Resenha: Número Zero, de Umberto Eco

imagem número zero

O novo romance de Umberto Eco denuncia o fenômeno mundial do mau uso do jornalismo, no entanto parece ter sido escrito tendo como exemplo o jornalismo brasileiro. Da mesma forma que alguns outros livros do autor, o Número Zero descreve uma pequena conspiração- apesar de que Eco sempre tenta minimizar ou ridicularizar teses conspiracionistas- de alguns jornalistas que lançam um novo jornal, na Itália no ano de 1992, que tem o nome que dá título ao livro.

Eco é muito bom no uso da ironia em vários momentos, pois os personagens são caricaturas dos jornalistas atuais. Ele atualmente reflete sobre como a internet deu voz aos idiotas que tempos atrás não teriam como se expressar. O Número Zero seria uma pré-história dessa manifestação do que há de pior em termos de notícia e opinião. O que os editores desse jornal desejam fazer é manipular os leitores simplesmente lançando teorias as mais absurdas mas com ar de verossimilhança. Para isso não vacilam em usar chavões e frases feitas que tornam mais fácil a assimilação dessas falsidades por parte do leitor.

A imprensa de fato sempre foi assim desde o início. Quando lemos a experiência que Tocqueville teve nos Estados Unidos do início do século XIX já fica claro que a imprensa de lá era bem sensacionalista e que o verdadeiro debate político não poderia ser feito a partir dela. A verdadeira ciência política deve ser feita a partir dos livros, e isso os norte-americanos daquele tempo já sabiam. Acontece que aqui no Brasil esta verdade nunca foi assimilada. O debate político brasileiro é movido a partir de manchetes escandalosas e denúncias vazias, por isso jornalistas como aqueles do Número Zero proliferam por aqui.

No jornalismo do romance e no jornalismo da vida real no Brasil tudo é opinionismo e balões de ensaio. Lembro que quando li a biografia de Karl Marx escrita por Francis Wheen havia uma passagem que mencionava a época em que Marx escrevia colunas para um jornal americano.Em determinado momento aconteceu uma revolta na Índia Britânica e Marx precisava escrever alguma coisa sobre esse acontecimento. O problema é que ele não fazia a menor ideia sobre o que escrever. Então ele disse a Engels que iria dar uma opinião sem qualquer base fundamentada, mas iria usar também um pouco de dialética, pois se algo desse errado teria uma maneira de se safar.

É exatamente isso que ocorre no jornalismo atual. Lançam-se notícias sem qualquer fundamentação sempre citando fontes anônimas e obscuras, porém sempre deixando em aberto um modo do jornalista escapar caso a notícia provar-se falsa. Muito comum também no jornalismo brasileiro são as teorias de conspiração. Eco faz uma paródia sobre elas em seu romance quando o editor do jornal levanta a tese de que Mussolini teria sobrevivido e escapado para a Argentina. Claro que tudo isso é uma ironia com a tese idêntica sobre Hitler que até hoje sobrevive no imaginário popular.

O que é impressionante é o fato de como o jornalismo atual brasileiro conseguiu estabelecer na mentalidade do povo que determinado partido é uma grande conspiração comunista diabólica. Para enganar ainda mais ao leitor, sempre existe aquele personagem mais demoníaco que faz acreditar que o próprio jornal que cria a tese da conspiração comunista é também um jornal dominado por comunistas! Dessa maneira fica tudo muito fácil, pois se a notícia confirmar a corrupção do político ou suposto agente da conspiração comunista a tese fica confirmada; se for desmentida isso também confirma que as instituições e o próprio jornal conspiraram para ocultar os atos da organização comunista maligna.

Se hoje a internet assusta pela massa de opiniões as mais abomináveis possíveis, tudo isso teve como antecessor o jornalismo criminoso tal como o exemplo do Número Zero. Esse fenômeno dos comentários e notícias criminosas tende a ficar cada vez pior. É pura ilusão achar que as pessoas vão utilizar a internet para buscar uma ciência verdadeira, ou que irão buscar livros especializados para um melhor entendimento da política ou de qualquer área. Depois que o jornal ou o site lança a notícia podemos ter certeza de que ela vai ser absorvida e propagada por muitos leitores- não importa o quão absurda ela seja. Serão tempos sombrios.

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