Resenha: Salazar-A biografia definitiva, de Filipe Ribeiro de Meneses

salazar1

A imensa obra a respeito de Antônio Salazar escrita por Filipe Ribeiro de Meneses lançada no Brasil com o título bombástico de Salazar: a biografia definitiva, busca compreender os acontecimentos que marcaram Portugal durante a longa ditadura do Estado Novo. Pouco conhecido no Brasil, mas facilmente identificado com o título de “fascista”, Salazar foi um fenômeno bem mais complexo do que velhos clichês. O autor em nenhum momento reduz Salazar ao Fascismo- até porque ele não era um fascista e o Estado português jamais chegou ao nível autoritário nem mesmo da Espanha de Franco, muito menos da Alemanha nazista. Caso único entre os ditadores do século XX, Salazar se destacou pelos méritos acadêmicos desde cedo e até o fim da vida orgulhava-se de seu diploma pela universidade de Coimbra. Mesmo durante seu longo período no poder, comportou-se como se ainda fosse um professor, e foi sempre avesso às aparições públicas e aos grandes discursos. Para se ter uma ideia, diz Filipe Meneses, Salazar nunca viajou para fora de Portugal, com a exceção de breves viagens de carro até a Espanha.

Não pretendo dar minha opinião sobre as partes do livro que falam sobre a política interna portuguesa, a qual eu conheço muito pouco; o livro, no entanto, em sua maior parte é dedicado à política externa do governo de Salazar. Antes porém o autor explica muito das ações futuras de Salazar pelo fato de que ele se inspirou na doutrina católica de Leão XIII, em alguma coisa de Charles Maurras, mas que, principalmente, via a si próprio como um agente da providência divina destinado a fazer de Portugal um bastião do combate ao comunismo e da defesa da política colonial, vista como uma presença da civilização cristã no mundo.

O livro deixa claros os méritos de Salazar como mestre das finanças e da organização que ele promoveu no Estado português, mas nenhum ato revolucionário ou de progresso foi promovido por ele durante seu governo. Apesar de ser um intelectual, pouco fez pela educação, que como sempre ficou destinada aos ricos, sendo oferecida aos pobres apenas noções rudimentares de escrita, leitura e matemática. Salazar era um anticapitalista e via com horror uma sociedade industrializada que buscasse apenas o lucro. Outra coisa que lhe causava aversão era a permanente mobilização das massas, seja pelos governos fascistas de direita, como pelos comunistas. Buscava antes inspiração na doutrina da Igreja e sua defesa do espiritual ante o político.

Existem três momentos importantes que destaco na biografia: a Segunda Guerra, o processo de descolonização e a decepção com a Igreja no fim da vida.

Salazar era admirador confesso -mesmo que com uma prudente distância-de Benito Mussolini, e antes da guerra estava bem próximo ideologicamente a alguns aspectos do Fascismo italiano. Em relação à Alemanha de Hitler havia pouco em comum, e Salazar pressentiu que uma vitória alemã provavelmente resultaria na destruição de Portugal. Salazar e Getúlio Vargas possuem semelhanças como essa dubiedade em relação ao Fascismo/Nazismo, e por terem adiado ao máximo a escolha de um lado durante a Segunda Guerra. Salazar no fundo nunca escolheu um lado, ao contrário de Vargas, que declarou guerra à Alemanha, o que acabou por beneficiar o Brasil moralmente e materialmente. A preocupação aparente de Salazar era de não trazer a guerra para a península Ibérica, ao mesmo tempo em que não queria provocar Franco. Tentou levar vantagem em um acordo com a Alemanha a respeito de minérios, mas a pressão da Grã-Bretanha, que invocou a longa aliança com Portugal datada do século XIV, falou mais alto. Houve uma longa discussão sobre a utilização dos Açores como base para os aliados, muito porquanto Salazar não queria de forma alguma cedê-la aos americanos (pessoalmente era bastante antiamericano). No fim acabou por ceder, a guerra terminou e Portugal saiu ileso do conflito, apesar de que pagaria o preço da neutralidade através do veto da URSS contra a participação de países neutros nas novas organizações que estavam surgindo.

A política colonial levada adiante por Salazar foi um tanto temerária, especialmente por Portugal ter enfrentado de frente os Estados Unidos várias vezes. Salazar acreditava que os “brancos” tinham uma missão “civilizatória” em relação à África negra, além disso, julgava que, devolvendo os territórios à população local, logo Angola e Moçambique retornariam à barbárie, e por isso não abria mão de seus territórios. Enfrentou a pior fase de sua ditadura quando Kennedy ascendeu à presidência americana. Os EUA foram o principal adversário da política colonial de Salazar, e Kennedy agiu pessoalmente para destruir as possessões portuguesas na Índia e na África. Outro adversário de Portugal nesse tema foi o Brasil e seu presidente Jânio Quadros, e isso enfureceu pessoalmente Salazar, que via no Brasil um possível aliado, mas Jânio revelar-se-ia admirador de Che Guevara…

Talvez a maior decepção de Salazar tenha sido com a Igreja, pelo menos para quem no início pretendia ajudar na recristianização de Portugal deve ter sido bem difícil. É bem verdade que a Igreja pouco ou nada fez para evangelizar o povo; aparentemente alguns bispos até boicotaram Salazar em nome da “democracia”. O curioso é a ação de Paulo VI-esse sim uma figura sinistra e nem um pouco cristão-para boicotar Portugal e suas colônias. O livro relata a queda de Goa, uma das mais antigas colônias portuguesas, localizada na Índia, pelo qual Salazar muito sofreu, pois achava que pelo menos as tropas portuguesas lutariam para defender seu território. O pior, ao menos na visão dele, foi que nenhum país demonstrou solidariedade, muito menos o Vaticano, já que ali esteve São Francisco Xavier evangelizando no século XVI. Para o desespero de Salazar, três anos depois o papa Paulo VI visitou a Índia, o que já era um ultraje para Salazar, e nem mesmo mencionou Portugal e a invasão de sua colônia. O mais trágico estava por vir. Em 1965, Paulo VI visitou a ONU e disse que aquela organização, pelo qual Salazar tinha completo horror, era uma espécie de realização de ideais “cristãos”. Fica evidente que desde Paulo VI parte do clero trabalha contra o Ocidente, da mesma forma que hoje muitos dentro do Vaticano incentivam a  imigração em massa de muçulmanos para a Europa. Basta ler os noticiários…

Salazar terminou a vida sem dinheiro nem bens. Foi um ditador que alternou algum progresso material, porém não educacional, com um conservadorismo que não tinha como dar certo, até porque a Igreja que ele tanto defendia parecia já estar bem progressista e terminou por sabotá-lo. Não promoveu perseguições nem banho de sangue, mas confundiu o Estado com a própria pessoa, o que não podia ser algo duradouro. Enfim, o livro termina sem nenhum julgamento moral. Salazar pessoalmente foi um homem honrado, mas os resultados de seu governo são dúbios.

Comments

  1. O Grande erro de António Salazar foi de näo proporcionar educaçäo Para o seu povo pesembora escolarizado que era. Ele era um Grande diplomata no sentido substantial, conseguiu manter suas colónias mesmo sem recursos financeiros. A idea de k Salazar pretendia civilizar os Africanos é muito romantica, na verdade pretendia colonizalos e uzalos Como mäo-de-obra barata, as ditas mais-valia absoluta. Salazar foi facista sim, nas suas acçöes…
    As suas acçöes deixaram marcas ainda hoje visíveis quer em Moçambique, Angola, Guine-Bissau e Portugal…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: