Resenha: Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto

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Lima Barreto foi um dos nossos grandes escritores, e sua obra pode ser considerada extremamente atual para os nossos dias. De linguagem simples, sem pedantismos, Lima Barreto sempre denunciou duas coisas que são verdadeiras pragas da vida do brasileiro: o racismo e a mediocridade.

Recordações do Escrivão Isaías Caminha é um romance com muitos traços biográficos do autor. Aborda o ambiente dos jornais cariocas no início do século XX e suas intrigas e mesquinharias. O tom irônico que é marcante nos livros do autor está presente nas situações que demonstram como o povo brasileiro tinha -e tem até hoje- uma obsessão por títulos e por aparências. O personagem de Isaías Caminha é obcecado pela busca do título de “doutor”. Nosso país sempre se preocupou menos com que as pessoas são, mas como elas aparentam ser. O título acadêmico serve também, e isso fica explícito, como um atestado de “embranquecimento” do personagem principal, que é pardo tal como era Lima Barreto.

Chamou-me muito a atenção uma passagem do livro que recorda Triste Fim de Policarpo Quaresma, que retrata o desprezo do brasileiro pelos livros e por quem lê. Em determinado momento, Isaías Caminha está sentado na praça e pega um livro para ler que havia levado consigo. Uma moça sentada próxima, provavelmente porque o personagem não vestia uma roupa que o identificasse como “Bacharel”, diz que não entende por que ele está lendo já que não é “Bacharel”. Como se vê, ler é o supremo pecado desde sempre para um país oral como o Brasil, oral como são todos os países católicos. Ler é algo para a elite, e o estudo nunca tem valor por si só.

Mais do que nunca na política e no jornalismo brasileiro, o tema do racismo sempre é mencionado pelo escritor carioca, ele mesmo a vida inteira vítima de discriminação por ser pardo. Para alguém de “cor” no Brasil daquela época, e também hoje, por que não, para sobreviver era necessário entrar em um mundo de aparências. É evidente que o título acadêmico abriria as portas para o pardo entrar no universo dos brancos, daí a necessidade de entrar para a faculdade. O estudo e a reflexão nunca interessaram aos brasileiros. O diploma ou “canudo” são um fim em si mesmo, e o conhecimento é secundário. É o passaporte para a elite do país. Outra maneira de “embranquecer” e entrar em um seleto mundo como o jornalismo ou outro emprego era através da figura do padrinho. Não interessa a competência pessoal, mas sim quem indicou você. Mais atual impossível…

Obviamente que a denúncia de como funcionava a redação de um jornal e suas tramas de inveja e amputação de talentos individuais é o tema principal do livro. Naquele tempo já via a si próprio como um poder supostamente auxiliar da democracia, mas na verdade era um poder paralelo e com interesses próprios. Não estavam preocupados com o povo. Era uma verdadeira arena de canibais tentando devorar qualquer talento individual que pudesse ameaçar suas próprias posições dentro da redação. Lima Barreto, que considero como um escritor mais atual e importante que Machado de Assis, é uma leitura que se faz necessária para um entendimento melhor de nossas elites e da nossa inveja a um espírito criativo que tente se diferenciar da selvageria diária do país.

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