da empresa e nunca trabalhou, no entanto, sua fortuna cresce sem parar a cada ano. Bill Gates trabalhou, mas claramente sua renda multiplicou-se muito além da produtividade de seu trabalho e, com isso, ele tornou-se o homem mais rico do mundo. Steve Jobs, entretanto, apesar de ter trabalhado muito mais do que Bill Gates e de ser muito mais criativo do que o fundador da Microsoft,  morreu com uma fortuna ínfima quando comparada à de Gates.

Após demonstrar o poder de multiplicação do capital, que se distancia cada vez mais da noção de trabalho duro e do mérito, Piketty propõe uma taxação progressiva de toda renda proveniente do capital, como investimentos, aluguéis, títulos da dívida pública, etc. Ele acredita que taxar a renda é ineficaz, pois essa varia muito pouco para a maioria das pessoas, principalmente aquelas mais ricas, ou seja, as que podem justamente aplicar em investimentos que estão fora do alcance dos mais humildes, por isso elas acabam por ser pouco afetadas pelo imposto de renda assim, elas precisam ter o seu capital taxado. Esse seria um dos principais problemas do Brasil em termos de justiça fiscal, pois a população pobre e a classe média baixa pagam impostos brutais, mas não possuem capital como os mais ricos para investir. Acontece que as grandes fortunas de nosso país pagam pouquíssimo imposto sobre o capital, isso quando não colocam seu patrimônio em paraísos fiscais ou em nome de terceiros.

Piketty afirma que um controle da renda extraordinária do capital só seria possível com uma cooperação em nível mundial. Não adianta um país isolado tentar criar um imposto para o seu país quando um grande investidor pode antecipar-se a isso e transferir seu patrimônio para o país vizinho. Ele insiste nesse ponto porque o mundo corre o risco de no futuro ficar refém de magnatas do petróleo árabes ou russos, além de grupos obscuros que façam seus investimentos produzirem um lucro enorme sobre os quais nenhum governo tenha controle. Por isso, ele afirma, a China possui uma política agressiva de acúmulo de reservas internacionais para evitar ficar sob o controle futuro de algum mega-especulador. Enquanto o país asiático não se sentir confortável o bastante para afastar esse risco, o banco central daquele país vai continuar com essa política.

O livro enfatiza a importância da demografia para o futuro econômico das nações. Por enquanto, diz Piketty, os Estados Unidos possuem a vantagem demográfica e não sofrem ainda com uma estagnação econômica e nem com o problema da volta da herança na mentalidade das famílias. Esse é um grande problema para a Europa nesse momento. Mas nem tudo são flores para os americanos: Piketty demonstra que a visão igualitária que os americanos possuíam no tempo de Tocqueville foi-se embora graças à ideologia neoliberal. Desde o governo Reagan e seu grupo neoconservador, os salários dos executivos americanos dispararam a um nível astronômico, e fica claro que isso não tem nada a ver com trabalho duro ou criatividade, mas, antes de tudo, isso se deve ao fato do governo dos EUA ter baixado muito a taxação sobre o capital desde os anos 1980. Para se ter uma ideia, no governo Roosevelt, os EUA chegavam a taxar esse lucro do capital em até 90%.

Outro assunto mencionado no livro é a crise econômica que o mundo vive desde 2007/2008. Piketty diz que os governos europeus possuem três alternativas para sair desse problema: taxar o lucro do capital e assim financiar outras partes da economia; produzir inflação, pois isso gera consumo e obriga aqueles que mantêm seu dinheiro ocioso e improdutivo a gastarem; por último, e essa foi a decisão lamentável do atual governo brasileiro, é produzir um “ajuste fiscal”, ou “praticar uma política de austeridade”. A última alternativa é puro suicídio para qualquer governo, até porque se ele não agir, no fim estaremos todos mortos, como dizia Keynes.

A primeira solução é a melhor, afirma Piketty, pois equilibra as finanças do país e ajuda a controlar um dinheiro ganho por especulação e que não é fruto do trabalho. Futuramente, um acúmulo desse capital nas mãos de poucos é uma das grandes ameaças à soberania dos países.

O livro é bem fácil de entender e a tese proposta por Piketty é excelente, até porque restaura um sentido moral à atividade econômica mundial, hoje esquecida em nome do lucro a qualquer preço. Recomendo a leitura e o estudo dessa obra que já virou uma referência na área da Economia.

Comments

  1. Joabe do Nascimento Oliveira says:

    Comprei o livro, mas desistir da leitura muito cedo, contudo, após a leitura de sua resenha me animei para retomar a leitura.

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