Resenha: Quincas Borba, de Machado de Assis

quincas-borba-11

Quincas Borba é, em minha opinião, o livro mais triste de Machado de Assis. Sabemos que o autor brasileiro era bastante pessimista em relação à natureza humana, e foi muito influenciado pela filosofia de Arthur Schopenhauer. Neste livro o pessimismo se aplica às filosofias que pretendem nos convencer de estamos rumo a um progresso e que tudo tem sua razão de ser. O século XIX foi a era da fé no progresso da técnica e da ciência. Hegel, Comte, Marx e Darwin foram otimistas o suficiente para acreditaram em evolução e transformação. Machado de Assis cria o personagem de Quincas Borba para representar esta tendência otimista de sua época e, no caso, especialmente o positivismo de Comte que tanta influência teve no Brasil.

O discípulo do filósofo criador do Humanitismo é o personagem Rubião, que herda uma grande fortuna do falecido Quincas Borba, além de seu cachorro, que o acompanha durante o romance e compartilha com Rubião o seu destino trágico.

Rubião é, assim como outros personagens de Machado de Assis, um ocioso que tem dinheiro o suficiente para viver sem trabalhar. Gasta seu tempo com passeios, teatros, etc. Durante uma viagem de trem conhece o casal Cristiano Palha e Sofia, sendo ingênuo o bastante para revelar espontaneamente para Cristiano, um capitalista, sobre sua herança.

O universo de Machado de Assis não contempla nenhum tipo de Graça ou Providência Divinas; a natureza é implacável. O mendigo pode agradecer que o céu não caia sobre sua cabeça, mas o mesmo céu o responde que ele também não poderá subir até ele, numa passagem melancólica do livro. Não somente a natureza é implacável, mas pior ainda é a sociedade humana. Rubião deveria ter um mínimo de precaução, mas não sabe o que faz.

No decorrer do romance, Cristiano Palha começa a iludir Rubião com promessas de ganhos financeiros em uma sociedade comercial, sendo que Rubião nada entende desses assuntos. Mas além de ociosos é imprevidente e otimista; quer ganhar mais dinheiro.

Mas o plano mais diabólico de Cristiano Palha é utilizar sua mulher para seduzir Rubião. Sofia conhece sua própria beleza e seu poder de atração. Utiliza de algumas sutilezas para atrair o ingênuo Rubião, dando a entender que se interessa por ele. Aqui o papel de Sofia lembra muito o poder destrutivo de uma figura da anima da psicologia junguiana. Um homem que não tenha desenvolvido a anima o suficiente pode encontrar neste aspecto feminino de sua alma o próprio demônio da morte. E é assim que acontece.

A sociedade humana reproduz de uma maneira mais cruel a indiferença da natureza. Darwin havia ensinado que somente os mais aptos sobrevivem; ao menos a natureza não nos engana, mas a civilização, sim. No entendimento de Machado de Assis existem inúmeros subterfúgios que homens e mulheres utilizam, sob uma máscara de bondade, para sobreviverem e, ao mesmo tempo, descartarem os mais fracos da sociedade humana. Ao menos em Schopenhauer existe uma via de salvação, mas não consigo ver em Machado de Assis uma resposta mais evidente de como cada um poderia salvar-se deste jogo macabro. Esta é uma crítica que faço aos seus livros, porque ele termina por ser muito mais pessimista do que o próprio Schopenhauer. O livro tem um final extremamente triste e, apesar do alerta e da ironia que Machado de Assis faz aos sistemas otimistas de sue tempo, não nos indica algum caminho de salvação.

Não considero que o livro tenha maior profundidade. Ali está representada uma parcela ínfima do que seria a sociedade carioca do século XIX. O sentido universal do sofrimento está escondido sob o manto da caricatura, por causa disso, creio que as pretensões do romance não alcancem seu objetivo.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: