Resenha: Turbilhão, de Coelho Neto

51fiDhOEJNL

Coelho Neto é um escritor há muito tempo pouco conhecido e divulgado, porque foi tido já em seu tempo como ultrapassado. Em Turbilhão, os méritos do autor tornam-se evidentes pela excelente qualidade da escrita. É um romance muito agradável de se ler, apesar de que considero que o final poderia ter sido melhor. Não é difícil entender, porém, o porquê de Coelho Neto ter sido muito combatido, pois o tipo de vocabulário que o mesmo usa é bem pouco usual, mas que também não chega a ser dos mais complexos. Trata-se de uma linguagem muito culta, pouco acessível já em tempo, e mais ainda no nosso, haja visto o pouco hábito de leitura do povo em geral; no entanto, apesar dessas dificuldades, acredito que o estilo de Coelho Neto funciona perfeitamente no romance. O autor é classificado como impressionista, dando ênfase às sensações, luzes, estado da alma- que ele emprega realmente várias vezes no livro.

A estória é centrada no personagem Paulo Jove, um homem instável, que não para em empregos nem conclui qualquer faculdade. Este possui um tipo de apego excessivo com a irmã, Violante, que desaparece de casa. Paulo vive com sua mãe, já idosa e doente. Sai em busca da irmã pelas ruas do Rio de Janeiro. Neste intervalo, conhece Ritinha, que vive com o malandro e capoeirista Mamede. Paulo começa a envolver-se com ela, e gosta da situação de perigo.

Turbilhão também narra a presença e o crescimento do espiritismo no Rio de Janeiro no início do século XX. O próprio Coelho Neto iria converter-se à fé espírita alguns anos depois. A cena da visita ao centro é algo muito familiar ainda hoje, assim como a associação do espiritismo a algo perigoso, algo oculto, que o autor coloca nas falas dos personagens. Coelho Neto foi feliz ao trazer para o livro esta presença espírita que tornar-se-ia cada vez mais propagada no Rio de Janeiro.

Além do envolvimento com Ritinha, o caráter instável de Paulo o faz tentar achar soluções para os problemas financeiros dele, que pouco se fixa em um emprego, no jogo. Gasta muito dinheiro e perde. A busca em si que Paulo empreende em busca da irmã deixa logo de ser o centro da estória, porque o próprio destino de Violante é que é surpreendente, ainda mais para a época em que o romance foi escrito. Coelho Neto colocou nas estórias de Violante e Ritinha características femininas bastante avançadas e fazem parte de nosso tempo.

Se o autor possui um estilo de escrita pouco usual, não devemos deixar que isso encubra o fato do romance e suas personagens estarem à frente de sua época. Algumas de suas palavras são raríssimas, mas são muito belas. Seu estilo, apesar disso, é bem mais moderno do que o de Machado de Assis. Se Lima Barreto soube captar a linguagem do dia-a-dia do carioca, Coelho Neto conseguiu colocar no papel algumas situações do cotidiano do Rio de Janeiro pouco exploradas até então, como o espiritismo e o universo, em linguagem atual, das “garotas de programa”. Com seu estilo Impressionista, em alguns momentos o romance nem parece situar-se no Rio de Janeiro. Coelho Neto usa muito o tema da noite, a presença de um felino na casa reforça essa impressão, por isso a estória fica com um desenvolvimento um tanto sombrio. Como já mencionei, achei o final um pouco frustrante, apesar de que não compromete a qualidade do livro como um todo.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: