Resenha: O Erro de Narciso, de Louis Lavelle

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O Erro de Narciso é uma pequena-grande obra do filósofo francês de inspiração platônica Louis Lavelle. Infelizmente ainda pouco conhecido no Brasil, o pensamento desse autor é um bálsamo para a alma e suas reflexões profundas e claras. Lavelle é um metafísico de primeira grandeza, e o que ele consegue realizar a partir do mito de Narciso é uma grande aula para nosso autoconhecimento.

Narciso, diz Lavelle, contentou-se apenas com sua imagem, que era nada menos do que um potencial do que ele poderia ser. O ser humano, porém, não é feito de apenas um instante, mas de uma multiplicidade de experiências que, por mais que sejam dolorosas, contribuem para a formação de seu ser. No momento em que Narciso se apaixona pelo seu reflexo, capta apenas algo que diz algo a ele, mas não aos outros. Lavelle enfatiza bastante a necessidade de comunicarmos nosso universo interior às outras pessoas. Fechar-se é ir contra nossas capacidades criativas e também negar que precisamos do outro para nos reconhecermos.

Lavelle afirma a necessidade de reconhecermos a dor em seu caráter positivo, assemelhando-se nesse ponto ao filósofo Arthur Schopenhauer. Faz parte da existência e não há como dissimulá-la. Mas nem por isso devemos desesperar, pois devemos nos ajustar às circunstâncias. A partir desse momento, cabe ao homem aceitar a ordem que reina no mundo.

Da mesma forma que Carl Gustav Jung afirmava a importância da religião e de uma divindade para libertar-nos da tirania do ambiente doméstico, ou seja, de uma vida tiranizada pelas figuras paterna e materna, Lavelle ensina o dever do homem decontemplar o mais amplo que o ajuda a desfazer-se de uma perpétua autocontemplação. As possibilidades para a alma passam a ser, a partir disso, infinitas. Se para o surgimento da ciência foi necessário que o homem olhasse para o céu e contemplasse as Ideias eternas para que pudesse compreender o que é esse mundo no qual ele está, é também necessário que nos voltemos para a mais alta metafísica para que compreendamos nosso próprio ser. Sim, a metafísica, reino que nos livra do engano de uma influência diabólica, segundo René Guénon, é aquela ciência que vai nos livrar de um erro como o de Narciso, que é o de não conseguir escapar de algo que vá além dele, como numa ciência puramente materialista e positivista não conseguiríamos ir além dos sentidos, nunca poderíamos ver mais longe. Lavelle escreveu sobre essa necessidade imensa que o homem tem de uma metafísica:

A Metafísica repousa numa experiência privilegiada que é a do ato que me faz ser. Entre pensar o objeto físico como sendo um lugar intermediário ao estado físico que foi
assimilado por uma experiência bastarda, e aquela que foi dada o nome de introspecção, e aquela do ato de pensar, é criada, por assim dizer, uma sorte de objeto interior.”

Louis Lavelle, La dialectique de l’éternel présent ( De L’Acte), pág.16.

Sem a criação desse “objeto interior” não pode existir um caminho para o autodescobrimento, e é esse fato que a o pensamento do autor nesse livro mais valoriza. É esse interior a coisa mais valiosa, que nenhum outro prazer do mundo pode igualar. É invisível. É o levar uma vida “em que não se faça mais sombra alguma e que conserve seu ser puro”.

Mas nada disso pressupõe uma imobilidade paralisante.Não adianta viver em um isolamento, pois sempre necessitamos do outro em nossa existência. Não podemos também deixar de ajudar esse outro quando a realidade do mundo parece tão injusta e desordenada. Não há de se ficar eternamente reclamando dessas injustiças sem nada fazer, diz o autor. O reino da consciência é o mais solitário, mas também é o que atrai mais olhares. Abandonando o egoísmo, elevamo-nos e, quanto mais alto subimos, mais iluminamos quem está abaixo de nós.

Esse agir é a própria vida. Saindo de uma limitação autocentrada, abrimo-nos para outras possibilidades. A metafísica mais uma vez se faz presente no pensamento de Lavelle:

“Eu mergulho no universo que me abriga e me alimenta. Meu caminho me empresta tudo o que ele é. Ele traça em si um sulco que é um novo relatório de mim, mas que é uma eterna descrição a si mesmo. A fecundidade do ato criador faz que essa faculdade me permita escolher, por uma análise contínua, os elementos que formarão a substância mesma de meu ser. E suspeitamos que o maior dos mistérios é que essa ação possa introduzir-nos no Ser sem acrescentar-Lhe nada e, através do exercício do tempo, inscrever-nos na eternidade.”

La dialectique de l’éternel présent ( De L’Acte), pág.50.

Livro maravilhoso!

 

 

 

 

 

Comments

  1. MARIA aNTONIETA says:

    Gostei muito da resenho de : O Erro de Narciso, de Louis Lavelle, conhecimento sempre enriquece.
    Muito obrigada!!!

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