Uma reflexão atual a partir de um poema de W. H. Auden

auden29

Man is changed by his living; but not fast enough. His concern to- day is for that which yesterday did not occur.

W.H.Auden, Selected Poems.

O grande poeta inglês Auden soube de maneira extraordinária, como todo gênio poético, colocar em versos os dramas do século XX. Faz-se necessário, mais do que nunca, que apareça algum poeta que saiba (especialmente no Brasil) captar nossas desgraças que, se não matam os corpos na escala do século XX, destroem nossas almas, nossa cultura e nosso futuro.

Auden possui um poema que é exemplar para que possamos exprimir nosso sentimento atual: chama-se  September 1, 1939, sobre a Segunda Guerra. Reproduzo-o a seguir:

I sit in one of the dives

On Fifty-second Street

Uncertain and afraid

As the clever hopes expire

Of a low dishonest decade:

Waves of anger and fear

Circulate over the bright

And darkened lands of the earth,

Obsessing our private lives;

The unmentionable odour of death

Offends the September night.

Accurate scholarship can

Unearth the whole offence

From Luther until now

That has driven a culture mad,

Find what occurred at Linz,

What huge imago made

A psychopathic god:

I and the public know

What all schoolchildren learn,

Those to whom evil is done

Do evil in return.

Exiled Thucydides knew

All that a speech can say

About Democracy,

And what dictators do,

The elderly rubbish they talk

To an apathetic grave;

Analysed all in his book,

The enlightenment driven away,

The habit-forming pain,

Mismanagement and grief:

We must suffer them all again.

Into this neutral air

Where blind skyscrapers use

Their full height to proclaim

The strength of Collective Man,

Each language pours its vain

Competitive excuse:

But who can live for long

In an euphoric dream;

Out of the mirror they stare,

Imperialism’s face

And the international wrong.

Faces along the bar

Cling to their average day:

The lights must never go out,

The music must always play,

All the conventions conspire

To make this fort assume

The furniture of home;

Lest we should see where we are,

Lost in a haunted wood,

Children afraid of the night

Who have never been happy or good.

The windiest militant trash

Important Persons shout

Is not so crude as our wish:

What mad Nijinsky wrote

About Diaghilev

Is true of the normal heart;

For the error bred in the bone

Of each woman and each man

Craves what it cannot have,

Not universal love

But to be loved alone.

From the conservative dark

Into the ethical life

The dense commuters come,

Repeating their morning vow;

“I will be true to the wife,

I’ll concentrate more on my work,”

And helpless governors wake

To resume their compulsory game:

Who can release them now,

Who can reach the deaf,

Who can speak for the dumb?

All I have is a voice

To undo the folded lie,

The romantic lie in the brain

Of the sensual man-in-the-street

And the lie of Authority

Whose buildings grope the sky:

There is no such thing as the State

And no one exists alone;

Hunger allows no choice

To the citizen or the police;

We must love one another or die.

Defenceless under the night

Our world in stupor lies;

Yet, dotted everywhere,

Ironic points of light

Flash out wherever the Just

Exchange their messages:

May I, composed like them

Of Eros and of dust,

Beleaguered by the same

Negation and despair,

Show an affirming flame.

O período que antecedeu ao início da Segunda Guerra Mundial provocou uma grande onda de angústia, que penetrou até mesmo na vida privada das famílias (And darkened lands of the earth, Obsessing our private lives). Seria o mesmo que acontece no Século XXI do Brasil. O nível de obsessão com a política e com a crise econômica está provocando um nível de paranoia nunca antes visto. Toda reunião familiar, ao menos de 2010 para cá, obrigatoriamente menciona política. O brasileiro obcecado com futebol é coisa do passado. Vivemos desde então uma década da desonestidade (Of a low dishonest decade), na qual todos os nossos demônios interiores foram soltos. Se alguém ainda tinha dúvidas sobre o nosso caráter baixo, a década de 2010 mostrou a cara do Brasil.

No poema, Auden menciona sua preocupação em explicar a gênese do Nazismo, Não nasceu de uma hora para outra: foi uma criação de séculos (Accurate scholarship can unearth the whole offence from Luther until now that has driven a culture mad, find what occurred at Linz, what huge imago made a psychopathic god). Linz é a cidade natal de Hitler, e a história alemã, com suas obscuridades mais profundas, precisa ser analisada para descobrir o porquê entrou naquela espiral de loucura, que fez nascer um deus psicopata. Aqui, no nosso caso, até o momento não nasceu um deus psicopata, mas uma legião de sofistas que falam sobre coisas que não existem, mas que levaram a cultura brasileira (existe?) a um estado de psicopatia. Sem uma análise de como foi possível chegarmos a esta situação, como os nomes de seus autores, para que, no futuro, nós e nossos descendentes possamos saber a verdade da horrível década de 2010 (I and the public know what all schoolchildren learn, those to whom evil is done do evil in return.)

Se permitimos que nossa democracia (?) sucumba diante de um grupo heterogêneo de bárbaros é porque o povo também é apático, praticamente cadavérico (Exiled thucydides knew all that a speech can say about democracy, and what dictators do, the elderly rubbish they talk to an apathetic grave). O obscurantismo reina novamente (the enlightenment driven away).

Muitos, como a América de então (into this neutral air) proclamam a neutralidade. Cada qual em seu grupo político/familiar coloca uma desculpa para suas escolhas (Each language pours its vain competitive excuse).

Se a inflação baixou, ou se aqueles dos quais não gostamos foram varridos do mapa; se estamos viajando ou se o problema não é exatamente comigo, então o poeta pode escrever (Faces along the bar cling to their average day: The lights must never go out,the music must always play, all the conventions conspire to make this fort assume the furniture of home; lest we should see where we are, lost in a haunted wood, children afraid of the night who have never been happy or good). O show, portanto, deve continuar, ao menos até que as trevas desçam sobre nós!

Pensar no bem estar do povo? Nem pensar! Aqui é cada um por si, e os outros que se virem! Qualquer noção de solidariedade foi perdida, e o que resta é apenas a mais crua luta de classes, cada qual defendendo o seu (for the error bred in the bone of each woman and each man craves what it cannot have, not universal love but to be loved alone)

O povo não teve representantes corajosos o suficiente para que não entrássemos nesta situação, e agora não possui ninguém que possa ser sua voz na política (Who can release them now, who can reach the deaf, who can speak for the dumb?)

Para Auden, no momento mais agudo da crise, nem mesmo o Estado pode mais fazer qualquer coisa. Resta apenas a salvação de que amemos uns aos outros. Ao contrário do que muito se ensina hoje no país, ninguém existe sozinho (and no one exists alone). Se o flagelo da fome voltou, não pense que os mais abastados estão livres também das desgraças. Suicídios, loucura, desespero, desentendimentos espreitam às portas de cada família, e tudo isso não faz distinção de ninguém (hunger allows no choice).

Estamos em um estado de coma, mas mesmo o estado de coma pode ser revertido pela força da fé e da esperança (defenceless under the nigh our world in stupor lies). Por quê? Porque, como disse Plotino, o Bem é comunicativo e se difunde. Como Auden bem viu (Yet, dotted everywhere,ironic points of light flash out wherever the just exchange their messages), aqui e ali podem surgir pontos de luz que anunciam a salvação, pois, como o poeta, nós também devemos exibir an affirming flame.

Em seu poema Spain, Auden coloca a Espanha como um microcosmo daquilo que é a humanidade.

Yesterday the belief in the absolute value of Greek,

The fall of the curtain upon the death of a hero;

Yesterday the prayer to the sunset

And the adoration of madmen. but to-day the struggle.

A luta que ele menciona é a Guerra Civil Espanhola, mas serve de metáfora para outros momentos. Antes nós possuíamos os valores de perfeição dos gregos, o fechar das cortinas na morte do herói, as orações ao pôr do sol, e a adoração aos loucos. Foi a época de ouro da humanidade, como na vida de cada nação, ou de cada indivíduo, está contida uma Idade do Ouro interna. Porém, ela se foi. O que resta agora é a luta.

The stars are dead. The animals will not look.

We are left alone with our day, and the time is short, and

History to the defeated

May say Alas but cannot help nor pardon.

Nós fomos lançados em uma luta épica, e temos como grande adversário a História. Como diz o poeta, ela pode nos dar apenas um “boa sorte”, mas não pode jamais ajudar ou perdoar.

 

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