Resenha: Getúlio, 1882-1930, de Lira Neto

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Lira Neto é um dos melhores escritores de biografias atualmente. Seu livro sobre o padre Cícero, já resenhado por mim, é muito bom e foi bastante elogiado. Agora, com o lançamento da trilogia sobre a vida do político mais importante da história do Brasil, Getúlio Vargas, a tarefa tornou-se muito mais complicada, pois se trata de um personagem polêmico e que ainda hoje é muito citado por políticos do de nosso tempo, pois Lula o defende, e Fernando Henrique Cardoso, quando entrou para a presidência, prometeu acabar com aquilo que ele considerava a “pesada” herança do getulismo.

Nascido em um Estado marcado por revoluções sangrentas, a infância e a juventude de Getúlio Vargas nada possuem de grande destaque. Formou-se advogado e cresceu politicamente em pouco tempo. Fisicamente era pouco impressionante, mas possuía uma boa oratória. Lira Neto detalha um caso de suicídio testemunhado por Vargas ainda na juventude que pode ter sido marcante em sua vida futura. Esses detalhes são bem interpretados pelo autor.

É preciso levar em consideração que o fato principal narrado já no final do primeiro volume é a Revolução de 1930, que traria consequências importantíssimas para o Brasil. Lira Neto foi feliz em demonstrar algumas peculiaridades do pensamento de Getúlio Vargas. Primeiro ele viria a se mostrar um adepto do Positivismo de Augusto Comte, e isso incluía um anti-clericalismo feroz e uma repulsa à noção de um Estado perdulário. Pouco depois, Getúlio viria a admirar o Fascismo italiano, principalmente seu líder, Benito Mussolini. Pelo que li nesse primeiro volume, a versão fascista de Vargas iria se tornar a dominante. Quando governador do Estado do Rio Grande do Sul, Vargas transformou o governo em indutor do crescimento. Apoiou a agricultura e foi um financiador da Varig. Era o futuro desenvolvimentismo de Vargas em sua versão regional.

De fato, desde a proclamação da República o Brasil teve que conviver com o domínio das oligarquias regionais. Politicamente e economicamente o país havia avançado pouco desde o Império. Começou, aliás, muito mal com as trapalhadas de Rui Barbosa e o episódio do Encilhamento. Passou a suportar a alternância de poder entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais, na política que ficou conhecida como café-com-leite. Durante esses 40 anos que separavam a queda da monarquia da crise da bolsa de Nova York de 1929, o Brasil engatinhou em termos econômicos e continuava a ser um país basicamente agrário. Enquanto a Argentina nesse período tornou-se uma das 10 grandes economias do planeta, nossos barões do café viviam de pedir ao governo para controlar o preço do café, pois era a única exportação expressiva que possuíamos.

À época, as eleições serviam para confirmar aquilo que todos já sabiam, ou seja, que depois de um presidente paulista, um mineiro assumiria o poder. O problema é que Washington Luís tentou quebrar esse antigo acordo e passou a apoiar a candidatura do paulista Júlio Prestes, só que ele não contava com o senso de oportunidade e político de Getúlio Vargas, que daria início a um processo de cooptação de Minas e outros Estados insatisfeitos com o Catete. Lira Neto demonstra que Vargas foi bastante astuto em conseguir derrubar a campanha feroz que a imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo contra sua candidatura, e ele realizou essa façanha ao aliar-se ao grande barão da mídia Assis Chateaubriand, o Chatô. Ter um propagandista em seu favor, claro que à custa de muito dinheiro, em nível nacional foi um lance de mestre.

O livro termina na Revolução de 30. É impossível imaginar o que seria do Brasil sem essa Revolução. A industrialização, a ditadura de Vargas, os direitos trabalhistas, etc., encontram-se no futuro. Àquele tempo Vargas ainda estava protegido por um ar de mistério e novidade. Deixava escapar por vez ou outra suas tendências fascistas e intervencionistas, mas é como Platão descreve o tirano em sua República: no início ele é todo abraços e apertos de mãos, e nega que seja um tirano… Essa é a sina de toda democracia, e mais ainda a nossa, que era apenas para inglês ver.Os dois próximos volumes irão tornar os vícios e as virtudes de Getúlio Vargas mais visíveis ao leitor.

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