Resenha: Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire

_PEDAGOGIA_DO_OPRIMIDO_1234038442B

Pedagogia do Oprimido é a obra mais famosa do educador brasileiro reconhecido mundialmente Paulo Freire (1921-1997). Tentei ler este livro colocando à parte o que já conhecia das polêmicas envolvendo não somente a Pedagogia do Oprimido mas também o nome de Paulo Freire. É claro que é bastante complicado que esses pré-conceitos não “contaminem” de uma maneira ou outra a avaliação do livro; no entanto, foi o que tentei fazer.

Sem dúvida, a parte do livro que mais influência obteve em longo prazo foi a crítica de Paulo Freire a assim chamada “educação bancária”. O que seria, portanto, a “educação bancária”? Nada mais é do que um processo de aprendizagem no qual o aluno é apenas um sujeito passivo em sala de aula. O professor “deposita” o conhecimento no “banco” (a mente do aluno), que nada mais é o método que tradicionalmente era aplicado nas escolas. Era basicamente uma educação autoritária e na qual o conhecimento e a experiência de vida prévia do aluno (adulto ou criança) era ignorada.

Paulo Freire propõe uma educação que seja a antítese dessa “educação bancária”, ou seja, uma educação que leve em consideração todo o conhecimento a priori do aluno (a priori no sentido anterior à sala de aula) na construção do conhecimento. Educador e educando seriam uma espécie de tese e antítese gerando sínteses (novos conhecimentos). É óbvia a influência da dialética hegeliana no pensamento de Paulo Freire. Menos óbvia, porém, é que Platão, mais de 2000 anos antes, já havia insistido na importância de professor e aluno serem participantes ativos na geração de conhecimento. A Paideia platônica já condenava a “educação bancária”, típica de quem considera a mente da criança como tabula rasa (Aristóteles e John Locke).

Outro ponto no qual Freire insiste muito é na questão do professor adaptar suas aulas à realidade dos alunos, especialmente os adultos. Não adianta o professor abordar assuntos alheios ao cotidiano de uma comunidade campesina, pois isso não irá despertar qualquer interesse por parte deles; ao contrário, poderá até causar-lhes repulsa pela educação. Nesta questão ele está completamente com a razão.

O título do livro é a Pedagogia do Oprimido por uma razão que Freire começa a abordar apartir de agora. A educação, segundo ele, precisa ser “libertadora”, pois não pode reproduzir o autoritarismo que está presente em nossa sociedade e que herdamos historicamente. Mas o oprimido não pode ser “libertado” para depois assumir o papel de opressor invertendo, assim, o papel que a educação tem o papel de destruir. A educação tem a missão de despertar no aluno o questionamento da opressão do qual ele é vítima, seja social, racial, econômica, etc. Não é, de maneira alguma, a preparação para uma revolução armada futura, mas sim despertar no aluno o porquê da sociedade ser da maneira que é. Uma “revolução” deste tipo seria um erro, pois seria nada mais que reproduzir a opressão antiga.

Bastante questionável, porém, é a utilização por Paulo Freire de citações de Lênin, Fidel Castro e Che Guevara. Não acho que isso traga qualquer contribuição ao tema da educação e credito essa atitude mais ao entusiasmo de Paulo Freire às questões de seu tempo sem nenhuma importância para a educação de qualquer época.

Seria o caso de atribuirmos o desastre da educação brasileira ao pensamento de Paulo Freire como exposto neste livro? Por experiência própria digo que a opressão de nossa sociedade muitas das vezes é reproduzida em sala de aula por muitos professores, tais como racismo, sexismo, homofobia, etc. A educação brasileira está aí para produzir mão de obra para o “mercado”. De maneira alguma é uma educação “problematizadora” no sentido de Paulo Freire. Os alunos, mesmos os mais pobres, querem é entrar no mercado de trabalho para serem consumidores o mais rápido possível. Não querem educação que faça através de um processo dialético gerar qualquer conhecimento ou questionamento. Grande parte dos professores nem mesmo está preocupado com isso, portanto, não adianta dar este crédito de mentor intelectual de nosso desastre a Paulo Freire.

Para um país como o nosso, o livro de Paulo Freire é uma grande referência quando se trata de educação. Não espere dele um grande aprofundamento filosófico que ele não é capaz de dar.

%d blogueiros gostam disto: