Sobre o quinto livro do De Divisione Naturae de João Escoto Erígena

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Exivit igitur a Patre et venit in mundum, humanam videlicet naturam accepit in qua totus mundus subsistit; nihil enim in mundo est quod non in humana natura comprehendatur : et iterum reliquit mundum et ivit ad Patrem, hoc est humanam quam acceperat naturam, super omnia visibilia et invisibilia, super omnes virtutes coelestes, super omne quod dicitur et intelligitur, suae deitate quae Patri est aequalis, adunans sublimavit. Quanquam enim totam humanam naturam, quam totam accepit, totam in seipso et in Toto humano genere totam salvavit; quosdam quidem in pristinum naturae statum restituens, quosdam vero per excellentiam ultra naturam deificans: in nullo tamen nisi in ipso solo humanitas deitati in unitatem substantiae adunata est, et in ipsam deitatem mutata omnia transcendit.

 

E Ele saiu do pai e veio ao mundo, e tomou para si a natureza humana no qual todo o mundo subsiste, e não há nada na natureza humana que não compreenda. E novamente ele saiu do mundo e foi para o Pai, ou seja, a natureza humana que recebeu, acima de todas as coisas visíveis e invisíveis, acima de todas as virtudes celestes, sobre tudo aquilo que é dito e compreendido, sua divindade que é igual à do Pai, na união sublimou-se. Ao mesmo tempo, para a totalidade da natureza humana, à qual recebeu, ele salvou todo o conjunto da raça humana em si mesmo: para alguns, deve ser restaurado seu estado original na natureza; em outros a excelência está na deificação; no entanto, de modo algum a humanidade em si é unida em uma substância única, mas transcendemos todos na Divindade.

João Escoto Erígena, De Divisione Naturae, Quinto Livro.

João Escoto Erígena foi um fenômeno na história da filosofia ocidental: viveu em um dos séculos mais caóticos e obscuros da Idade Média (século IX, o auge das invasões vikings e do terror sarraceno), escrevia bem melhor que seus sucessores da futura escolástica (não escreve por meio de silogismos e seu latim é mais agradável), e o que é ainda mais impressionante, ele sabia falar grego! Pelo que eu sei, depois dele somente no século XV, ou seja, 600 anos depois, algum filósofo ou intelectual europeu iria dominar a língua grega.

Escoto Erígena foi o tradutor e o propagandista das obras do Pseudo- Dionísio, pois depois que os originais em grego foram dados de presente a um monarca do Ocidente, durante décadas ficaram esquecidas porque não havia quem pudesse lê-las, até que um desconhecido monge da Irlanda pôde traduzi-las.

Sua obra principal é a extensa De Divisione Naturae, obra que nem em inglês consegui encontrar (nem precisa dizer que não existe em português), portanto a li no original em latim mesmo. A obra é dividida em cinco livros, sendo que aquele que nos interessa é o quinto. Como já escrevi, Escoto Erígena tem um latim bem mais fluente que os outros filósofos e teólogos medievais.

O livro em si é bastante agradável pelo elevado platonismo contido em suas páginas. Erígena também conhece de maneira surpreendente as obras de Aristóteles e intercala em diversos momentos do texto termos gregos que o auxiliam a demonstrar seu pensamento. Conhece bem e cita bastante o Timeu de Platão. Contudo, como não poderia deixar de ser, a presença do Pseudo- Dionísio é maciça do início ao fim.

O espírito de Escoto Erígena parece ser estranho ao da Igreja Latina, haja visto que o quinto livro é a negação explícita do demonismo e das crueldades do inferno que seriam infelizmente tão acentuadas nos séculos futuros do Ocidente. Escoto Erígena é otimista de maneira platônica, pois Deus realmente fez o mundo e suas criaturas como bons em si mesmos. Sendo bons, não há maneira de destruí-los, e todas as imperfeições atuais das criaturas serão restauradas em sua bondade inicial. Erígena é defensor do conceito grego adotado por Orígenes da apocatástase.

A misericórdia divina no espírito do platonismo de Erígena é demonstrada em uma passagem especialmente bela: O Criador quer o pecador próximo à fonte que o gerou para corrigir seus erros e crimes, e não expulsá-lo para longe para que prolongue seus pecados infinitamente. Mais à frente, Erígena recorda que o Bom é justo e também belo. Em um cenário de suplícios e terrores eternos, onde estaria localizado o belo? Seria belo o sofrimento de inúmeras criaturas? Deus desta forma não estaria prolongando o mal? Recordemos que Plotino afirmava que o Bem é comunicativo e se difunde, e Kierkegaard ensinou que a característica do diabólico é a mudez, o silêncio. Pode o silêncio propagar-se pela eternidade? Seria uma contradição, não?

Nos livros anteriores ao quinto, Erígena, nisso bastante influenciado pela Igreja do Oriente, desenvolve o tema da deificação (Theosis), tema que vai desaparecer no Ocidente até ser recuperado por Nicolau de Cusa no Renascimento. Escoto Erígena foi um homem totalmente deslocado de seu tempo.

A crença na Imago Dei é exaltada pelo filósofo de maneira que nos recorda da natureza boa em termos metafísicos da alma humana; por conseguinte, ele crê que como somos a imagem de Deus, o próprio Deus não pode nos destruir e nem punir, ao menos da maneira destruidora e maligna do sistema infernal cristão, no qual a própria natureza boa da alma é massacrada e corrompida por toda a eternidade.

Se cabe ao próprio ser humano propagar a ordem e beleza desejadas por Deus, porque é tarefa do homem bom e justo levar luz onde reina as trevas, dessa maneira restaurando a harmonia divina onde reinava o caos, como então não será o que Deus fará futuramente, ou seja, restaurando toda a ordenação do universo que Ele mesmo estabeleceu? Escoto Erígena enfatiza muito o papel restaurador da misericórdia divina, e seu livro contém uma alta espiritualidade do início ao fim.

Quando lemos o De Divisione Naturae e as consequências radicais a que o autor chega, ficamos com a impressão que ele não tinha como ir adiante, pois as ferramentas à sua disposição estavam ausentes. Não havia com quem dialogar, e a própria Bíblia não podia colaborar com seu pensamento. Sua visão que alcançava também os animais e a natureza é platônica e oriental demais para formar um conjunto mais harmonioso. Mas longe de mim fazer mais alguns reparos! O livro é muito bom e renova o espírito, por isso recomendo bastante que quem puder ler, o faça!

 

Comments

  1. Geraldo Maia says:

    Não sou filósofo mas adorei esta postagem.

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