Sobre o Sofista de Martin Heidegger

heiddeger

Cada palavra dita é a voz de um morto.

Aniquilou-se quem se não velou,

Quem na voz, não em si, viveu absorto.

Se ser Homem é pouco, e grande só

Em dar voz ao valor das nossas penas

E ao que de sonho e nosso fica em nós

Do universo que por nós roçou;

Se é maior ser um Deus, que diz apenas

Com a vida o que o Homem com a voz:

Maior ainda é ser como o Destino

Que tem o silêncio por seu hino

E cuja face nunca se mostrou.

Fernando Pessoa

 

No terrível ano de 2016 que vivemos no Brasil, vimos o triunfo do discurso vazio e da mera opinião triunfarem. Reconhecidamente, agora sem mais disfarces, somos um povo violento, preconceituoso e ignorante.  Nosso país é fruto de uma civilização oral, herdeiros de um catolicismo ibérico, pouco afeito à leitura e à busca do conhecimento. Somado a tudo isso, temos a internet agora à nossa disposição, onde cada um pode dar voz a suas opiniões mais loucas, na maioria das vezes sem temer maiores consequências. Mesmo autoridades, que deveriam dar o exemplo, repetem lugares comuns fornecidos pela mídia.

Todo o ambiente de confusão em que nos colocamos, onde não há mais ciência, e talvez nem mesmo alguém esteja fingindo que está buscando alguma, recorda muito que seria uma sociedade dominada pelos sofistas. A obra de Martin Heidegger, Platão: o Sofista, é a reprodução de um curso que ele ofereceu em 1924/1925. O livro em si contém uma profusão de termos em grego que, pelo menos na edição brasileira, foram traduzidos. O mais importante é que Heidegger faz uma excelente interpretação do pensamento de Platão a partir das obras de Aristóteles.

O sofista é alguém apaixonado pelo discurso, como demonstram Platão, Aristóteles e Heidegger. O sofista necessita sempre estar falando sobre algo, pois há nele uma grande paixão pelas palavras, mas sem penetrar no domínio da verdade de alguma coisa. Podemos perceber que temos este cenário diante de nós. Professores, ministros, advogados e até alguns que se autointitulam filósofos ou professores de filosofia, apaixonados por uma verborragia de opiniões, sem buscar alguma forma de vida interior mais elevada, gastando uma enorme quantidade de tempo (que parecem ter de sobra) para tentar captar adeptos, de fundamental importância no mundo de hoje, pois a opinião tem que ser lançada a qualquer momento e sobre qualquer tema.

Em Platão, e isso é reforçado por Heidegger (p. 257), o discurso não é como o dos sofistas, que é localizado e efêmero, mas que de qualquer maneira o faz ganhar adeptos, porque o imediato está acessível a todos, sejam tolos ou ignorantes; o diálogo (ou discurso) de Platão, como o de Aristóteles, visa a conexão com o todo, pois que assim age é o verdadeiro filósofo. E Heidegger ensina que este tipo de diálogo é uma investigação, e isso é difícil e leva tempo. O sofista tem soluções rápidas para cada tipo de plateia, como os sofistas atuais estão sempre com tempo para captar o instantâneo e colocarem suas marcas. Dias depois ninguém mais liga, mas conseguiram algum brilho. Afirma Heidegger:

“A palavra falada em sua dominação junto aos particulares tanto quanto na comunidade, é aquilo que constitui o elemento decisivo para o sofista. Ora, na medida em que esse calcificar-se na palavra e na palavra falada de maneira bela e impositiva implica o compromisso de como fala sempre falar sobre algo, o interesse pela própria fala já é por si mesmo, simplesmente pelo fato de o acento recair sobre o caráter formal do discurso e da argumentação, desprovido de substancialidade e consonância com a coisa. Porquanto todo e qualquer discurso, porém, se remete a algo e porquanto o sofista fala, ele precisa falar sobre algo, quer ele se interesse ou não pela coisa.” (pág. 256)

O sofista, de acordo com Platão e Heidegger (p. 320), possui outras características marcantes: é um caçador, pois quer apoderar-se de determinados homens. Como lançam muitos lugares comuns para um público vulnerável, conseguem facilmente fazer vítimas; o sofista também é um mercador, que exige algo em troca daquilo que oferece. Ele quer dinheiro, palestras e patrocínio; mas como diz Heidegger, o sofista não se apoderou daquilo que supostamente tem a capacidade de ensinar (p. 326). O sofista promete a você, diz o filósofo alemão, “mecanismos para sobreviver na cidade”. A última definição que coloco no texto é a de que o sofista é um acumulador de conhecimentos. Ele enriquece cada vez mais os conteúdos que têm a oferecer de cidade em cidade ou, em termos atuais, de canal em canal, de plataforma em plataforma.

Se vivemos em um país dominado por sofistas, onde estariam os filósofos ou professores, que no mito platônico devem realizar a descida e sacrificarem-se em benefício de polis? Estão amedrontados, pois adquirir ciência e sabedoria, que o pensamento de Heidegger coloca como antíteses do ensinamento dos sofistas, leva um tempo considerável; não o fazem, pois consideram que a filosofia virou mero auxiliar de um discurso da ciência; e não o fazem porque apresentar uma visão do conjunto é muito pouco atraente e de recompensa mínima- claro se você desconsiderar a tarefa da filosofia.

Heidegger vai buscar em Aristóteles (p. 150) uma visão de sabedoria que se contrapõe a toda arte dos sofistas. A sabedoria lida com aquilo que é sempre, e sua contemplação está sempre presente onde quer que esteja aquele que contemplou. A sabedoria visa o Bem (Agathon), que tem um limite, talvez recordando o ensinamento de Platão de que tudo o que passa de uma justa medida é a fonte do mal.

Em Aristóteles, a ciência suprema é a ciência política, que tem a tarefa de dar diretrizes para as outras ciências. Heidegger enfatiza a importância ciência política como sendo a circunvisão (ϕρόνησις), pois abrange todas as outras áreas da atividade humana. No entanto, mesmo que haja a presença da ciência, o filósofo alemão diz que a sabedoria oferece algo que a ciência não pode oferecer. Porque em um mundo dominado por tecnologias as mais variadas, como a ciência vai pensar na própria ciência e oferecer soluções para o mau uso do discurso e do conhecimento através destas plataformas pelos agentes políticos?

Vejamos o que Heidegger diz sobre a diferença entre ciência e sabedoria:

Toda έπιστήυη (ciência) é διδασχαλία (ensino), isto é, ela sempre pressupõe aquilo que não pode esclarecer por ela mesma como έπιστήυη (ciência). Ela é άπόδειξιϚ, (mostração) a partir de algo, que já é familiar e conhecido. Assim, ela já sempre faz uso de uma έπαϒωϒη (condução), que ela mesma não leva a termo propriamente. Pois ela está desde o princípio suficientemente familiarizada com o espaço ‘a partir do qual…’ A έπαϒωϒη (condução) já sempre pressupõe algo, portanto, e o que ela pressupõe é precisamente o άρχή (princípio). E não é ela mesma que descerra propriamente o άρχή (princípio).

Portanto, como έπιστήυη (ciência) não pode mostrar ela mesma aquilo que se encontra antes de si, revela-se no άληθεύειν (desvelamento) da έπιστήυη (ciência) uma falha. Ela não é suficiente para mostrar o ente como tal, na medida em que ela justamente não descerra o άρχή (princípio). Por isso a έπιστήυη (ciência) não é nenhuma βελτίστη έξιϚ do άληθεύειν (o melhor estado do desvelamento). Ao contrário, a possibilidade mais elevada no interior do έπιστημονιχόν (do que promove o saber) é antes muito mais a σοϕία (sabedoria). (pág. 37)

Em alguns textos que já publiquei, menciono especialmente a obra Elementos de Teologia (Liber de Causis), de Proclo, como particularmente importante, pois esta busca pela causa ou pelo princípio das coisas é a fonte da sabedoria. E aquele que conquistou a sabedoria é o filósofo que contempla a vida (βίος) a partir do alto (p. 269). Faz-se necessário enfatizar o termo “contemplar” e também “olhar” que Heidegger menciona no texto. Ao contrário do falatório incessante do sofista, o verdadeiro filósofo contempla a visão do todo para poder entregar à polis a circunvisão (ϕρόνησις) que dará apoio à ciência política.

Quem fará o papel de filósofo para nos salvar ninguém sabe; podemos apenas apontar- e isso lembra um pensamento de Kierkegaard- o horror de nossa política e o triunfo da sofística em nosso país.

 

 

 

 

Comments

  1. Welington says:

    Meu caro muito bom o texto desenvolvido a partir do pensamento de Heidegger e principalmente a atualização que você faz com a situação caótica vivida pela política brasileira. Parabéns.

  2. Excelente o texto, dito de forma magistral o que muitos não ousam insinuar. Parabéns !!!

  3. Felipe Terra says:

    Felipe, no nono parágrafo tu escreve que para Aristóteles a ciência suprema é a politica, mas isso é dito no contexto da ética — o argumento que pretende estabelecer que a politica é a ciência mais arquitetônica está no começo da Ética Nicomaqueia. Mas em outros contextos ele diria que é a metafisica, a qual certamente não pode ser subordinada a politica.
    De modo geral, o principal ensinamento desses gregos (Platão, Aristóteles) é o “horror infiniti”. O discurso dos sofistas tende ao infinito, ele se dispersa, se expande, pois cada qual fala o que bem entende e o falatório nunca cessa. Talvez se pudesse dizer que o ideal grego é o silêncio próprio da contemplação, este tão desprezado em época de redes sociais.

    Ótimo texto
    Obrigado

    • Sim, foi realmente neste sentido que o Heidegger cita Aristóteles. No comentário de São Tomás à Ética a Nicômaco também está assim. Obrigado pelo comentário.

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