Resenha: Número Zero, de Umberto Eco

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O novo romance de Umberto Eco denuncia o fenômeno mundial do mau uso do jornalismo, no entanto parece ter sido escrito tendo como exemplo o jornalismo brasileiro. Da mesma forma que alguns outros livros do autor, o Número Zero descreve uma pequena conspiração- apesar de que Eco sempre tenta minimizar ou ridicularizar teses conspiracionistas- de alguns jornalistas que lançam um novo jornal, na Itália no ano de 1992, que tem o nome que dá título ao livro.

Eco é muito bom no uso da ironia em vários momentos, pois os personagens são caricaturas dos jornalistas atuais. Ele atualmente reflete sobre como a internet deu voz aos idiotas que tempos atrás não teriam como se expressar. O Número Zero seria uma pré-história dessa manifestação do que há de pior em termos de notícia e opinião. O que os editores desse jornal desejam fazer é manipular os leitores simplesmente lançando teorias as mais absurdas mas com ar de verossimilhança. Para isso não vacilam em usar chavões e frases feitas que tornam mais fácil a assimilação dessas falsidades por parte do leitor. [Read more…]

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Um trecho do debate entre Frederick Copleston e A.J.Ayer sobre o Positivismo Lógico

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O debate entre o padre e filósofo jesuíta Frederick Copleston e Bertrand Russell é bastante conhecido. O que poucos sabem, no entanto, é que a rádio BBC também promoveu, em 1949, um debate entre Copleston e A. J. Ayer sobre o Positivismo Lógico. Copleston considerou esse debate muito mais desafiador do que o anterior, contra Russell. Fiz uma tradução parcial do debate a partir do livro “A Modern Introduction to Philosophy” (Editora The Free Press, New York). O debate não possui áudio remanescente.

Explicação Metafísica e Científica

Ayer:

Eu não vejo como você pode saber a priori que o comportamento humano é inexplicável. O máximo que você pode dizer é que nosso atual estoque de hipóteses psicológicas não é adequado para explicar certas características humanas; e você pode estar muito bem certo. Mas o que mais necessitamos é de melhores investigações psicológicas. Nós precisamos formar novas teorias e testá-las através de observações posteriores, o que é novamente o método da ciência. Parece-me que tudo o que você disse quando mencionou os limites da ciência, é que uma ciência dada pode não explicar certas coisas, ou explicá-las de uma forma que você gostaria que fossem explicadas; mas isso, que me parece perfeitamente aceitável, é apenas uma sentença histórica sobre um ponto que a ciência alcançou em algum estágio. Isso não mostra que exista espaço para uma disciplina muito diferente, e você não foi claro para mim sobre qual disciplina diferente, que você reserva ao Filósofo, supostamente deva ser.

Copleston:

Bem, eu penso que uma das possíveis funções do Filósofo é considerar que o que algumas vezes é chamado de não-empírico ou eu-inteligível. Existe uma objeção óbvia, do seu ponto de vista, contra a frase “eu não-empírico;” mas eu gostaria de voltar para a metafísica em geral. Os cientistas podem descrever vários aspectos particulares das coisas, e todas as ciências juntas podem dar, é verdade, uma descrição geral da realidade. Porém o cientista, precisamente como cientista, não levanta, por exemplo, a questão de o porquê as coisas estão colocadas como tal. Levantar essa questão é, em minha opinião, uma das funções do Filósofo. Você pode dizer que essa questão não pode ser respondida. Eu penso que pode, mas, mesmo que não pudesse ser, eu considero que essa é uma das funções do Filósofo, que é a de demonstrar que existe tal problema. Alguns Filósofos diriam que a metafísica consiste em levantar problemas antes de respondê-las definitivamente, porém, apesar de que eu mesmo não concordo com essa absoluta posição agnóstica, eu penso que existe valor em levantar problemas metafísicos, bem distante da questão de se alguém pode ou não respondê-las definitivamente. Isso é o porquê de eu ter dito anteriormente que uma das funções do Filósofo é de abrir a mente para o Transcendente, o tirar o teto da sala- para usar uma metáfora crua. [Read more…]

Resenha: Salazar-A biografia definitiva, de Filipe Ribeiro de Meneses

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A imensa obra a respeito de Antônio Salazar escrita por Filipe Ribeiro de Meneses lançada no Brasil com o título bombástico de Salazar: a biografia definitiva, busca compreender os acontecimentos que marcaram Portugal durante a longa ditadura do Estado Novo. Pouco conhecido no Brasil, mas facilmente identificado com o título de “fascista”, Salazar foi um fenômeno bem mais complexo do que velhos clichês. O autor em nenhum momento reduz Salazar ao Fascismo- até porque ele não era um fascista e o Estado português jamais chegou ao nível autoritário nem mesmo da Espanha de Franco, muito menos da Alemanha nazista. Caso único entre os ditadores do século XX, Salazar se destacou pelos méritos acadêmicos desde cedo e até o fim da vida orgulhava-se de seu diploma pela universidade de Coimbra. Mesmo durante seu longo período no poder, comportou-se como se ainda fosse um professor, e foi sempre avesso às aparições públicas e aos grandes discursos. Para se ter uma ideia, diz Filipe Meneses, Salazar nunca viajou para fora de Portugal, com a exceção de breves viagens de carro até a Espanha. [Read more…]

A Dialética em busca da Verdade

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“Então Hegel pode justificadamente dizer que este mundo é “pervertido” (verkehrt) em si mesmo, a perversão de si mesmo, porque não é meramente o oposto. O verdadeiro mundo, ao contrário, é ao mesmo tempo a verdade projetada como um ideal e sua própria perversão. Agora se temos em mente também que um dos principais objetivos da sátira é expor a hipocrisia moral, a inverdade do mundo como ele é supostamente para ser, a verdadeira mordacidade do verkehrt torna- se aparente. A perversão da verdadeira realidade torna-se visível atrás da sua frente falsa desde que em todas as instâncias satíricas o retrato é “o oposto em si mesmo”, seja se isso tome a forma de um exagero, a inocência em contraste com a hipocrisia, ou seja o que for.


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