Resenha: Em Berço Esplêndido, de José Osvaldo de Meira Penna

em_berco_esplendido_1474386582128644sk1474386582b

Mais do que nunca, dada a crise no qual vivemos, faz-se necessária uma análise do que é o Brasil e o caráter de seu povo. Nós sempre vivemos à luz de falsas esperanças: a culpa era de Portugal, depois da monarquia, depois da oligarquia paulista, do estatismo de Vargas, dos delírios arquitetônicos de JK e dos militares. Com a chegada da democracia verdadeira e da Constituição de 1988, nada mais poderia nos deter! Falso. Durante a década de 2000 tínhamos certeza de que havia chegado nossa vez, ainda mais com a descoberta do pré-sal! Veio um desastre como nunca havíamos presenciado…seguimos assim, de decepção em decepção, mas sempre com alguma esperança de que algo mágico vá acontecer…

Com a crise atingindo todo o país, as análises sobre o povo brasileiro e o porquê de nosso fracasso voltaram à moda. Um livro, porém, o qual não pretendo afirmar que seja o melhor nesta questão, mas que considero importante, ainda mais porque usa uma base junguiana para tentar decifrar as características do povo brasileiro. A obra tem o título de Em Berço Esplêndido, de José Osvaldo de Meira Penna, e foi escrita nos anos 1970.

A tradição de muitos autores que escreveram sobre o povo brasileiro variava entre os pessimistas e os românticos. Ou éramos um povo degenerado, com alegações racistas, ou representávamos um tipo original de homem cordial, ou seja, de pouca razão, mas muito coração. A obra de Meira Penna possui o mérito de evitar os extremos de pessimismo e ufanismo (ou irrealismo).

O autor combina vários elementos da psicologia junguiana que fornecem uma visão inédita em uma análise psicológica da nação. Recordemos mais uma vez que o livro foi publicado no auge do crescimento do governo militar, e em determinado momento até transparece um certo otimismo com o Brasil da época. É óbvio que tínhamos muito mais a oferecer em termos culturais, se comparados ao que temos hoje. Meira Penna recorda o aspecto emocional da psique brasileira, aflorado ainda mais pelo nosso catolicismo muito mais festivo do que metafísico. O país tem que enfrentar sempre uma dicotomia que nada nem ninguém consegue solucionar, expressos através de símbolos maiores presentes em nossa história: vemos a terra como uma grande-mãe que acolhe a todos, mas que, ao mesmo tempo, nos impede de sairmos de nossa eterna adolescência; o solo combina características de paraíso terrestre com o de inferno na terra; temos a natureza, bela vista de longe, mas de perto as pragas, o calor, as doenças; a nossa personalidade não consegue estabelecer uma combinação entre o apolíneo e o dionisíaco; definitivamente, o aspecto festivo e irracional de Dionísio prevalece.

Todos esses elementos citados por Meira Penna no plano teórico são imanentes em nossa história e cotidiano. Tendemos muito a nos vangloriarmos de nossa natureza, mas isso é algo já dado, e não criado por nós; a grande-mãe realmente acolhe a todos, mas impede realizações maiores no plano do casamento, da vida em sociedade e nas grandes realizações; o aspecto dionisíaco é revelado em nosso carnaval, segundo o autor, pois é incrível que por mais que estejamos em crise, e nossa desorganização seja disseminada em todas as outras áreas, no carnaval tudo sempre funciona com uma eficiência germânica. O caráter apolíneo de razão e reflexão só produz alguns lampejos ao longo do tempo na mente do brasileiro…

Posso concordar que o Brasil é uma sociedade erótica, uma sociedade do “amor”, onde o sexo pulsa a todo instante, mas não posso concordar com qualquer sentido estético no povo brasileiro. O autor nega que sejamos bons, mas também nego que sejamos estéticos. O país e sua arquitetura são feios. Nós desconhecemos o ideal dos Antigos de identificação do Belo com o Bom. É um mérito indiscutível de Meira Penna o de ter percebido como este culto do sexo e do amor produzem estragos na vida civil do país. Inúmeros assassinatos já naquele tempo por causa de honra e de supostas traições. O caráter infantil do brasileiro é revelado neste domínio mais do que qualquer outro. Desconhecemos o sacrifício pelo outro no casamento e na criação dos filhos, pois o que vale é a posse erótica da mulher. Portanto, se essa mesma mulher ousar libertar-se de nossa posse, o sentimento de honra aflora e o resultado é o feminicídio do século XXI. Reproduzimos em escala diminuta o ciúme da grande-mãe que não deseja a emancipação de seus filhos.

Jung dizia que a religião como um todo, mas particularmente a cristã, possuía um grande valor para libertar o homem e a mulher da tirania paterna e materna. A religião nos coloca em um nível mais alto e desperta o espírito de sacrifício no ser humano. O Brasil nunca teve uma religião que pudesse fazer isso por nós. Ficamos sempre indefinidos como em outras áreas. O brasileiro ignora Deus e a metafísica, mas, talvez como Santo Agostinho, “ama amar”. Cultuamos casos amorosos, a paixão e o sexo. Tudo isso com um grau extremo de emoção e nenhuma racionalidade. Grandes nações combinaram o fervor religioso com um patriotismo ou nacionalismo, mas não nós brasileiros. Como percebe Meira Penna, dizemos que Deus é brasileiro em um tom de blasfêmia.

Outra grande passagem do livro é quando o autor demonstra que o brasileiro consegue até eficiente quando se trata de trabalho em grande escala. Em qualquer fábrica de automóveis ou para produzirmos aviões conseguimos trabalhar com o mesmo afinco que japoneses ou estadunidenses. Só que o nosso problema começa a aparecer quando o aspecto de vida interior precisa fazer-se presente. Ações comunitárias são difíceis de serem organizadas, e uma reflexão pessoal traduzida em uma literatura ou mística elevadas é praticamente inacessível à mente brasileira.

Diversos fatores podem influenciar o éthos de um povo, mas qual seria a solução para que o Brasil conseguisse superar algumas de suas dificuldades históricas? Meira Penna não poderia prever a dramática queda da natalidade brasileira, porque no livro ele menciona muito a explosão populacional experimentada na época, e mesmo outras coisas menores que existem de bom no país revelar-se-iam ilusórias. Na década de 1970 possuíamos uma ótima música e literatura, mas isso é história. O Brasil experimenta uma entropia devastadora. Não temos mais nossa religião meio católica, meio pagã para nos alegrar, a indústria desapareceu, o povo envelheceu, homicídios dispararam. O que restou foi uma onda de moralismo do tipo protestante que domina o discurso político e o nosso cotidiano. Não há mais criatividade e o espírito de Dionísio desaparece cada vez mais da alma do brasileiro. A resposta para o caos ainda não foi encontrada.

Anúncios

Comments

  1. Silvanice Alexandre Pereira says:

    Isto fato isto é real nosso povo não sabem muito sobre carater etica dignidade

    ________________________________

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: