A filosofia platônica de Gemisto Plethon

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Jorge Gemisto  Γεώργιος Γεμιστός (1355/1452), filósofo bizantino da Renascença, depois chamado de Plethon Πλήθων, em homenagem à sua imensa admiração por Platão, é uma grata surpresa na história da filosofia. Mesmo com o poderoso exército otomano diante dos portões de Constantinopla quis, nada mais nada menos, reviver a antiga religião grega e recusou o Cristianismo. Defendeu abertamente a superioridade da filosofia de Platão sobre a de Aristóteles e considerava que o Cristianismo era a principal causa da decadência do Império.

A filosofia bizantina não costuma ser muito ensinada nas universidades. Os nomes de Plethon e de Gregório Palamas (1296/1359) são largamente ignorados. A filosofia de Plethon não teve grande sobrevida nos séculos posteriores porque seu programa era radical demais para um mundo que permaneceu cristão. Apesar de haver defendido a causa da Igreja do Oriente durante o Concílio de Ferrara, Plethon ignorou solenemente o Cristianismo em seu pensamento.

Sua obra principal são as Nomoi (Leis), nas quais quer ressuscitar o paganismo antigo em toda sua força. Uma característica de Plethon nas Nomoi é a de passar por cima do neoplatonismo e sua noção do Uno, pois no livro ele denomina os Deuses como Zeus, Poseidon, etc. Foi criticado por Thomas Taylor por causa disso. Várias ideias da religião grega são restauradas em passagens muito belas:

Quand le Soleil et Saturne eurent terminé cette dernière création mortelle d’.après les plans de Neptune, chef de tout ce qui existe, alors non seulement notre monde fut complètement achevé, grâce à ce même Dieu ; mais aussi, par la puissance de Jupiter le maître suprême, cet ensemble de créations composé d’une multitude d’êtres différents, éternels, temporels, immortels, mortels, forma un système universel aussi beau et aussi parfait que possible.

Quando o Sol e Saturno tinham terminado esta última criação mortal de acordo com os planos de Netuno, cabeça de tudo o que existe, então não só nosso mundo estava completamente acabado, graças ao mesmo Deus; mas também, pelo poder de Júpiter, o mestre supremo, este conjunto de criações composto por uma multidão de seres diferentes, eternos, temporais, imortais, mortais, formou um sistema universal tão belo e tão perfeito quanto possível.

Seu universo, que como é comum na filosofia platônica, é eterno e sempre se renova, sendo o tempo le temps est la mesure du changement, et ils ont l’éternité pour mesure de leur vie (o tempo é a medida da mudança e possui a eternidade como medida de sua vida), é oposto ao criacionismo ex nihilo do Cristianismo, e muito mais a um apocalipse devastador. Em outra obra de caráter polêmico De Differentiis, Plethon contrapõe Platão a Aristóteles. Critica Aristóteles tanto porque considerava que ele havia sido desonesto em sua interpretação da filosofia de seu mestre, como também tinha percebido que os cristãos, já há alguns séculos, davam preferência ao primeiro (2011, p.413).

No capítulo XVII da obra citada acusa Aristóteles de impiedade por não haver reconhecido a causa eficiente e por dizer que a arte imita a natureza. Como sendo anterior à arte, a natureza tem que ser superior. Para ele existe a arte divina (natureza) e a humana, e a primeira nada pode conter do irracional que possa existir na segunda, pois é divina. Aristóteles seria culpado de não ter percebido que é na causa eficiente, ou seja, na ação do Criador que a natureza age, mesmo que ela pareça não deliberar.

Esta ideia aristotélica foi igualada ao ateísmo por Plethon. Como ele viu, servia ao pensamento judaico-cristão. No monoteísmo existe um abismo entre o Criador e sua criação. O aristotelismo foi percebido como menos perigoso para o Cristianismo porque lidava basicamente com o mundo físico, sem uma articulação com a teologia ou uma metafísica mais complexa como a platônica. Ambos creem que o melhor já aconteceu e que nada mais pode ser mudado. A potência é a fonte do mal. A filosofia de Aristóteles foi tida como um complemento ao pensamento cristão; já Platão foi tido como um competidor (2011, p. 410).

Plethon recusa o pensamento escolástico tal como Tomás de Aquino, que ensina que Deus não é um gênero (2011, p.233). Desta maneira, Tomás de Aquino enfatiza radicalmente a transcendência de Deus, o que impossibilita que o ser humano o conheça, a não ser por seus efeitos (ibidem). Plethon define Deus como Ser, que está em um gênero, sendo assim, a diferença entre o Criador e o criado é diminuída. No De Differenttis, Plethon critica Aristóteles por não defender a unidade do Ser, resultando no fato de que os seres não participam do Um (2011, p.234). Rejeita também a equivocidade do ser. Na passagem do Livro III da Metafísica, Aristóteles faz uma crítica que foi considerada inaceitável pelo neoplatônico Siriano e por Thomas Taylor. Ali, Aristóteles faz uma confusão deliberada com a concepção de univocidade do ser, dando a entender que a Ideia e o ser sensível no fundo são a mesma coisa, variando apenas em grau:

mas é evidente que Aristóteles não é sério quando afirma isso: não é de maneira alguma verdade que o homem da região terrestre difere apenas na privação da eternidade do homem do mundo inteligível, ou, em outras palavras, das regiões do intelecto divino; pois o mortal é inerente à definição do homem terrestre, e Aristóteles, nesta mesma obra, demonstra claramente que as coisas mortais e corruptíveis são inerentes, possuem isso, não por acidente, mas essencialmente. Portanto, sendo o homem essencialmente mortal, ele é incapaz de ser o mesmo que o homem do mundo inteligível, pela adesão da eternidade.

Thomas Taylor, A Metafísica de Aristóteles, Comentário ao Livro III Beta (tradução nossa a partir do original em inglês)

se ipso verum latentem quod repugnantia loquitor philosophus, nam si univocus est homino, qui hic homini, qui ibi est, ut est Alexandri sermo; neque utique aeternitate differret ab eo, qui hic est, nam in ratione hominis, qui est hic, mortale inest, quibus inest mortale, corruptibile, omnino inest non per accidens, ut ipse philosophus in hoc ipso negocio manifeste demonstravit. Qua propter non recte hoc aristoteles, secundum Alexandri sermonem. Sed, haec quidem ex animi sententiae disputasse viros non puto qui tam valde in differendi ratione excelluerint: quia plato nis divina dogmata non laedunt quaemadmodum nec a Thracibus emissae sagittae ad deos perveniebant.

a verdade da inconsistência do filósofo está latente, pois se o homem é unívoco, este homem daqui lá está, onde diz Alexandre (de Afrodísias); claro que não na eternidade adiada, pois que aqui está, pela própria noção humana, que aqui está, ambas mortais, corruptíveis, inteiramente não por acidente, de modo que o filósofo pessoalmente demonstrou. Por isso, Aristóteles não está certo, segundo o que diz Alexandre. Porém, que tantos homens que excederam na arte do raciocínio tivessem combatido esta sentença não penso. Pois os dogmas divinos de Platão não foram feridos, assim como as flechas atiradas pelos Trácios não atingem aos Deuses.

Siriano (Συριανός) Séc.V, Antiquissimi Interpretis in II, XII, Et XIII Aristotelis Libros Metaphysices Commentarius (1558) (tradução nossa a partir da versão latina)

 

Aristóteles, assim, faz uma cisão entre o Céu e a Terra pois não há uma união entre o Uno e o Múltiplo. Ou ele produz a imanentização das Ideias no sensível, ou ele diz que as Ideias nada mais são do que o sensível em um outro nível, abrindo caminho para que vejamos as Formas como meros nomes. Por conseguinte, desprezando as Formas, tornando-as inacessíveis ao ser humano, criou-se uma união com o pensamento cristão que separa Deus e a Terra.

Esta separação, tão conveniente para a Igreja, pois torna a humanidade refém de sua intermediação, foi atacada por Plethon. Ele aproximou novamente Deus e a humanidade pela recuperação do Ser (2011, p.38). Esta união refletiu, por exemplo, na ênfase que Plethon dava à recuperação da história e do patriotismo, através de uma polis autossuficiente. Não mais a história seria projetada para um final apocalíptico, no qual as diferenças seriam eliminadas. Plethon considerava que os teólogos cristãos, no fundo, desejavam o ecumenismo, ainda que servil, dentro de um império turco-otomano, do que suas ideias a respeito da polis grega. Plethon foi também um grande pensador político, tentou identificar no Cristianismo uma religião moribunda, sendo uma das causas da decadência do Império. Pretendeu elaborar leis que controlassem o luxo, sendo até mesmo bastante intolerante.

O Universo platônico é eterno, e Plethon evita o caminho fácil de um livre-arbítrio e, de maneira ousada, ensina, após séculos, a noção de Destino (Heimarmene). Neste momento, ele soa como Schopenhauer. Só que é preciso que se note que ele não é um fatalista, e a Heimarmene não exclui a bondade e a ação dos Deuses. Como ele escreve

 

En effet, en niant la nécessité et la prédétermination des faits à venir, on s’expose à refuser entièrement aux Dieux la prévision des choses humaines ou à les accuser d’être les auteurs du pire, au lieu du mieux possible, puisque nécessairement, des choses qu’ils ont résolues en premier ou en second lieu, l’une doit être pire que l’autre  ceux qui nient absolument le destin tombent donc dans l’une ou l’autre de ces impiétés. Mais ces deux suppositions sont tout à fait impossibles; tous les événements à venir sont fixés dès l’éternité, ils sont rangés dans le meilleur ordre possible sous l’autorité de Jupiter, maître unique et suprême de toutes choses.

De fato, ao negar a necessidade e a predeterminação dos fatos futuros, se expõe a recusar inteiramente aos Deuses a previsão das coisas humanas ou a acusá-los de serem os autores do pior, em vez do melhor possível, já que necessariamente, coisas que eles resolveram em primeiro ou segundo, um deve ser pior do que o outro: aqueles que absolutamente negam o destino, portanto, caem em uma ou outra dessas impiedades. Mas essas duas suposições são bastante impossíveis; Todos os eventos futuros são fixados desde a eternidade, e estão dispostos na melhor ordem possível sob a autoridade de Júpiter, o único e supremo mestre de todas as coisas.

 

Não há, em Plethon, uma separação entre a inteligência e a ação de Deus (p.320), sendo assim, não haverá nenhuma contradição a respeito da visão dos futuros acontecimentos por parte de Zeus. Como está nos Nomoi

 

em Zeus, a essência e a ação são idênticas, não há distinção entre elas, pois Deus é essencialmente um, nunca é ele diferente de si mesmo. Na inteligência, a ação é distinta da essência, mas a ação está sempre em exercício, nunca em repouso; também as criaturas que a inteligência produz sem a concordância de qualquer ser de outra classe são imortais. Na alma, distingue-se da mesma forma que a essência e a ação, mas, embora ativa em parte, é muitas vezes limitada em sua ação e reduz o papel de força inerte. Finalmente, no corpo, além de tudo isso, a essência é dividida em forma e matéria, matéria que não é apenas móvel, mas também decomposta e divisível até o infinito.

dans Jupiter, l’essence et l’action sont identiques, il n’y a entre elles nulle distinction, car ce Dieu est essentiellement un, jamais il n’est différent de lui-même. Dans l’intelligence, l’action est distincte de l’essence, mais l’action est toujours en exercice, jamais en repos; aussi les créatures que l’intelligence produit sans le concours d’aucun être d’une autre classe sont-elles immortelles. Dans l’âme, on distingue de même le essence et l’action, mais quoique active en partie, est le plus souvent limitée dans son action et réduite au rôle de force inerte. Enfin, dans le corps, outre toute cela, l’essence est divisée en forme et matière, matière que est non-seulment mobile, mais encore décomposable et divisible à l’infini.

 

Em sua época, o Império bizantino viu a chegada do tomismo. A partir desta influência, e também de uma acusação que vinha de séculos, Platão foi visto como fonte de todas as heresias. Além do mais, o tomismo representa tudo aquilo que Plethon não acreditava. O mundo caminhava, entretanto, para o sensualismo tomista e a visão da natureza como algo à parte do ser humano. Buscava-se a analogia, Deus a partir do sensível, mas Plethon já dizia que isto era algo impossível. Em seu comentário aos Oráculos Caldeus, ele ensina que não é possível estudar a natureza com olhos humanos, nem para, a partir dela, fazer uma abstração nem para buscar uma iluminação de Deus (2011, p.212).

Plethon lutou durante sua vida para destruir a ideia de que Platão e Aristóteles concordavam um com o outro. Ele agiu assim porque via uma tentativa dos cristãos de diminuir a importância de Platão. Thomas Taylor viu nesta tentativa um afastamento de Plethon do neoplatonismo. Mas a explicação seria que os neoplatônicos assim agiram para que os cristãos não roubassem Aristóteles para eles. Talvez nem mesmo Plethon quisesse atacar Aristóteles com tanta força, porque, apesar de tudo, era ainda um pagão. Mas resolveu ser ousado para forçar sua religião grega, e pagou o preço por isso.

Referências:

PLETHON, Nomoi. Harvard Law Library, 1912.

SINIOSSOGLOU, Niketas. Radical Platonism in Byzantium. Cambridge Universitu Press, 2011.

SIRIANO (Συριανός) Séc.V, Antiquissimi Interpretis in II, XII, Et XIII Aristotelis Libros Metaphysices Commentarius (1558).

 

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