Resenha: Joseph Goebbels-uma biografia, de Peter Longerich

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Confesso que esperava muito mais dessa biografia de Joseph Goebbels escrita por Peter Longerich; não que o livro seja mal escrito, mas sim porque ele oferece pouquíssimas revelações sobre um dos nazistas mais sinistros fora Hitler. Já era de se esperar que o livro fosse baseado em grande parte nos famosos diários escritos por Goebbels durante mais de 20 anos, mas basicamente o livro prende-se a essas informações. O autor tenta em vários momentos, especialmente no início do livro, fazer uma abordagem psicanalítica canhestra, e, fora isso, nada oferece de algum fato novo, ou de alguma interpretação original a respeito do biografado. Tudo isso compromete- e muito- a expectativa que temos ao ler esse livro.

O que tenho a dizer sobre alguns dos problemas do livro vou tentar reproduzir nas próximas linhas. Claro que o livro começa com a infância do personagem a ser biografado, mas até aí nenhuma novidade. Goebbels teve uma infância normal; gostava e admirou sua mãe até o fim da vida, porém em relação ao seu pai ele não tinha o mesmo sentimento. Como outros nazistas, Goebbels foi um artista fracassado, pelo menos esse era o sentimento íntimo dele, pois em termos financeiros seu livro mais famoso Michael foi incrivelmente recompensador.

Agora o primeiro problema: os motivos que levaram Goebbels a se filiar ao partido nazista são mal explicados, da mesma forma que o seu antissemitismo. Quando lemos as biografias de Hitler, existe uma explicação e uma linha relativamente clara do ódio crescente de Hitler contra os judeus. É óbvio que falarmos a respeito de “motivos” para um sentimento abominável e irracional não deve ser levado ao pé da letra, mas quem vai escrever um livro sobre alguém que ficou marcado por uma vida trágica e que fez propaganda incessante para desumanizar os judeus, então alguma coisa relevante a respeito disso deve ser dita. Infelizmente não é o caso desse livro.

Como Joachim Fest já havia abordado em seu livro sobre Hitler, Goebbels também via o regime, a guerra e a propaganda como algo estético. Peter Longerich não tenta fazer uma abordagem sobre o porquê Goebbels ter esse sentimento estético, pois pelo menos Fest atribuiu esse sentimento a Hitler por causa do desprezo do povo alemão à política e a um mergulho, que já vinha desde o Romantismo, na mitologia e ao passado imaginário germânico. No livro de John Lukacs “O Hitler da História”, em determinado momento existe uma comparação entre a Alemanha e a Grã-Bretanha. A primeira era defensora e propagava a“cultura”; a segunda era defensora e espalhava a “civilização”. Esses fatos lançam algumas luzes sobre o fenômeno do nazismo.

Todos sabemos da adoração que Goebbels nutria por Hitler, mas alguma explicação convincente desse fato não é dada no livro. Em vários momentos o personagem principal fica ofuscado pelas narrativas da política interna do nazismo, e quem não leu nada a respeito de Hitler ou da história da época vai ficar perdido. Pelo menos a mentalidade de usar a imprensa como uma máquina de propaganda e difamação por parte de Goebbels é abordada, e esse fato foi o que o fez famoso. Creio que essa parte sinistra da mentalidade dele tem muito a ver com o mundo atual, no qual a imprensa é constantemente utilizada como máquina de assassinato de reputações de alguns personagens escolhidos a dedo. A tática de Goebbels repetida por seus alunos atuais é a de propagar mentiras e calúnias até que se tornem verdades entre a população. Nada mais atual que isso, ainda mais em época de internet.

É verdade que Goebbels era sinistro, mas em grau bem menor do que Himmler e Rosenberg. Ele não possuía o caráter neopagão desses dois personagens, e em determinado momento do livro, Peter Longerich detalha um lampejo de sentimento humanitário de Goebbels ao visitar e tomar conhecimento das condições dos prisioneiros de guerra do front oriental. Naquele breve momento, o mero instrumento do triunfo da vontade reconheceu-se humano….

É bem conhecido o fim trágico de Goebbels e sua família, no entanto, esse fato é narrado com incrível brevidade e o leitor não tem nenhum vislumbre do que poderia ter se passado na mente diabólica de Goebbels, e muito menos de sua mulher Magda, que também se manteve fiel até o fim a Hitler. Conforme já havia dito, o livro é muito superficial mas tem uma boa narrativa,e em nenhum momento é cansativo. O próprio diabólico fascínio do personagem sustenta o livro.

Comments

  1. Até que enfim tu voltaste a escrever, rapaz. Pare mais não.

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