Resenha: Sagarana, de João Guimarães Rosa

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Sagarana é o romance inaugural de Guimarães Rosa publicado em 1946, dez anos antes de Grande Sertão: Veredas. Nos diversos contos que fazem parte do livro, Rosa reproduz a linguagem do homem simples do sertão brasileiro, mas com a característica incomum em escritores brasileiros de tentar alcançar o universal, ou seja, de falar de temas presentes no espírito da humanidade em qualquer canto do mundo.

Típico de Rosa é a antroporfomização dos animais em Sagarana, pois eles estão sempre presentes no cotidiano e nos dramas pessoais dos personagens das estórias. O espaço físico do sertão dá grande vivacidade e emoção à movimentação dos personagens. Em tudo há uma integração, e o resultado é muito belo. Sabemos da tendência supersticiosa que Rosa possuía, que também é comum no homem do sertão. Essa característica iria acompanhá-lo por toda a vida e estaria presente também em seus livros posteriores à Sagarana. O sertão é palco de duelos incríveis e personagens misteriosos, mas também de magias, encantamentos, crendices e do espiritismo
.

A linguagem utilizada por Guimarães Rosa em Sagarana ainda não é tão complexa e desafiadora como será em Grande Sertão: Veredas, mas apesar de dificuldade para quem o lê pela primeira vez, não há como separar sua obra do falar do sertanejo e suas crenças, refletidas em cantos populares, onomatopeias e neologismos que Rosa introduz em todos os momentos nas estórias.

Sem dúvida há um caráter moralizante em Sagarana. Também é bom que se perceba que o homem do sertão muitas das vezes é violento, e o sentimento da honra medieval se faz presente até hoje; na obra de Rosa é algo fundamental para explicar os bandos de justiceiros, os pactos, as vinganças, as traições, etc.

Conforme havia mencionado, Rosa é um dos poucos escritores brasileiros que alcançam um significado universal em seus livros. É muito fácil na maior parte das vezes escrever um livro abordando sexo, sensualidade, brigas políticas datadas, ou mesmo situar o enredo captando apenas aquilo que é local e imediato, sem haja nisso qualquer interesse para homens e mulheres de outros países e épocas. Rosa poderia muito bem ter ganhado o prêmio Nobel, se ao menos não tivesse morrido prematuramente. Todo aquele ambiente de magia, meio mítico meio real de Sagarana e também de Grande Sertão, é bastante atraente e fascinante. Os contos São Marcos e A Hora e a Vez de Augusto Matraga são exemplos disso.

A psicologia do homem do sertão é uma mistura de catolicismo, paganismo e espiritismo. Na realidade o brasileiro é assim; violência e o caráter passional também estão presentes. O grande mérito de Rosa é colocar essas características em um plano mais elevado, que poderiam transformar-se em apenas novelas para consumo imediato, ao estilo de novelas globais. Por ser supersticioso, mas também com alguma religiosidade, Rosa foi capaz de abordar em suas estórias o arrependimento, aspectos singelos da vida, alguma moral, sendo que essas coisas estão ausentes em outros autores de nosso país. Tudo isso garantiu Sagarana entre as grandes obras de nossa literatura.

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