Resenha: Górgias, de Platão

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É dramática a posição de Sócrates diante dos sofistas e de um projeto de tirano à la Nietzsche (Cálicles) no diálogo platônico Górgias. Ali estão projetadas questões de extrema importância como o valor da retórica como ciência, da justiça, do estado de exceção e da incapacidade de o homem justo lutar, neste mundo, contra a opressão dos maus. Só resta a Sócrates apelar, no final do diálogo, para o julgamento do mundo dos mortos para que a justiça seja restabelecida.

A retórica de sofistas como Górgias, Polo e de Isócrates pretende ser uma ciência do convencimento das plateias. O discurso se ajusta conforme a conveniência da hora e do local. Górgias acredita que o maior bem que possa existir, que é o objetivo da retórica, é o de convencer os juízes nas assembleias, ou mesmo de escravizar até os médicos com seus discursos (452e). Górgias supõe que a retórica é tão poderosa que une política e medicina, fazendo do sofista um auxiliar do médico no tratamento dos doentes (456b). A retórica, portanto, é a ciência suprema dos sofistas. Falar por falar, discursar, propagandear, promover polêmicas, ser um refutador, são marcas indeléveis de todo sofista ou de um candidato a ser um. Na República (537;539), Platão ensina que o dialético, que é a antítese do sofista e do retórico, é aquele que vê o todo, que já tem mais experiência de vida, possui treinamento sólido e busca a própria verdade do Ser. O dialético, diz Platão, não é um jovem que sai por todas as áreas tentando “refutar” os outros, perseguindo contradições. E não é tarefa do filósofo treinar tais “refutadores”. A dialética de Platão não é retórica como diz Aristóteles, que falsifica explicitamente, como é comum nele, o seu mestre (1354a). A dialética não conhecimento comum da política, não busca convencer e nem lida com o sensível. É absurdo supor que a dialética seja um instrumento de tribunais como quer Aristóteles!

Na Paideia de Platão, como lemos na obra de Werner Jaeger, não havia espaço nem para a retórica nem para o ensino de História. Isócrates, que foi um herdeiro dos sofistas, concedia importância, pela primeira vez entre os gregos, ao ensino de História. Ele acreditava que colecionar de memória fatos históricos aumentava o arsenal à disposição do retórico. O Mito e a poesia, que lidam mais com o universal ficavam para trás. Quando lemos o diálogo, percebemos que os sofistas eram grandes colecionadores de “fatos”. A História, assim, torna-se uma rica fonte de material para memorização para um uso futuro nos debates.

Aristóteles, na Retórica, ensina que o objetivo desta ciência, é a persuasão (1356a). Disputar é bom porque produz o prazer da vitória e a imagem da superioridade (1370a). Górgias também é adepto deste prazer que a disputa retórica produz, mas quer que esta arte seja usada com justiça, e não para que seu portador a utilize contra seus próprios pais, por exemplo (456d). Claro que Sócrates percebe nisso uma escapatória moral de Górgias, porque quem está tomado pela paixão das disputas dificilmente saberá discernir quando e onde utilizar a retórica para o bem (457d).

O retórico imaginado por Górgias e seguido em todos os séculos, e mais ainda nos tempos atuais com uma presença massiva da imprensa e da internet, é que o retórico é um verdadeiro animador de plateias. Ele não está em busca da verdade. Lida com o senso comum, não quer a ciência por si só, mas com alguns elementos soltos embaralhados em sua cabeça, tentar confundir o autêntico cientista, juiz, filósofo. É um competidor nato (459c).

O sofista é um agitador e fonte de desordens profundas na sociedade, especialmente quando entra em uma dialética perversa com os juízes nos tribunais. Uma das poucas coisas boas da Retórica aristotélica foi a percepção de que o juiz é alguém entregue a impressões do momento. Pelo que estudamos em 1354b, o juiz está longe de ser uma pessoa de ciência, e está entregue ao mais extremo dos casos particulares. Algo lamentável, ainda mais quando lembramos quantos privilégios e salários astronômicos que possuem. As leis são obra da autêntica ciência política, dos filósofos e homens de ciência. Aristóteles considera que os juízes são muito vulneráveis a estratégias de convencimento por parte dos retóricos. Se o futuro, portanto, de uma nação está sendo definido por uma disputa entre sofistas e juízes, o que podemos mais esperar? No Mito final do Górgias, Platão oferece uma impressionante visão da verdadeira justiça, que precisou ser transferida pelos Deuses do sensível para o reino dos mortos, justamente por causa da injustiça dos juízes.

Platão e Sócrates já haviam advertido a Aristóteles de que a Retórica estava abaixo do nível de ciência, não passando de mero passatempo (empiria), que produz apenas prazer momentâneo (462c). A retórica nada mais é do que uma falsa imagem da política, e nada se assemelha a dialética como quer Aristóteles (463d). A retórica nada mais é do que empiria prazerosa imediata, sendo que o melhor é sempre o mais difícil de alcançar (464).

Toda esta busca pelo prazer da disputa leva Polo a confundir poder com conhecimento. Ele considera que, pelo fato dos sofistas, retóricos e refutadores poderem até mesmo expulsar os seus oponentes de um país, realmente sabem o que estão fazendo, ou escolhendo o melhor. A ação pura se sobrepõe à justiça.  No diálogo Górgias 469a-b, há um debate tenso entre o sofista Polo e Sócrates. Polo acredita no poder da força, que aqueles que possuem o direito de condenar alguém à morte, mesmo que por motivos injustos, mas que exerce sua vontade, deve ser invejado. Sócrates, porém, ensina que o juiz que assim age merece apenas nossa compaixão. E, mesmo que a condenação proferida tenha sido justa, ele não merece ser invejado, tampouco exaltado. Nada mais atual…

O diálogo Górgias torna possível também uma reflexão sobre a ciência- ou a verdade- ser uma coleção de dados ou testemunhas sobre um tema. Vejamos: a ciência não é produzida a partir de uma coleção de dados recolhidos da experiência. Sócrates ensina a Polo, ou a alguns juízes (471e), que apresentar diante de um tribunal inúmeras testemunhas de acusação não basta para que fique demonstrada a culpa do réu. Erro semelhante comete Aristóteles em sua Retórica 1360a, ou mesmo na Política, de imaginar que recolher constituições dos outros e memorizá-las é o que faz a tarefa de quem quer ser um verdadeiro político. Já li críticas a Platão que o acusam de não ter lido as constituições de outros países, e ter pretendido analisar a política, em sua República, pelo estudo da alma humana. São dois métodos diferentes: um é empirismo; o outro, é dedutivo-hipotético. O sofista busca plateia para louvar sua performance numa disputa; quanto mais a claque for barulhenta, mais fica convencido de sua vitória.

Platão define, sim, um uso para a retórica: o da autoacusação. Este uso legítimo da retórica, vamos assim dizer, requer que não a utilizemos para lançar os outros contra os leões, mas para expor nossas próprias iniquidades (480d). Não devemos usar as palavras para denunciar os pecados alheios, mas antes de tudo denunciar ao público nossos crimes notórios.

Se Sócrates ainda usava seu tempo para convencer dois iludidos pela sofística, em determinado momento vê-se diante de um adversário que pretende declarar o que é válido, quem deve propor as leis e quer interditar a filosofia. Seu nome é Cálicles.

Cálicles despreza abertamente a filosofia, que julga ser apenas uma atividade de moços, inadequada para homens maduros. Ele tenciona amedrontar Sócrates pelo terror da força bruta. A verdade, para Cálicles, é uma força bruta da natureza. Ele é uma mistura exótica de Darwin com Nietzsche, porque acredita que as leis que beneficiam a humanidade foram impostas pelos fracos (a multidão). Isto impede que o poder amoral da natureza impeça a eliminação dos mais fracos, sendo os melhores (que são poucos) oprimidos pela moral dos escravos (483b). Como todo empirista tosco, Cálicles quer fazer uma analogia entre as leis humanas que protegem os desvalidos, e o comportamento dos animais selvagens que devoram suas presas. Sócrates, depois de um longo discurso sinistro de Cálicles, ao menos o agradece pela sua brutal franqueza. Górgias e Polo provavelmente pensam o mesmo que o candidato a tirano, mas ainda possuem alguns escrúpulos (4870. Ao menos quando nos vemos diante de situações excepcionais, inimagináveis algum tempo atrás, devemos fazer como Sócrates e louvar que aquilo que estava encoberto na sociedade e no íntimo de cada um, agora esteja exposto.

Cálicles é aquele que pretende declarar o Estado de exceção quando julgar que os inferiores estão por demais abusados. Seu mundo é o de homens superiores do sexo masculino, que é o mais próximo da natureza selvagem. Mulheres, crianças e os fracos devem sua existência a uma suposta benevolência dos “superiores”. Por superiores ele entende uma qualidade viril masculina de homens que dominam o conhecimento do Estado. Cálicles é adepto que esse grupo seleto de homens deixe fluir livremente sua “vontade de poder” (492 a). Mais uma vez Sócrates agradece que Cálicles seja tão explícito em sua crueldade. Mas deveríamos nos questionar o que leva uma sociedade a fazer brotar da terra sujeitos tão animalescos? Seria um processo longo ou súbito?

É muito provável que Cálicles estivesse incomodado que pessoas como Sócrates, sem poder, beleza ou força, pudessem estar ensinando ou pretendendo reformar a sociedade ateniense. Pessoas normais ou desprovidas de poder não eram do agrado de Cálicles. Ele nem mesmo estava disposto a ouvir o que Sócrates tinha a ensinar, quiçá porque a verdade não necessariamente é prazerosa aos ouvidos da maioria. É muito fácil propagar mentiras sendo agradável. Cálicles é um arrebatado pela excepcionalidade dos melhores! Assim como Carl Schmitt, que criticava o balanço de poderes das democracias, sua busca por tranquilidade, paz, etc, queria de todas as maneiras fundamentar o excepcional. Quem domina o estado de exceção domina ao Estado, e decide como as coisas devem funcionar dali por diante (1968, p. 49).

Toda esta retórica de força que inverte o que é justo, passando o injusto a ser lei e o justo fora-da-lei é um dos mistérios da política, como viu Agamben (2004, 61). Schmitt foi buscar na teologia alguns pontos de apoio para sua controversa tese. Acreditava que, se o Estado se julgasse ameaçado, o excepcional estado das coisas poderia ser declarado (2009, p. 18). Para ele, o Deísmo do século XVIII era um obstáculo a contornar-se porque impedia a existência do milagre na natureza, sendo uma influência nas democracias que impedem que alguém possa declarar o estado de exceção (2009, p. 37).

A suavidade da filosofia é descartada por Cálicles assim como os poderes moderadores o são por Schmitt. A filosofia será inútil quando o Estado de Exceção for declarado e Sócrates for preso. Inocente ou culpado, o que importa é que Sócrates não conhece os meios para livrar-se do estado modificado das leis e dos tempos. Desconhece as artimanhas da época. Não possui força nem tem como amigos os retóricos para o salvarem da morte.

Agamben, que em seu livro Homo Sacer, estudou de modo profundo esta vida colocada fora da jurisdição normal, é um autor muito importante para os nossos dias. É como era a situação do herege, dos vagabundos que andavam em bando, na Idade Média; dos judeus na Segunda Guerra; dos adversários políticos em todos os tempos. Umberto Eco, em o Nome da Rosa, escreveu sobre como se comportava um juiz no Estado de Exceção da Inquisição:

“O inquisidor está fora de qualquer jurisdição regular, e não deve seguir as normas do direito comum. Goza de privilégio especial e não é sequer obrigado a escutar os advogados.” p.357

“mas em todo caso eu sou aqui o teu único juiz, e tu és coisa minha”. p.358

Como faria Sócrates para escapar das ameaças de Cálicles? Sendo um amigo de seu tempo, assumindo seu Dasein, como queria Heidegger, ainda que Agamben queira defender o filósofo alemão.

Olimpiodoro foi um filósofo neoplatônico do século VI. Possui um valioso comentário ao diálogo Górgias. Ele ensina que quem não quer sofrer injustiça deve ser um amigo da constituição em vigor, assimilando-se a ela e, portanto, perdendo sua alma. A constituição interna do homem justo é sempre superior à da constituição vigente.

Uma resposta possível por que uma sociedade se aproxima de um estado de coisas excepcionais seja por uma mistura de culto da força e pelo avanço de um senso comum banal colocado na boca de retóricos e sofistas. Todos sabem que a Alemanha possui pensadores de primeira grandeza, mas o Nazismo foi feito por uma base de “intelectuais” medíocres. Esta força pode pretender ser revolucionária, mas ela não é de maneira alguma “gnóstica” como pretende Eric Voegelin (1982, p.107). Os poderes constituídos não a perceberão como “gnóstica” porque elas estão ancoradas no mais puro “conservadorismo cristão”, seja para combater os comunistas, seja para propagar o Evangelho derrubando todas as leis e os costumes dos povos, como viu o platônico Celso, e o próprio Voegelin, neste mesmo livro. Não se chega a queimar-se bruxas sem que as mulheres sejam vistas como um acidente, geradas por um vento úmido vindo do Sul (Suma Teológica, L.1 Q. 92, A.1), inúteis para auxiliar o homem em sua jornada na Terra (ibid.). O senso comum de Cálicles o indica que a filosofia é inútil e Sócrates um bobalhão. A Tomás de Aquino diz que a mulher é um acidente, quando só mesmo alguém que conhece muito pouco da vida pode acreditar que a mulher é mais fraca do que o homem. Se o homem tem a força física, a mulher tem a força da resistência psicológica, que é a vencedora, ao final.

Como escrito acima, Cálicles não quer adquirir ciência e nem a justiça verdadeira é possível neste mundo, e o mito final do diálogo Górgias transfere a justiça divina para o outro mundo. Da mesma maneira que Aristóteles viu nos juízes humanos uma imensa vulnerabilidade à retórica dos sofistas, nos tempos antigos os Deuses julgavam os seres humanos ainda neste mundo da carne, e cada qual se apresentava com a máscara da posição que ocupa na sociedade. Isso pervertia o justo juízo; sendo Zeus alertado, esperou que todos morressem para que estivessem inteiramente nus, não sendo mais enganados pelo véu dos órgãos da sensibilidade. No Hades, o julgamento mais terrível será destinado a todos os tiranos que se autodeclaram senhores do Estado de exceção, e que pervertem a lei. Ficarão suspensos em cruzes no calabouço mais profundo do Hades, servindo de exemplo para os novos condenados. Todo o esforço de Sócrates foi para provar que é melhor sofrer uma injustiça do que praticá-la. Antes ser uma pessoa humilde e ignorada em busca do conhecimento e da ciência do que um tirano ou um refutador que tem o aplauso da sociedade de seu tempo. Como diz Homero na Odisseia:

“Antes ser na Terra escravo de um escravo

Do que neste mundo (o Hades) rei de todas as sombras.”

Livros citados

AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer. 2.Ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.

                                O Estado de Exceção. São Paulo: Boitempo, 2004.

ARISTÓTELES. Retórica. 2.Ed. Imprensa Nacional, 2005.

ECO, Umberto. O Nome da Rosa. Nova Fronteira, 2003.

VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política. 2.Ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1982.

OLIMPIODORO, o jovem (Ὀλυμπιόδωρος ὁ Νεώτερος ). Comentário ao Górgias, Séc.VI. Editora Brill, 1998.

SCHMITT, Carl. La Dictadura. Madrid: Revista de Occidente, 1968.

                         Teología Política. Madrid: Editorial Trotta, 2009.

 

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