Resenha: Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

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Considero que Lima Barreto deveria ser muito mais valorizado em nossa literatura. De linguagem simples, mas com uma visão atual do país à frente da imensa maioria dos escritores brasileiros (Graciliano Ramos é parecido com ele), seu romance Triste Fim de Policarpo Quaresma é uma crítica engraçada- mas ao mesmo tempo, profunda, da nossa burocracia e da nossa mediocridade.

Quaresma é ridicularizado por ter duas qualidades que, no fundo, os brasileiros sempre desprezaram: ler e obter conhecimento de maneira desinteressada e é patriota. Educação neste país sempre foi para constar e conseguir vantagens na carreira; depois que se consegue, pode-se fazer como um dos personagens que se orgulha de não ler um livro há 40 anos…

Patriotismo não tem razão de ser porque não temos nenhuma noção de irmandade, apenas compartilhamos um território. Os próprios militares do livro, como muitos atualmente, estão lá só para obter vantagens, ter posição e nunca lutaram uma guerra verdadeira…

Otimista e utópico, Quaresma tenta convencer a todos que a língua deveria ser mudada do português para o Tupi. Fracassa e é internado como louco. Convence-se de que nossa terra é a mias fértil do mundo, mas encontra não somente a praga das formigas, mas também a oposição política e dos latifundiários. Lima Barreto aproveita também para fazer uma excelente análise sociológica do interior do Brasil. Pessoas famélicas, desmotivadas, sem educação e nem religião, que apenas observam o tempo passar. Acredita que em outros países esse conjunto de fatores levou a revoluções, mas nem disto o brasileiro seria capaz. Acertou em cheio…

Fracassa no campo e, em sua última cartada, tenta levar planos de governo ao ditador Floriano Peixoto. Ao menos um governo de positivistas esclarecidos talvez tivesse iniciativa. Nem ali, porém, escapava da lógica perversa do Brasil em que todos buscam levar vantagem em tudo. Muita pompa e ideias ridículas sob o manto de progressismo científico-positivista, mas os governantes e oficiais são tão medíocres quanto o povo no geral.

Lima Barreto aproveita para zombar dos saudosistas e reacionários que afirmavam que o modelo deveria ser a Idade Média católica e sua barbárie. O sofisma de que houve um tempo de ordem cristã é desmascarada pelo autor. Nossa desordem também é fruto desta herança cristã-católica.

O Brasil mata seus sonhadores ou com uma bala ou com desespero. O caos e a malandragem denunciados por Lima Barreto nesta excelente obra estão mais vivos do que nunca. O problema é que no tempo dele ainda havia um imenso futuro pela frente e a esperança de que a nossa jovem população pudesse modificar o país. O futuro chegou, a população envelheceu, e a esperança se esvai. Por que não há um novo Lima Barreto para escrever semelhante obra em nossos dias?

No fundo, diante da apatia da sociedade brasileira, pouca coisa poderia ser feita. A religião vivia de supostas glórias do passado, o povo estava largado à própria sorte, não havia educação e cada qual tentava passar a perna no outro. Quaresma é uma espécie de Dom Quixote brasileiro; Dom Quixote vivia deslocado em uma Espanha de uma cavalaria que já havia produzido seus heróis; já Quaresma vive alienado em um Brasil que jamais veio a ser. Não passa de uma quimera que vive de certa maneira na psique dos brasileiros, que concede a cada um de nós um perdão por nossa falta de iniciativa e de honestidade porque, no final, se cada um fizer o certo (e todo brasileiro também sabe!) ninguém vai segurar este país…

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