Resenha: O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar

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Um livro com múltiplas possibilidades de interpretação, O Jogo da Amarelinha, do grande escritor argentino Julio Cortázar, é uma das grandes obras da literatura latino-americana. Lembrou-me levemente de O Aleph, de Jorge Luis Borges, por seu estilo de histórias fora de ordem e que surgem ao acaso. Apesar de considerar este livro de Cortázar bastante desafiador, o que para mim é sempre estimulante, nem de longe é comparável a uma obra de James Joyce.

Fica evidente a grande cultura filosófica e artística de Cortázar, que é exibida em uma variedade de personagens. O ambiente mistura a própria combinação intelectual do escritor, ou seja, metade argentino, metade do universo cultural de língua francesa. As divagações existenciais colocadas no texto são muito centradas no existencialismo. “A existência precede a essência”, o lema existencialista é bem marcante, pois as situações são colocadas ao leitor de uma forma aleatória. Não cabe tanto a nós tentar estabelecer um significado geral do texto que valha para as outras pessoas. O próprio texto vai sendo colocado para sua interpretação pessoal.

Cada capítulo vai situando o leitor dentro de algo que já está acontecendo. Salta-se de um personagem para outro em todo momento. Somos levados a compartilhar as angústias e divagações existenciais que a história fornece. Como foi dito, Cortázar aproveita para colocar diversas referências ou citações de poetas, artistas e pintores que fazem parte de sua formação cultural e estética. É uma cultura cosmopolita e muito abrangente.

Particularmente, toda a mistura que o autor coloca de filosofia, religião, arte e música torna instigante o texto porque desejamos saber se tudo aquilo irá nos levar a uma ideia central que a obra ainda não deixou claro para que está lendo. Sim, com tantas referências a leitura torna-se cada vez mais desafiadora, ainda mais porque não existe ordem. São blocos posicionados que formam estágios que formam a analogia com o Jogo da Amarelinha, como quis o autor.

Lançados em uma existência, pois o que vale é a “imediaticidade existencial”, imersos em um cotidiano em que situações absurdas e uma realidade bem comum, o livro pretende colocar o leitor como participante de muitas reflexões. A obra está aberta, e Cortázar revela que rejeita a ordem fechada e não há mensagens, pois “não há mensagem, há mensageiros, e isso é a mensagem, assim como o amor é o que ama”. Portanto, cabe totalmente a quem lê o Jogo da Amarelinha decidir seu próprio significado. Não há no livro uma “essência” geral das coisas. Há muito caos, dialética e construções possíveis. Existe o ser humano jogado ali, em um grande teatro, ou em um jogo. Blocos situados com um “céu” no final. Você pode decidir por este final metafísico ou rejeitá-lo; o importante é ter participado da aventura do autor.

Admiro muito o caráter universalista destes dois escritores argentinos: Borges e Cortázar. O Jogo da amarelinha é um livro excelente, instigante e possui um tom filosófico, ao menos eu considero assim.

 

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Comments

  1. Felipe, saudações, gostaria de ver uma resenha crítica sua a respeito da obra “Nação Soberana do Bautista Vidal” que escreve a respeito do brasileiro e o porquê que ele o considera como o homem-massa, conceito introduzido na obra do Ortega y Gasset, mais a obra “o relatório lugano da Susan George” em que a autora escreve sobre o suposto encontro em Davos que são definidas as políticas econômicas, jurídicas e sociais para humanidade, com o objetivo manter sustentável o capitalismo.

  2. Kambo do ES says:

    Parabéns pela resenha, lia a primeira parte e to pensando em ler a segunda, gostei de vários momentos, mas, talvez não continue a leitura prefiro um dinamismo maior, talvez seja o espaço-tempo, acho que da para ser rebuscado sem ser tão enrolado, e que ele conseguiria se quisesse, como fez em alguns contos.
    Grato

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