Resenha: A Nervura do Real, de Marilena Chaui

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Posso dizer que A Nervura do Real está no nível das grandes obras referências sobre os maiores filósofos tais como os de Giovanni Reale sobre Platão a de Charles Taylor sobre Hegel. O livro é espetacular, imenso (mais de 900 páginas) e não faz concessões ao leitor. Marilena Chaui demonstra total conhecimento não somente da vida e da filosofia de Baruch Spinoza, mas também da época na qual o filósofo viveu (século XVII) e da filosofia que o precedeu (principalmente da filosofia cartesiana e da filosofia medieval).

O livro é referência para estudantes de filosofia e especialistas na área e é uma obra exemplar. A filosofia de Spinoza não é das mais acessíveis mesmo para quem é da área de Filosofia. De uma vida exemplar, ascética e vivida em total acordo com o que acreditava, Spinoza foi um filósofo revolucionário. Sem apegar-se a autoridades, sejam eles civis ou da Bíblia, abriu caminho para questionamentos que seriam feitos a partir dele sobre os estudos bíblicos e suas fontes bastante humanas. Recusou qualquer transcendência que tradicionalmente os teólogos e filósofos concediam a Deus e a seus efeitos, o que escandalizou seus contemporâneos tanto quanto suas opiniões sobre a Bíblia. Mais impressionante ainda foi que se manteve impassível diante de sua excomunhão da Sinagoga e perante as críticas que viria a sofrer. Como disse Arthur Schopenhauer, “espíritos como Spinoza e Giordano Bruno eram como plantas tropicais na Europa: não podiam mesmo sobreviver. Os dois estariam melhores às margens do Rio Ganges, onde seriam honrados por pessoas de intelectos semelhantes.”

Marilena Chaui atribui muita importância ao Tratado Teológico político de Spinoza por suas consequências históricas. Nele, Spinoza rejeita a suposta inspiração divina da Bíblia de demonstra suas fontes muito humanas. A partir disso ficou muito mais fácil destruir osfundamentos dos regimes absolutistas da Europa, cuja base de sustentação era justamente a teocracia bíblica. Neste sentido, Spinoza contribuiu mais até do que os filósofos liberais para a futura liberdade europeia.

A filosofia de imanência de Spinoza rejeitou a longa tradição da metafísica Ocidental de separar radicalmente Deus de Sua Criação. Entretanto, Marilena Chaui não cai na tentação simplória de atribuir ao filósofo holandês um panteísmo gratuito. Como diz a filósofa na página 857:

Sem Deus nada pode nem ser concebido. A imanência de todas as coisas a Deus é enunciada de maneira precisa: Spinoza não diz todas as coisas são Deus- assim fosse, não haveria razão de distinguir substância e modo-, mas que todas as coisas são em Deus, seja porque o constituem como atributos de sua substância, seja porque são afecções de seus atributos.

Por causa dessa opinião e de outras sobre a Criação, a liberdade, etc, Spinoza inaugurou outra fase na filosofia da Europa. Marilena Chaui estudou diversas correspondências entre Spinoza e intelectuais teólogos holandeses daquele tempo e fica clara o choque que representou suas opiniões. Leibniz, que logo depois teve que fazer um grande esforço para diferenciar seu pensamento do de Spinoza- especialmente em sua Teodicéia, concentrou uma enorme energia e tempo para refutar as “perigosas” ideias do filósofo judeu.

Considero, no entanto, que a melhor parte do livro (e a mais complexa) é o amplo estudo e confronto que a filósofa da USP faz da filosofia medieval e sua relação com o pensamentode Spinoza. Maimônides, Tomás de Aquino, Duns Scotus, Guilherme de Ockham, Francisco Suárez, entre outros, são nos apresentados com muita erudição como antecessores ou não de ideias de Spinoza ou como refutadores avant la lettre de sua filosofia imanentizadora. Sua filosofia é contrária à de Tomás de Aquino e é devedora em parte do caminho aberto por Scotus e Ockham. De Francisco Suárez sabemos que foi uma grande influência em Descartes, que por sua vez foi a grande influência de Spinoza. Sem esse conhecimento da Escolástica, qualquer entendimento do pensamento de Spinoza fica impossível.

Contrariamente à tradição medieval, especialmente à de Tomás de Aquino, Spinoza preferia provar a priori a existência de Deus. Para Tomás de Aquino, o intelecto humano é inclinado para o sensível, como diz o texto de Chaui, por isso as provas da existência de Deus devem ser buscadas no mundo que nos é dado. Spinoza, ao contrário, considerava essa maneira de filosofar grosseira, pois a prova a posteriori, diz o texto, são “uma imperfeição manifesta”. A prova a priori, no caminho aberto por Santo Agostinho e Santo Anselmo, é a melhor e mais perfeita, pois aí lidamos com “a causa primeira de todas as coisas e também causa de si mesmo, que se faz conhecer a si mesmo por si mesmo.”

Renegando os milagres, a Revelação, a Teologia,os supostos mediadores entre Deus e os homens (papas e rabinos) e o Absolutismo, Spinoza quer limpar o terreno para uma crença verdadeiramente racional para a existência de Deus. Spinoza defende as verdades eternas, que garantem uma certeza de uma ordem divinamente estabelecida, contra invenções historicamente falsas que justificam privilégios de alguns seres humanos e transformam Deus num monarca Absoluto, cujos decretos poderiam ser alterados a qualquer momento, caso Ele assim quisesse.

O livro de Marilena Chaui é portanto uma aula completa sobre a filosofia de Spinoza. Muito abrangente e bastante fiel a uma busca verdadeira das origens do pensamento desse filósofo, o livro surpreende pela sua qualidade muito acima do que a filosofia brasileira costuma produzir.

 

 

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