Resenha: Político, de Platão

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Um dos grandes momentos da filosofia de Platão é a busca por uma definição do sofista, do político e do filósofo. Platão jamais escreveu um diálogo chamado de Filósofo, isso porque a definição de filósofo está já contida dentro do diálogo Sofista. No Político, o grande filósofo ateniense deseja ter um entendimento a quem caberia a arte de governar, o que permite uma articulação com seu diálogo A República.

É de extrema importância que compreendamos a maneira pelo qual Platão desenvolve seu pensamento em forma de diálogo. Ele não parte do senso comum ou de uma reunião de “dados dos sentidos” para explicar sua teoria. No Político, assim como nos outros diálogos, notamos que seu pensamento vai em uma escala ascendente, colocando hipóteses cada vez mais elevadas até atingir seu objetivo.

Um exemplo do que foi dito acima é a rejeição inicial ao recurso do Mito, da maneira como está a partir de 270d. O Mito ensinado por Platão é muito parecido com o do Gênesis. No reinado de Cronos, tudo era o inverso do que é hoje. Os velhos rejuvenesciam, os jovens voltavam a ser bebês, e os mortos ressuscitavam a partir da terra. Animais e seres humanos viviam em harmonia e conversavam entre si. Não havia casamentos nem a necessidade de reprodução, pois os seres humanos nasciam da terra. Os dáimons (no sentido positivo original do pensamento grego) cuidavam da humanidade. Mas Platão diz que não podemos especular sobre o quê os humanos e os animais conversavam. Terminado este tempo, pois todos os seres já haviam renascido em todas as possibilidades possíveis, o Timoneiro do universo abandonou seu posto 272e, e assim o universo começou a girar em um sentido contrário, e o mundo tomou a forma como é hoje, com a reprodução, o nascimento, a juventude e a morte. Homens e animais tornaram-se inimigos. Só que havia a possibilidade deste giro causar uma desordem, que é inerente à matéria, de tal magnitude, que o universo estaria ameaçado. O Timoneiro, então, recuperou a tempo o comando do universo e o tornou imune à velhice. O importante, para captarmos o espírito platônico, é que o mundo que temos é o atual, e não há o recurso de escaparmos para o mito do paraíso original que perdemos. O objetivo é a definição do político, que há de agir como o timoneiro entre cada nação, e que colocará ordem no meio das inúmeras desordens que existem nas diversas sociedades. Platão reconhece em 277c que o Mito tem um efeito didático para a massa da população que não é passível de compreensão das coisas mais elevadas, pois vivem como num sono permanente e, quando despertas, esquecem de tudo. O discurso e o diálogo, que são muito mais importantes do que a escrita, em Platão, são o domínio das pessoas com maior capacidade, ou seja, que estão despertas.

A partir da incapacidade do Mito da Idade de Cronos de nos proporcionar o caminho correto da definição do político, Platão também ensina outra maneira de como não proceder. Em 262d, Platão demonstra que uma separação simplória entre o que é adequado aos gregos, e ao restante da humanidade (bárbaros), não é a maneira certa de proceder. O correto seria pensar em termos de par e ímpar, homem e mulher, para, a partir disso, especular sobre os diferentes povos. Em 278b, Platão já rejeita por inteiro o futuro projeto de Aristóteles que, em sua Política, usa o modelo de comparação entre dezenas de Constituições para tentar chegar a um modelo adequado. Não chegamos a um conhecimento verdadeiro daquilo que buscamos só a partir de comparações entre o que é certo e o que está errado. Infelizmente, este método de confrontação entre o Bem e o Mal está muito em voga nos dias atuais. Como afirma Platão em 278d, a vida é muito mais complexa para que a verdade seja alcançada apenas a partir de meros confrontos entre contrários. O método científico de Aristóteles, que é o de recolher “dados dos sentidos” e depois compará-los, é algo inconcebível para Platão. Em 285d a diferença entre os dois é bastante evidente. Não partimos para definir as coisas mais elevadas, como é o caso da busca para sabermos quem é o verdadeiro Político, a partir de exemplos já fornecidos sobre os diferentes políticos, ou sobre constituições diferentes, da mesma maneira, como Platão apresenta, que nenhum aluno não aprende as letras por interesse de uma palavra específica, mas sim para que ele possa compreender todo o restante.

O salto que Platão quer que façamos exige que abandonemos o comportamento infantil de apenas apontar semelhanças entre coisas sensíveis. Aqui entra a verdadeira ciência platônica, que é o direcionamento da alma para planos cada vez mais elevados de hipóteses incorpóreas, que só podem ser alcançadas no plano do discurso, da dialética 286e. Este é o ponto mais atacado em Platão por vários de seus adversários ao longo da história, porque veem nas suas hipóteses meras utopias. Sua crítica à democracia é bem conhecida especialmente na República. No Político, ela também está presente. Claro que suas observações, muito valiosas por sinal, estão sujeitas às críticas, mas seria interessante que analisássemos algumas delas, quando aplicadas ao tempo presente.

Platão acredita que a democracia seja a pior das melhores formas de governo 303b; porém, ele afirma que, em uma situação degenerada, a democracia seja a melhor forma de governo- ou a menos nociva. O filósofo quer saber em 292c se muitos ou poucos terão o conhecimento sobre a arte de governar. Aristóteles critica Platão em sua Política por sua busca de um Rei-Filósofo. Como vimos acima, Aristóteles tende a “pulverizar” o conhecimento em muitas unidades reunidas, neste sentido, ele só poderia mesmo criticar Platão por estabelecer hipóteses mais elevadas e, portanto, julga que não os melhores, mas todos podem governar (Política X). Não há uma noção de uma Ideia do Bem em Aristóteles, pois diferentes bens estão espalhados em vários lugares. Outro salto que Platão dá é em 293b, porque ele saltou por cima das leis. O político possuirá a ciência verdadeira dentro de si. Ele dá o exemplo da medicina, pois os médicos, independente das leis, ou de sua condição pessoal e, se age de uma ou outra maneira, é sempre um médico. Platão coloca um argumento polêmico em 293e sobre o poder do político de governar com uma ciência que esteja acima das leis, podendo matar ou banir alguns dos cidadãos, estabelecer colônias ou convocar cidadãos de outros países para fortalecer a própria. O argumento deixa de ser polêmico quando vemos que, as duas grandes potências mundiais até hoje, o Reino Unido e os Estados Unidos, usaram e abusaram destas prerrogativas.

Há se supor que, a partir da leitura de 297e, se a arte da política é superior às leis, então o pensamento filosófico deveria ser dominante, mais do que um judiciário com seu enorme aparato de leis e regras. E a ciência do governante, como o comandante de um navio, deveria ser o ponto de equilíbrio, mais do que as leis escritas, ainda mais em um momento de perigo. Da mesma maneira que no Mito de Cronos, as coisas deixadas por si próprias estão sujeitas a movimentos desordenados e, se não fosse pelo Timoneiro assumir novamente o comando, o resultado seria imprevisível. Uma vez que há uma enorme variedade de inclinações entre a massa da população, como as leis, por melhores que fossem, seriam capazes de colocar uma barreira a um avanço caótico da desordem? Platão alerta em 307e que mesmo a presença dos bons não é suficiente para garantir a ordem permanentemente, e o caso é mais claro ainda em uma democracia, porque a tranquilidade tende a nos tornar indolentes, enquanto que as forças da desordem estão em mobilização constante. Nós sabemos que, em nossos dias, muito se tem falado sobre como a internet democraticamente deu voz aos idiotas e aos criminosos; no entanto, é raro aparecer alguma voz para apontar que a democracia faz o mesmo. É muito mais fácil trollar em redes sociais do que construir algo de bom; na democracia, a tendência é que os piores criem grupos organizados e conspirem, enquanto os bons e os melhores permaneçam distraídos. Construir leva muito mais tempo de que destruir. Como escreve Eric Voegelin:

Na situação concreta, o Estado de Direito não é uma instituição para ser esclarecida e armazenada como item permanente no conhecimento dos alunos, mas para ser questionada como uma fonte de desordem e como um obstáculo à restauração da ordem. Quando a desintegração espiritual e moral de um governo constitucional atinge a fase de destruição iminente, é o momento de medidas de emergência que se sobreponham a todas as formas constitucionais. Platão entendia que a natureza e a seriedade da crise exigiam um governo de homens extraconstitucional; essa percepção faz dele um filósofo da política e da história superior a Aristóteles, que, com uma complacência às vezes inconcebível, pôde descrever a natureza e a ordem da pólis helênica e oferecer receitas argutas para lidar com perturbações revolucionárias num momento em que o mundo da pólis vinha desmoronando à sua volta e em que Alexandre estava inaugurando a época do Império. (Ordem e História: Platão e Aristóteles. Editora Loyola,p.220)

Ainda vemos no Brasil como a interpretação das leis é bastante elástica, sobrepondo-se até mesmo ao interesse da população. Não pode fazer obra tal porque a lei diz que determinada espécie vive ali, logo a população pobre que vive naquela região, e que seria beneficiada, que se lasque. Mesmo crimes, como a deposição de um presidente, são tornados válidos porque seguiram a “lei”. No livro Homo Sacer, de Giorgio Agamben, há uma passagem muito interessante. Ali vemos que as civilizações mais conscientes sabem muito bem até onde vai a “lei”. Nos Estados Unidos, Agamben percebeu, o presidente é uma figura separada do restante da população. Ele até pode sofrer impeachment, mas o processo contra ele termina no momento de sua saída. Ele não responde, depois disso, a processos normais. Mas aqui seria bem difícil termos a consciência sobre o porquê os outros povos fazem assim…

 

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Comments

  1. Republicou isso em Memórias ao vento.

  2. Excelente artigo. gosto muito de ler Platão.

  3. Lucas says:

    Platão é ótimo, mas da margem para leituras questionáveis como esta. Primeiro porque em seus textos ele não defende qualquer ação como a dos EUA, pois este não é governado por um rei filósofo, condição para que a política se sobreponha às leis, como melhor forma a estabelecer a ordem. Porém como na há essa figura (e não podemos negligenciar essa ausência) é que ele identifica na democracia como a melhor das piores formas de governo. Acho que esta é a maior dificuldade de tentar uma leitura anacrônica de Platão, ao misturar sua construção ideal a realidade sensível, caimos na comparação imediata, cujo texto mesmo alerta para a inviabilidade…

    • Lucas says:

      Acho que me manifestei mal no comentário anterior, porque queria dizer que as interpretações possíveis a partir do texto poderiam ser questionáveis, não o texto em si.

      • Você entendeu errado. Em nenhum momento eu disse que algum país é governado por rei-filósofo, mas que temos exemplos de países que tomaram as atitudes que Platão recomenda ao político em algumas situações, como banir certos grupos, criar colônias, etc.

      • Lucas says:

        mas é exatamente isso que questionei, pois até onde entendi os textos originais (li faz tempo e não sou versado como você com certeza é) e de certa forma seu texto corrobora minha impressão, como as reflexões de Platão se inserem dentro de uma escalada de abstração, e a construção de seu politico é feita antes de apresentar a permissividade do poder para se sobrepor a lei, cabe discutirmos se esta atitude, ou licença, só é aceitável como benéfica dentro do contexto por ele delineado. Não caberia assim uma associação direta a um contexto distante deste estado. Entende o que quero dizer? não vejo como reconhecer este pragmatismo em Platão, existente em Aristóteles, por exemplo. Mas foi uma reflexão de momento… preciso pensar melhor nisso.

  4. Sim, você está correto neste ponto. Platão não é um empirista prático, mas o Estado não é simplesmente um império da lei. Como está na citação de Eric Voegelin, em muitos momentos algumas atitudes, que não estão na constituição, devem ser tomadas. Platão não era um idealista ingênuo, mas conhecia profundamente a alma humana.

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