Resenha: Finnegans Wake, de James Joyce

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Riverrun, past Eve and Adam’s, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs.” Essas misteriosas palavras marcam o início da mais difícil obra da literatura mundial. Não cometo nenhum exagero ao enfatizar essa dificuldade. Mesmo os grandes críticos de vários países dificilmente chegam a uma conclusão satisfatória sobre o significado dessa obra escrita entre 1922 e 1939 por James Joyce. Se seu Ulisses já era complicado, em Finnegans Wake tudo fica ainda mais complexo.

Definitivamente Joyce não é para qualquer um, muito menos Finnegans Wake. Não tente buscar um sentido imediato nas palavras do texto, pois isso não vem ao caso. Um verdadeiro rio com uma corrente furiosa de palavras tiradas de mais de 60 idiomas vão sendo lançados no papel. Não há como dizer que ele escreve em inglês, pois trata-se de algo que parece com essa língua. A experiência é mais extrema do que em Ulisses. Trata-se de um sonho (ou seria um delírio) de Joyce. A História do mundo juntamente com vários elementos da história nacional irlandesa surge inesperadamente durante a narrativa. Como já havia dito sobre Ulisses, parece que Joyce está em uma sessão de psicanálise, onde ele simplesmente coloca para fora todas as suas idiossincrasias pessoais.

A história de Finnegans Wake não é linear. Joyce reproduz em sua história do mundo a narrativa cíclica do grande filósofo italiano Giambattista Vico (citado várias vezes no livro). Em sua obra máxima de filosofia, A Ciência Nova, Vico dividiu a história humana entre a Idade dos Deuses, a Idade dos Heróis e a Idade dos Homens. Vico toma como paradigma de sua narrativa o poeta grego Homero. Para ele, Homero foi um Teólogo-Poeta, que criou a base de uma civilização a partir de sua narrativa. A língua dos heróis, que veio antes da linguagem humana, é uma língua feita por símbolos. O principal, para Vico, que mesmo que a história seja cíclica, ou seja, com períodos gloriosos seguidos da barbárie (Antiguidade-Idade Média), há sempre a presença de providência divina guiando os Homens. Através das línguas e das religiões dos diferentes povos, podemos ter uma noção da HISTÓRIA IDEAL ETERNA.

Sem essa explicação da filosofia de Vico torna-se impossível uma tentativa de compreensão da obra de Joyce. A partir desse sonho, Joyce, com sua linguagem simbólica, reproduz a história da humanidade. Com essa base, talvez possamos interpretar as palavras já citadas que dão início ao livro Como sendo o início do livro do Gênesis. Como tudo é um sonho, algumas coisas que não fazem muito sentido entram na narrativa, e tudo isso é narrado com uma linguagem bastante complicada e críptica. O que ajuda na edição brasileira de Finnegans Wake são as notas feitas por Donaldo Schüler. Sem elas não há como tentar compreender o que Joyce quis dizer. O português, diga-se de passagem, é uma das poucas línguas nas quais Finnegans Wake foi traduzido.

A impressão que temos, e Vico até alerta para isso quando olhamos para o passado, é que nossa ignorância atual não consegue captar a mente dos Antigos. É como se Joyce estivesse em um passado distante, como um Homero irlandês; sua linguagem não é a dos tempos atuais. Não há coo compreender sua mente com nossos instrumentos. Ele está situado na aurora dos tempos, no início de uma Civilização, pelo menos em sua linguagem, mas é claro que ele está simultaneamente fazendo uma recapitulação da experiência da humanidade. Definitivamente Joyce é um criador de mitos. O mito de Ulisses está situado em Dublin em um único dia; em Finnegans Wake o mito é de toda a humanidade. Poetas captam o sentido da vida e da história e fundam e definem civilizações. Homero, a grega; Dante, a Cristã. Seria Joyce aquele quem captou e definiu melhor um mito para o nosso tempo?

 

Comments

  1. Rômulo Pessanha says:

    Muito bom!

  2. leila says:

    Excelente e bem escrita resenha. Revela seu talento.

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