Resenha: Os Cátaros, de René Nelli

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A história do nascimento do movimento cátaro na Europa Ocidental é bem difícil de ser traçada, porém o autor René Nelli -admirador confesso dos cátaros- conseguiu descrever o movimento herético de maneira bastante satisfatória na maioria das vezes. Digo isso porque Nelli não consegue explicar as origens do catarismo da maneira que alguém interessado em um estudo mais profundo da seita esperaria; nem foi muito convincente em descrever o movimento como uma variação do Cristianismo.

Fica muito complicado entender os cátaros sem um conhecimento maior do gnosticismo e do dualismo, tanto dentro do Judaísmo e do Cristianismo quanto do Maniqueísmo de origem Iraniana. Por isso é extremamente recomendável ler a obra de Hans Jonas The Gnostic Religion antes. Como René Nelli é admirador da seita, tornou-se talvez uma obrigação para ele situar o catarismo dentro da história da reforma cristã, ou uma heresia como o nestorianismo ou o arianismo. Só que quem leu Hans Jonas sabe que a origem da heresia cátara está muito mais relacionada com o dualismo oriental, dada a radicalidade das crenças dos cátaros.

René Nelli segue o tradicional esquema para traçar a origem no ocidente desse dualismo inédito em sua história. A seita seria uma variação dos bogomilos da Bulgária, que por sua vez ter-se-ia originado a partir dos paulicianos do início da Idade Média. A primeira aparição desse dualismo na Europa católica foi na heresia de Orleans, em 1022. Como isso aconteceu ninguém sabe. Claro que isso é histórico, a questão é justificar as crenças dos cátaros como uma variação do catolicismo medieval.

Os cátaros possuíam crenças que os diferenciavam de forma tão marcante do catolicismo que pouco resta de “cristianismo” dentro da seita. René Nelli afirma algo muito interessante, que é o caráter revolucionário em termos sociais do movimento cátaro. Estariam, portanto inclusos na tradição das revoluções europeias como antepassadas da Revolução Francesa e dos comunistas do século XX. O porquê disso o autor explica: os cátaros viam a sociedade feudal estabelecida, com suas ridículas hierarquias e pouca mobilidade social como uma ordem estabelecida por Satã; recusavam a proibição da Igreja de cobrar juros, pois acreditavam na expansão comercial, abominavam os juramentos feudais e as hierarquias vassaláticas; como acreditavam na reencarnação, não podiam entender o poder do papa e a submissão das mulheres, haja vista que o papa poderia renascer como mendigo e os homens como mulheres.

O mais importante do livro é a comparação que o autor faz entre como os cátaros e a Igreja encaravam o problema do Mal no mundo. Sem dúvidas os cátaros enfrentaram esse problema espinhoso da filosofia e da teologia de maneira mais audaciosa do que a Igreja jamais fez. Por exemplo, Tomás de Aquino, seguindo uma longa tradição de Igreja, afirma que o problema do Mal é devido à liberdade humana. Ora, os cátaros contestam essa afirmação de uma maneira que Schopenhauer irá repetir no século XIX, ou seja, quem criou o homem e o mundo criou também as possibilidades desse mesmo mundo, de forma que sabia antecipadamente tudo o que poderia dar errado, no entanto foi em frente…

Semelhante a Schopenhauer, os cátaros recusavam a ideia de uma criação ex nihilo, pois viam a Deus mais como um Demiurgo que colocava ordem no mundo e não como um criador da matéria. Foram também corajosos ao admitirem que o Mal também seja eterno, e acentuavam o caráter sofistico da explicação da Igreja de que Satã é a causa do Mal. Ora, afirmavam os cátaros, se o Demônio era um anjo bom, e por vontade própria tornou-se mau, porque a Igreja afirma que sua maldade é eterna? Se ele era bom e virou um Ser mau, pode muito bem mudar novamente e tornar-se bom.  Só o que não teve início no tempo pode ser eterno, portanto a doutrina origenista da apocatastasis faria mais sentido para o catolicismo. Os cátaros viam o matrimônio não como um sacramento, mas sim como um mero contrato, da mesma forma que o protestantismo faria no século XVI. Em relação à natureza e aos animais, os cátaros eram verdadeiramente orientais à moda hindu e budista. Respeitavam todos os seres vivos e tendiam ao vegetarianismo. Em sua relação com a natureza e os animais, o catolicismo é verdadeiramente “judaico”, e representa a antítese de Pitágoras, Platão e das religiões do Oriente. Apesar dessas aparentes “vantagens”, o catarismo oferecia problemas muito sérios que impossibilitariam qualquer tentativa de uma difusão mais ampla, fora a criação de uma civilização digna deste nome. Eram por demais pessimistas por atribuírem o domínio desse mundo ao “deus do Mal”. Impossível imaginar que as mulheres continuassem a ter filhos em um mundo tão degradante, fora que qualquer ciência seria impossível de ser gerada por pessoas que acreditavam que o mundo era tão caótico e demoníaco. Não há como buscar ordem em uma realidade criada por um Ser diabólico. Por causa dessa visão gnóstica ao extremo, os cátaros afastaram-se não somente do Cristianismo mas também da filosofia de Platão e de Plotino.

O livro é sucinto em sua descrição das barbaridades da Inquisição e dos Cruzados em seus massacres. Entretanto, René Nelli revela a influência duradoura das crenças cátaras, principalmente através da poesia dos trovadores e seu culto da dama, através dos séculos. Leiam o livro O Amor e o Ocidente, de Denis de Rougemont, para terem uma noção de como em longo prazo os cátaros venceram a Igreja.

 

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