Resenha: From Aristotle to Darwin and Back Again, de Étienne Gilson

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A verdadeira missão da Filosofia: o pensamento sobre o próprio pensamento e o questionamento das razões da ciência.

Poucos filósofos ou intelectuais possuem a coragem de questionar a assim chamada Teoria da Evolução que, mais do que simplesmente uma hipótese científica (ou pseudocientífica), virou já um dogma religioso. Louvemos, portanto, a bravura do filósofo francês Étienne Gilson, que escreveu esse livro numa época em que tal dogma era ainda mais inquestionável.

 

No livro From Aristotle to Darwin and Back Again, Étienne Gilson começa com um estudo da filosofia aristotélica, especialmente de sua obra Das Partes dos Animais, e faz uma defesa enfática do princípio da finalidade. A ciência moderna foi pródiga em descartar as causas finais como um entulho da filosofia medieval; era como se fosse um peso que impedia a ciência de desenvolver-se. Para um filósofo cristão como Gilson, a causa final é indissociável de uma filosofia racional, portanto, cabe a ele resgatar a finalidade em toda sua força e originalidade.

Ainda mantida, mas sem sua força total por Francis Bacon, a causa final foi rejeitada primeira por Descartes, afirma Gilson. No livro, fica claro que o pensamento evolucionista é algo recente, porém é algo muito diferente do que a maioria das pessoas imagina. Como fica claro durante a demonstração de Gilson, Lamarck, por exemplo, estava longe de admitir um transformismo grosseiro como viria a ser o darwinismo futuro. Lamarck, que era uma mente filosófica muito superior à de Darwin, admitia “que todos os indivíduos que sucedem uns aos outros possuem semelhança com aqueles dos quais são gerados” (pág.51). Ele mesmo foi incapaz de dar um salto no escuro que Darwin daria no futuro, pois muitas contradições o impediam de aceitar um “evolucionismo” simplório.

A afirmação do autor que considero mais surpreendente e reveladora é a de que a“evolução” não é nada darwinista em sua origem. Houve aí uma espécie de roubo ou plágio numa história que nunca ficou bem resolvida entre os envolvidos. Gilson atribui ao filósofo Herbert Spencer a paternidade do conceito de “evolução”. Darwin mesmo nunca compreendeu a filosofia evolucionista de Spencer, mas apropriou-se do termo em longo prazo e, após sua morte, seu filho Francis Darwin tratou de propagar a mentira. Entretanto, mesmo que Spencer tenha criado o termo “evolução”, ela mesma não é um transformismo em que algo menor e mais simples gera o maior e mais complexo. Spencer, como filósofo que era, não podia admitir tal aberração metafísica e ontológica. A teoria de Darwin, Spencer percebeu e Gilson reafirma, não passava de uma teoria da seleção natural, que de maneira alguma é a mesma coisa que “evolução”. Spencer naturalmente usava o método dedutivo em sua teoria, enquanto Darwin partia da indução, e esse último era incapaz de entender a linguagem da abstração, diz Gilson. O evolucionismo de Spencer está resumido em suas próprias palavras como “a integração da Matéria e a dissipação do Movimento”. O evolucionismo, como o próprio Gilson afirma, não passa de filosofia travestida de ciência.

Darwin, porém, quis sempre passar a impressão de ser um cientista puro e simples e sem qualquer influência de outras áreas. É sabido que quando Karl Marx dedicou sua obra O Capital a Darwin, o mesmo a rejeitou porque queria manter-se afastado de insinuações de que outras fontes deram origem a sua doutrina “científica”. No entanto, Gilson percebeu a influência de outra obra econômica na origem do darwinismo: as ideias de Thomas Malthus. Esse ministro da igreja anglicana que tinha bem pouco de cristão foi um defensor da “seleção natural” avant la lettre. Sem a ajuda estatal, a tendência era que os pobres e necessitados desaparecessem com o tempo evitando assim uma superpopulação. Pobres não deviam procriar e a caridade cristã só aumentava o problema. Deixando as coisas em um estado de natureza, a solução, brutal, rápida e cruel fazia com que esse “problema” fosse resolvido. Esta aí portanto a origem da seleção natural darwinista, que o próprio autor da teoria lutou para esconder durante sua vida.

Claro, porém, que Darwin nunca conseguiu livrar-se das causas finais, apesar de muito ter lutado contra elas, fracassou no final. Como Gilson esclarece de maneira genial, afirmar simplesmente que a natureza seleciona sempre os mais aptos para algo “melhor” durante uma sucessão infindável de tempo é atribuir causalidade à “evolução”. Por que sempre os seres se transformam em algo “melhor”? Há alguma inteligência por detrás disso? Darwin escreveu um livro com o título pretensioso de “A Origem das Espécies”, só que fica óbviopara quem lê essa obra que em nenhum momento ele esclarece a “origem” das espécies. Outra contradição percebida por Gilson é a do princípio de seleção sexual de Darwin. Ora, se os animais selecionam quais parceiros com quem vão cruzar, então o seu conceito de seleção natural “inconsciente” foi para o espaço! Há claramente uma finalidade na natureza, apesar de que ele não a admite.

No entanto o monstro foi solto da jaula. O dogma evolucionista passou por cima de toda razão e não pode ser questionado por ninguém.  Todas essas questões totalmente filosóficas forma deixadas de lado. Gilson é bastante severo em seu julgamento do pensamento de Darwin, que muitas vezes ultrapassou a barreira da ciência para aventurar-se na ontologia sem ter qualificações para isso. Como eu mesmo já havia dito em alguns artigos em meu site, o evolucionismo é pura filosofia e deve ser refutado na linguagem filosófica. O excelente livro de Gilson é um grande auxílio nesse desafio. A Filosofia nunca foi serva da Teologia e não deve ser serva da Ciência!

 

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