Resenha: Ordem e Progresso, de Gilberto Freyre

Ordem-e-Progresso

Com cerca de 1000 páginas, Ordem e Progresso, de Gilberto Freyre, é uma obra com tamanho e qualidade suficientes para situar o leitor dentro do Brasil do final do Império e início da República. Temos a série que começa com Casa Grande & Senzala, depois segue com Sobrados e Mucambos, tendo Ordem e Progresso como conclusão, já que Jazigos e Covas Rasas não chegou a ser escrito pelo grande sociólogo brasileiro.

Uma característica do livro é a dos pequenos depoimentos que Gilberto Freyre coletou de diversas pessoas que viveram no período (final do século XIX e início do XX), e que dão uma curiosa sensação de trabalho jornalístico. Vários desses depoimentos confirmam aquilo que nós sempre suspeitamos: o brasileiro carrega dentro de si alguns vícios e preconceitos que permanecem desde sempre. Destaco a parte dos relatos sobre a libertação dos escravos em 1888. Todos comemoram a data histórica, o gesto humanitário de justiça, e dizem que suas respectivas famílias tendiam a tratar bem os escravos e compreenderam bem o feito da princesa Isabel; mas o sociólogo também os questionava sobre se aceitariam que uma pessoa de cor, ou um mulato, casasse com seus filhos e filhas. A imensa maioria disse que não aceitaria que isso ocorresse, que consideravam todos os seres humanos iguais, mas (em muitos existe esse “mas”) alguns seres humanos eram mais iguais do que os outros.

Este racismo da sociedade brasileira foi muito mal dissimulado quando a imigração, especialmente dos italianos, passou a ser incentivada justamente no período no qual os escravos negros estavam sendo libertados. Jamais houve qualquer preocupação em preparar a imensa população negra, que havia sido a única que verdadeiramente trabalhou e sustentou o Brasil até então, para o novo mercado de trabalho assalariado. Passaram então a serem escondidos por debaixo do pano, como algo constrangedor ao novo Brasil que pretendia ser branco como a Argentina. Como Freyre coloca no livro, o Brasil tinha muita vergonha de alguns dos tipos nacionais da época por causa de sua aparência física, especialmente, óbvio, quando comparados aos tipos dos europeus do Norte. A própria diplomacia evitava alguns dos nossos tipos (negros, mulatos) para não nos causar maiores “constrangimentos”.

A passagem da Monarquia para República foi um tanto confusa. Pelos relatos do livro, muitos, ou a maioria, não possuíam grande antipatia pelo sistema antigo nem pelo Imperador. É verdade que Pedro II tendia a ser muito atacado na imprensa e por observadores estrangeiros. No caso dos estrangeiros, curiosamente, havia muitas críticas não a um suposto luxo da corte brasileira, mas a incrível pobreza do Imperador e daqueles que o cercavam. Ele também foi criticado pela sua apatia pessoal e falta de pulso no comando da nação. Havia muito menos governo no Império do que haveria na República. Ficamos com a impressão de que possuíamos uma Monarquia envergonhada, que ajudou a preparar o caminho para sua própria queda.

O Brasil do final do século XIX era já também muito pouco católico. Era um catolicismo de conveniência, as igrejas protestantes já apareciam em alguns lugares e o espiritismo fazia sua estreia. Algo muito bem destacado pelo sociólogo é a invasão do Brasil por padres estrangeiros. Os conventos brasileiros estavam à míngua, e não é surpresa para ninguém que a Igreja Católica sempre desconfiou e desdenhou dos nossos padres mestiços. Um observador mencionado no livro ficava espantado, o que demonstra o incrível fracasso do catolicismo no país, que ainda em 1900 o Brasil fosse um país para missões religiosas.

No plano intelectual há de destacar-se a presença do Positivismo entre nós. Hoje em dia mesmo em cursos de Filosofia pouco se menciona Augusto Comte, mas naquela época o Positivismo, no Brasil em especial, tinha até pretensões de ser religião. Freyre confirma que a República deu muito mais atenção à educação pública e a fundação de escolas do que o Império. Como nunca deixou de acontecer nos debates a respeito da educação brasileira, houve naquele tempo, muito graças à obsessão dos Positivistas por matemática e pela técnica, um grande desprezo pela nossa tradição, ainda que de baixo nível na maior parte dos casos, pelas humanidades. Diziam que o brasileiro perdia muito tempo com latim, gramática, etc., enquanto o futuro estava na técnica, na engenharia… nas nossas futuras universidades, recorda Gilberto Freyre, a obsessão pela prática e pela técnica seria tão marcante que até os estrangeiros, que ao menos naquele tempo ainda estudavam grego, latim, antiguidades, ficariam espantados! O brasileiro sempre teve mania de copiar coisas de segunda mão vindas da Europa e exagerá-las aqui no Brasil. No período do estudo do livro foi avassaladora a presença da língua e da filosofia francesa no Brasil. Paris, para nós, era o centro do mundo. Algumas tentativas de alertar-nos que o jogo já havia virado há algum tempo para a Alemanha e para a Inglaterra não deram frutos. Ficamos, como sempre, com as sobras…

Ordem e Progresso forma, junto com seus dois antecessores, um estudo extraordinário sobre o Brasil e os brasileiros feito por Gilberto Freyre. Nosso território e nossa cultura são ricos, porém o povo não consegue, apesar de sua capacidade de adaptação, criar uma noção de país, de soberania. O povo sempre foi interessante como um todo, mas quando descemos aos particulares, a cada brasileiro individualmente, a situação se complica…

 

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